Uma igreja como a de Filipos

Thomas Hahn, um dos preletores do 1º Encontro Regional do Movimento Cristão 60+, relata as suas impressões sobre o evento. Acompanhado de sua esposa, Christine, com a bênção do pastor Irland Azevedo (também um dos preletores), celebrou seu aniversário de 89 anos na companhia de muitos 60+

Por Thomas Hahn

O Primeiro Encontro Regional do MC60+ aconteceu na Igreja Evangélica dos Cristãos de São Paulo, no dia 17/05/2025 – por coincidência, no meu aniversário: 89 aninhos.

Passar parte da manhã, almoçar com direito a bolo e uma bênção do pastor Irland Azevedo, ouvir palestras que tinham tudo a ver com o propósito deste grupo (que trata dos problemas e necessidades dos idosos, e do papel que a igreja pode desempenhar ) foi uma maneira abençoada de celebrar mais um ano de vida – e mais um ano mais próximo da eternidade com o Deus Triúno!

Logo ao entrar na igreja, soube que estava em um lugar diferenciado. A organização perfeita, nos mínimos detalhes, a cordialidade no receber dos visitantes, a atmosfera de amor que envolvia a todos como uma nuvem de aroma suave – eu estava na igreja de Filipos, aquela que Paulo amava de maneira especial, pelo amor entre os irmãos, a generosidade e a fidelidade às Escrituras. Antes da minha palestra, pude ouvir mais duas.

A primeira foi, realmente, um deleite. A igreja mantém um ministério, o Lírios do Campo, que, na sua essência, é um day-care para idosos. Mas, vejam, o objetivo não é o idoso propriamente dito: é o cuidador, aquele que cuida diuturnamente do idoso, sem descanso ou folga. Que bela ideia! Que delicadeza no pensar naqueles de quem ninguém se lembra.

Ainda bem que o Ageu Heringer Lisboa falou a seguir, dando-me um tempo para me recompor. Ageu, o lutador por boas causas desde sempre, lúcido e animado, nos deu um panorama tanto psicológico quanto espiritual do idoso. Não é fácil encontrar pessoas com tamanha disposição para fazer o bem, mesmo entre os mais jovens.

Ao pastor Robert Koo, à equipe pastoral da igreja, a cada pessoa que deu seu tempo e esforço para a realização deste encontro, meu muito obrigado. Não, isto é pouco para quem me promoveu um aniversário inesquecível. O certo é: Um beijo no coração!

Thomas Hahn, 89 anos, nasceu em Viena, Áustria, mas é carioca por formação. É casado com Christine há 61, com quem tem três filhos. Foi ordenado pastor aos 87 na Igreja Batista da Granja Viana, em Cotia, SP.

Assista à programação do 1º Encontro Regional do MC 60+ aqui.

Leia mais:
>> Ser ou não ser humilde?, por Thomas Hahn

Envelhecimento saudável

Por Jorge Cruz

Os cabelos brancos são uma coroa de glória, quando embranquecem no caminho da honradez. Provérbios 16.31

O envelhecimento da população está ocorrendo em todas as regiões do mundo, à medida que os progressos médicos e tecnológicos e a melhoria do acesso aos cuidados de saúde vão contribuindo para um aumento da longevidade. No Brasil, a expectativa de vida ao nascer aumentou mais de trinta anos desde 1940, sendo atualmente de 76,8 anos.

A Assembleia Geral das Nações Unidas declarou o período de 2020 a 2030 como a década do envelhecimento saudável, procurando encorajar os decisores políticos, a sociedade civil, as instituições acadêmicas e a mídia a cooperarem na melhoria das condições de vida dos mais velhos, suas famílias e comunidades.1

O envelhecimento é um processo fisiológico progressivo e inevitável que conduz à deterioração da estrutura das células, comprometendo a função dos diferentes órgãos e sistemas. Ao nível celular, tem início mesmo antes do nascimento, sendo determinado por fatores genéticos e ambientais. Porém, em termos práticos, faz sentido situá-lo a partir da sexta década da vida, quando o declínio orgânico e funcional do corpo humano começa a manifestar-se com maior intensidade, apesar da grande variabilidade individual. Se dividirmos o tempo de vida de uma pessoa em estações, o envelhecimento é mais notório no outono da vida, quando o cabelo se torna grisalho (ou inexistente), a capacidade física diminui e o peso corporal aumenta. Está geralmente associado à idade de aposentadoria, que na maioria dos países ocorre entre os 60-65 anos.

O envelhecimento não é uma doença. É um fenômeno fisiológico natural que representa uma etapa importante do ciclo de vida das pessoas, apesar de algumas limitações que traz. Sendo inevitável (a não ser que ocorra uma morte prematura), pode ser retardado por meio da adoção de estilos de vida saudáveis, de modo a aumentar a qualidade de vida e a prevenir o aparecimento de doenças associadas à idade avançada, em particular as doenças cardiovasculares e oncológicas. Um dos aspectos mais sombrios do envelhecimento é surgirem com frequência doenças degenerativas do sistema nervoso, entre as quais a doença de Alzheimer e outras formas de demência. No entanto, alguns estudos têm demonstrado que a idade média de aparecimento das doenças crônicas aumentou cerca de dez anos nas últimas décadas.

Em 2002, a Organização Mundial de Saúde introduziu o conceito de envelhecimento ativo, que é o processo de otimização das oportunidades para a saúde, participação e segurança, para melhorar a qualidade de vida das pessoas que envelhecem. O objetivo é que cada cidadão possa envelhecer com saúde e autonomia, mantendo em idades avançadas as capacidades físicas e mentais que lhe proporcionem bem-estar, continuando a participar plenamente na sociedade e a usufruir de uma boa qualidade de vida.

Para um envelhecimento ativo e saudável é importante uma atividade física regular, bons hábitos de sono e de descanso, uma alimentação equilibrada, rica em frutas e legumes e com pouco sal e açúcar, a abstinência tabágica e de bebidas alcoólicas, e a toma de medicação considerada necessária, por exemplo, para o controlo tensional. Uma atividade mental estimulante e desafiadora também é essencial para uma saúde integral, assim como boas relações de afeto e estima no seio da família e da comunidade.

Um dos resultados da aposentadoria, que surge com o envelhecimento, é uma maior liberdade no uso do tempo, sem as imposições rígidas de um horário laboral. A experiência adquirida ao longo da vida e, no caso dos cristãos, a sua esperada maturidade espiritual, torna os mais velhos entre nós um recurso indispensável, embora por vezes desvalorizado e subaproveitado, ainda que muitos se envolvam em diversas atividades de voluntariado, que é uma excelente forma de promoção do envelhecimento ativo.

A Palavra de Deus afirma o valor e dignidade do ser humano em todas as fases da vida, desde a concepção até a morte natural. Na carta a Tito (2.2-3), o apóstolo Paulo realça o papel fundamental e imprescindível dos homens e mulheres mais velhos na comunidade cristã, para que sejam um exemplo de moderação, respeito, sabedoria, fidelidade, amor e perseverança, contribuindo assim para o crescimento e edificação da fé dos mais novos (cf. Salmos 92. 14-15).

A vida humana é limitada e o envelhecimento faz parte dela. John Wyatt, professor catedrático de neonatologia no Imperial College, em Londres, e um cristão convicto, salienta: “A esperança de vida do ser humano é limitada, não apenas como resultado do castigo de Deus, mas também da sua graça e misericórdia”, porque “no cuidado de Deus para com a sua criação, não era possível que o ser humano vivesse eternamente no seu estado degradado e limitado como consequência da Queda”.2 A mensagem do evangelho anuncia a destruição da doença, do sofrimento e da morte, e a esperança de vida eterna, por meio de Cristo e do seu sacrifício na cruz, para salvação de todos os que nele creem. Como refere o apóstolo Paulo em 2 Coríntios 4.14,16: “[Deus,] que ressuscitou o Senhor Jesus, nos ressuscitará também por Jesus, e nos apresentará convosco (…) Por isso não desfalecemos; mas, ainda que o nosso homem exterior se corrompa, o interior, contudo, se renova de dia em dia”.

Notas

  1. Decade of Healthy Ageing
  2. Wyatt, John. Matters of Life & Death: Human dilemmas in the light of the Christian faith. Inter-Varsity Press, Nottingham, 2009, p. 219.
  • Jorge Cruz é médico especialista em Angiologia e Cirurgia Vascular, doutor em Bioética, membro do Comitê de Países de Língua Portuguesa da International Christian Medical & Dental Association (ICMDA), membro honorário da Associação Cristã Evangélica de Profissionais de Saúde (ACEPS-Portugal), membro do Conselho Internacional da PRIME – Partnerships in International Medical Education. Mora em Porto, Portugal.

Artigo publicado originalmente no portal Ultimato em janeiro de 2022.

Baixe gratuitamente o e-book Experiência e Esperança na Velhice aqui.

Mais um Encontro 60+

Osvaldo esteve no 1º Encontro Regional do Movimento Cristão 60+, realizado em São Paulo, SP, no dia 17/05/2025, e sua participação rendeu o poema a seguir

Por Osvaldo Filho

Aprendemos a envelhecer com graça,

Não como fardo, mas como missão.

Cada ruga esconde uma esperança,

Cada passo guarda uma revelação.

Espiritualidade que se aprofunda,

No silêncio, no clamor e na oração.

Finitude que já não nos assusta,

Pois a eternidade está no coração.

Lidamos com perdas e com partidas,

Mas no luto também tem alvorada.

Pois Cristo venceu a própria morte,

E a esperança nunca está calada.

O idoso é ponte que liga os tempos,

É elo vivo entre ontem e amanhã,

Traz sabedoria em seus acalentos

E guia os jovens com sua voz sã.

Aprendemos a viver o imprevisível,

Na fé que vê além da escuridão.

Na glória de Cristo, nossa âncora firme,

No hoje, no sempre e na ressurreição.

Consolidamos um ministério ativo,

De troca, afeto e encorajamento,

Onde o vigor não se mede em passos,

Mas no ardor do comprometimento.

Cada dom que a vida nos deu,

Cada história que o tempo ensinou,

É ferramenta na obra do Reino,

Que com entusiasmo se renovou.

Avançamos com alegria e coragem,

Capacitados pelo Espírito de Deus.

E o bem que fazemos com maturidade

Nos devolve paz, saúde e os céus.

Osvaldo Honório dos Santos Filho, missionário e pastor com atuação em diversos campos da missão transcultural — Europa, Ásia, África e América Latina, atua também como palestrante e professor de antropologia missionária e missiologia. Desde os 14 anos, escreve poemas e artigos, e recentemente transformou o Evangelho de João e sua Primeira Carta em poesia. Tudo faço para Ele, “porque dEle, por Ele e para Ele são todas as coisas”.

Assista à programação do 1º Encontro Regional do MC 60+ aqui.

Nada é para sempre?

Pensar que nada é para sempre pode evocar tristeza e insegurança, mas, noutra perspectiva, é um alerta para aproveitar bem aquilo que experimentamos de bom e a bondade na história hoje

Por Christian Gillis

Recentemente tornei-me um 60+. Fiquei reflexivo, contando e considerando os meus dias, buscando alcançar alguma sabedoria da história vivida para o tempo vindouro.

Tive uma sensação semelhante por volta dos 30, na virada da juventude para a vida adulta, quando elaborava planos para a fase seguinte, contando ainda, porém, com boa saúde. Agora a conjuntura é diferente, o corpo envelheceu e desgastou-se (2Co 4.16); a força e as possibilidades são limitadas; as escolhas, então, mais restritas.

Lembrei-me também do filme dirigido por Robert Redford Nada É para Sempre (1992), que conta, em perspectiva, as mudanças que ocorrem no corpo, nos relacionamentos, nos caminhos… enfim, na dinâmica da vida humana, ainda que alguns anseios e perguntas estejam continuamente subjacentes na alma.

Na Palavra do Eterno, a brevidade da vida humana é um tema recorrente.

Moisés declara: “Os dias da nossa vida […] passam rapidamente; nós voamos” (Sl 90.10) e o profeta Isaías constata: “[…] Toda a humanidade é como a relva, e toda a sua glória como as flores do campo. A relva murcha e cai a sua flor, quando o vento do Senhor sopra sobre eles […] A relva murcha, e as flores caem, mas a palavra de nosso Deus permanece para sempre” (Is 40.6-8).

Tiago, a seu tempo, pergunta: “[…] Que é a vida? É um vapor que aparece por um pouco, e logo se desvanece” (Tg 4.14) e Jó assinala que a existência “[…] foge como uma sombra e não permanece” (Jó 14.2).

Assim como a existência é breve, parece que os projetos humanos também são transitórios, mesmo os muito bons, servindo durante algum tempo à sua época. Permanece, depois de tudo, algo do legado impresso no coração dos que foram abençoados, dos que seguem caminhando na história e levam na memória o bem comunicado.

Nada é para sempre, nem mesmo as coisas deste mundo que parecem mais sólidas e inabaláveis. Tudo passa. Não seria essa uma perspectiva lúgubre, pessimista? Considerar a finitude, os limites, é antes uma percepção realista, que ajuda a fazer melhores escolhas no presente, pensando nos anos seguintes, e estimula a averiguar o que seria eterno.

O fato é que tudo na vida natural está sujeito a mudanças. Há o envelhecimento e a morte; relacionamentos desgastam e quebram, objetos e instituições acabam ou perdem sua funcionalidade. Como nada aqui é permanente, como o é agora, devemos ser sábios e cuidar daquilo a que o coração se apega.

Na dinâmica deste mundo, como ouvimos de tantas histórias, o que temos pode ser tirado de nós e por isso devemos fundar nossa segurança, significado e sentido em bases consistentes.

Pensar que nada é para sempre pode evocar tristeza, medo, insegurança e até ansiedade, mas, noutra perspectiva, é um alerta para aproveitar bem aquilo que experimentamos de bom e a bondade na história hoje.

De todo modo, a vida nessa configuração é, de fato, impermanente e, na existência atual, as coisas podem mudar rápida ou lentamente, sendo sábio preparar-se para o inesperado e usar bem o tempo hoje, vivendo a vida com densidade, especialmente nas relações pessoais.

Mesmo que algo ruim aconteça, ainda podemos sempre aprender com os erros e tentar seguir em frente partilhando a sabedoria.

A expressão “nada é para sempre”, por outro lado, indica que há uma renovação contínua em curso, com novas possibilidades surgindo, que há mudanças acontecendo e novas chances de começar.

Graças ao Deus Eterno, que nos ama eternamente, que é rocha sempre firme, cuja Palavra subsiste para sempre, mesmo que os céus, a terra e tudo à nossa volta passe; o Deus que faz todas as coisas novas e eternas em Jesus, o Deus que dá vida eterna a criaturas que faz novas para habitar a nova criação; graças ao Deus que todo dia, apesar do desgaste do nosso corpo mortal, nos renova interiormente com esperança no coração enquanto peregrinamos por este mundo, até que venham os definitivos novos céus e nova terra.

Christian Gillis é pastor na Igreja Batista da Redenção em Belo Horizonte, MG

Artigo originalmente publicado na edição de novembro/dezembro de 2025 de Ultimato.

Leia mais:

O grupo 60 na Igreja Batista da Redenção em Belo Horizonte

A bênção de ter – e de ser avós

Avós podem construir e ou reforçar caminhos do bem na vida dos netos

Por Esther Carrenho

Não tem como começar a escrever sobre relacionamento entre avós e netos sem recorrer às memórias que tenho da minha vida. Minhas duas avós já tinham falecido quando eu nasci. E fico imaginando que possivelmente minha infância teria sido mais alegre se elas ainda estivessem vivas. Mas tive os avôs.

Um deles, aos meus olhos e percepção de criança, era assustador. Vivia de cara feia e reclamando de tudo. Falava muito em esmurrar e até em matar alguém. Como ele tinha um revólver, eu achava que ele podia matar mesmo. Então mantinha distância.

O outro era neto de escravos e totalmente diferente. Era amoroso, acolhedor e eu não tinha medo dele. Quando tinha dez anos, fui morar em sua casa para fazer o último ano do curso, hoje chamado Fundamental I. Ele fez um balanço para mim embaixo de uma mangueira e sempre deixava a rede de que ele gostava livre para que eu me deitasse nela.

A escola oferecia sopa e arroz doce na hora do chamado recreio. As crianças que levavam como contribuição uma quantidade de arroz tinham o direito a comer sopa e arroz doce. Então, além de algum lanche que levava de casa, eu roubava arroz da dispensa com frequência. Meu avô, que já era viúvo e continuava sem parceira, era quem cozinhava e notou rapidamente o saco de arroz diminuindo. Foi fácil descobrir para onde o arroz estava indo. Amorosamente me chamou e disse: “Você só precisava pedir. Acho que você ficou com medo de receber um não. Mas o que tenho para você é um sim”. E me abraçou carinhosamente. Em nenhum momento me repreendeu pela mentira e pelo furto. A atitude amorosa e acolhedora dele, dali para frente, foi um estímulo para que eu me tornasse mais corajosa em pedir e para ser mais verdadeira.

Hoje eu tenho sete netos que têm entre treze e vinte e quatro anos. Com todos tenho uma boa interação. Com alguns convivi pouco, alguns moram bem pertinho outros moram em outro país.

Listo aqui experiências gratificantes que podemos desfrutar no tempo passado com os netos, durante a infância deles.

Contar histórias
A primeira é que podemos contar muitas histórias vividas. Os tempos vão mudando e eles amam ouvir as experiências vividas pelos avós em tempos, lugares e situações diferentesv. Meu primeiro neto queria sempre que eu ficasse com ele à noite até o sono chegar contando histórias da minha vida. E a neta mais velha, que morava longe, sempre que nos visitava com os pais, pedia para colocar o colchão dela no chão ao lado de onde eu durmo, para que eu contasse histórias até ela adormecer. E eu contava todas as histórias de meninas e mocinhas da Bíblia.

Outro neto, por volta dos sete anos, era aficionado em histórias de herois. Via os animes e outros desenhos infantis que traziam sempre um heroi invencível. Contei pra ele que eu também tinha um herói. E que o meu era mais forte que todos os heróis dele. E travamos este diálogo:
Ele: O meu herói é forte, ninguém derrota ele…

Eu: O meu também. Uma vez ele ficou 40 dias sem comer…

Ele: O meu herói tem muita força e poder, ele aparece do nada…

Eu: O meu também. Um dia seus amigos estavam numa sala e de repente ele apareceu no meio…

Ele: O meu herói voa…

Eu: O meu também. Chegou um dia que meu herói entendeu que não dava mais para ficar na terra e voou para o céu.

Ele: Mas o meu herói, ninguém consegue matar…

Eu: O meu conseguiram matar! E ele morreu, mas acredite, ele não ficou no túmulo. Depois de três dias descobriram que um lenço que era parte da roupa que ele usava estava dobrado no túmulo, mas ele não estava mais lá. Tinha saído vivo.

Ele ficou intrigado, pensativo, curioso e saiu perguntando qual era o nome deste herói. Até que alguém lhe falou que era Jesus de Nazaré. Mas até hoje – já um jovem adulto – ele se lembra dos nossos heróis.

Escutar com o coração
A segunda coisa que podemos fazer é escutar, não só com os ouvidos, mas também com o coração tudo que um neto quer contar. Isto significa escutar atentamente, sem censura e sem querer corrigir. Muitas vezes são medos e dificuldades na escola, críticas, apelidos e chacotas que recebem dos colegas. E até queixas e dificuldades com os pais no convívio diário e nas tarefas do dia a dia. Quando ouvimos com atenção damos espaço para que eles falem e, falando, muito peso e angústia saem do seu coração, deixando-os mais leves e livres. Há situações da vida dos netos que não podemos mudar, mas podemos responder com empatia. Podemos deixar claro que entendemos que é muito difícil mesmo, mas que estamos juntos e queremos caminhar perto.

É importante lembrar que, por mais que os avós tenham estudado e adquirido conhecimento, com certeza os netos têm oportunidades de aprendizados de coisas novas e poderão ampliar nosso conhecimento. Então sair do patamar de que sabemos muito e se dispor a escutar o novo que vem dos netos é gratificante para os dois lados. Lembro do dia que depois de elogiar um neto de nove anos porque ele tinha me dito algo que eu não conhecia ele disse: “Tem coisa que você sabe que eu ainda não sei; mas tem coisa que eu já sei e você não sabe”. E ele estava certo!

Ter contato físico
A terceira coisa que os avós podem fazer e que contribuirá muito para o bem-estar emocional dos netos é o contato físico. Este contato pode acontecer através do abraço, do toque carinhoso, do colo e até da brincadeira. O brincar pode ser a oportunidade para ficar perto e se tocarem vez ou outra. A pele é o maior órgão do corpo e um meio rápido de registro de prazer. Então quando um deles bate a perna ou o braço, aproveite para fazer uma massagem demorada com algum creme. A dor da batida vai passar e o prazer do contato ficará para sempre registrado na memória corporal.

Avós ajudam a construir caminhos do bem

Posso citar outras experiências, mas aqui vou deixar a última, que é providenciar algo que crianças e adolescentes gostam e deixar disponível para eles sempre que quiserem e puderem. Pode ser desde construir uma piscina como oferecer uma refeição saborosa ou simplesmente deixar uma caixa de chocolate sempre disponível.

Como psicoterapeuta de adultos, mais de uma vez já ouvi: “Foi muito difícil quando meus pais se separaram, mas meus avós foram acolhedores e amorosos e fizeram toda a diferença na minha vida. Não sofri demais e não fui para caminhos piores por causa do amor e do cuidado dos meus avós”.

Então está claro que, em todo o tempo, os avós podem construir e ou reforçar caminhos do bem na vida dos netos, através da presença, dos passeios, das comidas apetitosas, das brincadeiras, do diálogo, da escuta e do carinho.

Avós, aproveitem e sejam presentes! Façam a diferença! Sejam construtores de bons caminhos e boas lembranças na vida dos netos!

Legenda das fotos
1. Eliel Carrenho [esposo da autora] e Lorenzo, o neto adolescente.

2. O desenho desta caneca (todos os meus 7 netos segurando minha mão) revela como a vida é paradoxal. Já peguei no colo e conduzi pela mão os sete. Uns mais outros menos…
No entanto, chegou o tempo que, quando estou com algum deles ou alguma das duas, eu preciso da mão e do braço para suporte! E eles amorosamente me dão o apoio de força que meus joelhos enfraquecidos já não conseguem mais!!! Gratidão por cada um deles e delas!

Esther Carrenho, teóloga, psicóloga e autora do livro: Em Busca do Bem Estar Emocional: Quando espiritualidade e psicologia caminham juntos e outros. @esthercarrenho.

Leia mais:

O papel dos avós na família, por Gilson Bifano

A velhice e a Bíblia

Ao voltar-se para a Bíblia, o leitor se surpreenderá com a abrangência na abordagem do envelhecimento humano

Por Wilson Nunes

O famoso escritor C.S. Lewis menciona sua convicção no cristianismo declarando que acreditava no cristianismo como acreditava no sol que se levantava, não apenas porque via o sol, mas porque podia ver todas as outras coisas através da luz irradiada por ele. Para C. S. Lewis o cristianismo proporcionava essa forma abrangente ou transcendente de ver o mundo. Semelhantemente, penso que o gerontólogo ao voltar-se para a Bíblia expondo-se à sua luz se surpreenderá com a abrangência e a atualidade da literatura bíblica na abordagem do tema do envelhecimento humano. Neste sentido, apresentando o tema da velhice na perspectiva do Antigo e do Novo Testamento formulamos expectativas de oferecer uma contribuição ímpar para os estudos científicos além de um incentivo ao compromisso de garantir às pessoas idosas condição de vida mais humana em uma sociedade de contínua e rápida transformação. Nossa reflexão acerca da velhice a partir da literatura bíblica nos permitiram pontuar três ordens de conteúdos cujas especificidades discorremos a seguir.

Concepções bíblicas acerca das pessoas idosas

Para o povo de Israel, a vida longa era vista mais como benção do que como carga. Chegar à velhice era considerado como recompensa pela piedade, um sinal do favor divino.  “[…] e nunca se desvie do caminho que ele lhe mostra. Assim tudo correrá bem para todos vocês, e viverão muitos anos na terra que vão possuir” (Dt 5.33).“Mais uma vez os velhinhos e as velhinhas, com as suas bengalas na mão, vão se sentar nas praças de Jerusalém” (Zc 8.4). A velhice era considerada parte geral do propósito de Deus para uma vida normal.  Longe de ser vista como uma situação atípica ou como um simples acidente, ela é enfatizada como algo a se esperar da parte de Deus, é como se Deus mesmo conspirasse por uma vida longa para todos os indivíduos. O patriarca Abraão é um modelo e sua longevidade foi considerada como sinal de benção divina. “Abraão viveu cento e setenta e cinco anos. Ele morreu bem velho e foi reunir-se com os seus antepassados no mundo dos mortos” (Gn 29.26, 28). A velhice também tinha a sua própria glória e dignidade. As Escrituras enfatizam a beleza da velhice ao valorizar o idoso cuja experiência acumulada e sabedoria são fonte de riqueza humana para todas as pessoas. “A beleza dos jovens está na sua força, e o enfeite dos velhos são os seus cabelos brancos” (Pv 20.29). “Uma vida longa é a recompensa das pessoas piedosas; os seus cabelos brancos são uma coroa de glória” (Pv 16.31). A velhice, em vez de descartável, é vista como tempo de frutificar e produzir. Provavelmente a lição mais útil, derivada deste estudo, seja o fato de a Bíblia considerar a velhice como uma fase altamente produtiva. Mais uma vez as palavras das Escrituras nos instruem, mostrando que o poder de Deus pode ser revelado na velhice, mesmo ao indivíduo vivendo em meio às limitações e dificuldades. Quando a vida se torna mais difícil e sente mais fraco, os idosos têm razão para sentir que eles são instrumentos úteis nas mãos do Seu Criador e que podem, mesmo na velhice, tornarem-se produtivos e frutíferos em suas vidas. “Na velhice essas pessoas ainda produzirão frutos; estarão sempre fortes e cheias de vida, dispostas a anunciar que o Eterno é justo” (Sl 92.15). Moisés guiou o povo de Israel pelo deserto dos 80 aos 120 anos. Bate-Seba, em sua velhice, participou do reinado junto com o seu filho Salomão (1Re 2.19) e, Ana, “[…] avançada em dias, falava ao povo sobre as consolações de Israel “(Lc 2.36-38).

Vê-se, portanto, que o envelhecimento não precisa ser reputado de modo tão negativo ou como um castigo que aguarda o homem no futuro. Essa era a opinião dos intelectuais gregos e de muitos nos dias atuais, mas a opinião da Bíblia é que a velhice é benção de Deus, e uma fase que pode ser construtiva e repleta de realizações. Todavia, a literatura bíblica não ignora as perdas e as dores que podem acompanhar o envelhecimento. A Bíblia revela que não devemos ter ilusões sobre esta fase da vida, ela lembra que a vida passa como uma brisa, mas nem sempre uma brisa suave ou uma brisa que é indolor. “[…]nossa vida termina como um sopro. Só vivemos uns setenta anos, e os mais fortes chegam aos oitenta; mas esses anos só trazem canseira e aflições. A vida passa logo, e nós desaparecemos” (Sl 90.10).  Como acontece nos dias de hoje, também naquele tempo, a velhice operava um desgaste no organismo do homem. Era comum aos idosos daquela época sofrerem muitas perdas e declínios em suas vidas. A velhice ao promover perdas, podia ser percebida como “dias maus”. “Lembre-se do seu Criador antes que venham os dias maus, e cheguem os anos em que você dirá: Não tenho mais prazer na vida” (Ec 12.1). Este texto de Eclesiastes é uma advertência aos jovens para começar a se preparem para a velhice. Isto é um toque bíblico muito atual, pois, nos nossos dias a prevenção médica é vista como uma proteção para muitos problemas da velhice. O texto ainda descreve com muito realismo algumas perdas físicas que acompanham a velhice: Perda da visão “Lembre-se dele antes que chegue o tempo em que você achará que a luz do sol, da lua e das estrelas perdeu o seu brilho e que as nuvens nunca vão embora” (Ec 12.2), “A sua visão ficará tão fraca, que você não poderá mais ver as coisas claramente” (Ec 12.3c); tremor nas mãos e pernas fracas “Então os seus braços, que sempre o defenderam, começarão a tremer, e as suas pernas, que agora são fortes, ficarão fracas” (Ec 12.3a); perda dos dentes “Os seus dentes cairão, e sobrarão tão poucos, que você não conseguirá mastigar a sua comida” (Ec 12.3b); perda de audição “Você ficará surdo e não poderá ouvir o barulho da rua. Você quase não conseguirá ouvir o moinho moendo ou a música tocando” (Ec 12.4a); dormir menos “E levantará cedo, quando os passarinhos começam a cantar ” (Ec12.4b); terá mais fobias “Então você terá medo de lugares altos, e até caminhar será perigoso” (Ec 12.5a); perda do paladar “Os seus cabelos ficarão brancos, e você perderá o gosto pelas coisas” (Ec 12.5b).

Leis que garantiam o respeito às pessoas idosas

Nos tempos bíblicos os anciãos gozavam de grande importância. Era comum atribuir a eles a autoridade para orientar, ou liderar tanto grupos políticos, religiosos como também famílias. A lei judaica sempre exigiu grande respeito pelos idosos e impunha à família e à sociedade a responsabilidade moral de cuidar de seus membros idosos e de tratá-los com máxima dignidade e valor. Aos idosos é garantida a honra e o respeito “Respeite o seu pai e a sua mãe para que você viva muito tempo na terra que estou lhe dando” (Ex 20.12); “Fiquem de pé na presença das pessoas idosas e as tratem com todo o respeito; e honrem a mim, o Deus de vocês. Eu sou o Deus Eterno” (Lv 19.32);”Escute o seu pai, pois você lhe deve a vida; e não despreze a sua mãe quando ela envelhecer” (Pv 23.22);”Não repreenda um homem mais velho, mas o aconselhe como se ele fosse o seu pai” (1Tm 5.1).

A dimensão cristã vai propor à Igreja uma ação contínua em prol da pessoa idosa (At 6.1-3). Amar e respeitar o ancião na história do Novo Testamento era questão de princípio e honra (Tg 1.27; 2.1,8,9). Também não se pode deixar de notar a preocupação de Deus para com os idosos registrada nas seguintes referências (Is 46.4; Ex 22.22; Is 1.17; Zc 7.10).

Os deveres das pessoas idosas

Os anciãos eram considerados os mais sábios e consequentemente os mais capacitados a assumir funções de liderança nas instituições. Não há dúvida de que se preservou esse respeito pelos idosos, mas isso não queria dizer que se devotasse uma obediência cega aos mais velhos. A ênfase bíblica recaía mais na qualidade de caráter, o fator importante era a moral, e não a idade. “Diga aos mais velhos que sejam moderados, sérios, prudentes e firmes na fé, no amor e na perseverança. Diga também às mulheres mais idosas que vivam como pessoas que têm vida santa. Que elas não sejam caluniadoras nem escravas do vinho. Que ensinem o que é bom, para que a mulheres mais jovens aprendam a amar os seus maridos e filhos” (Tt 2.2-4). As pessoas idosas eram consideradas responsáveis para servirem de elo com as gerações futuras repassando as lições aprendidas. “Tu tens me ensinado desde a minha mocidade, e eu continuo a falar das coisas maravilhosas que fazes. Ó Deus, não me abandones agora que estou velho e de cabelos brancos. Fica comigo enquanto anuncio o teu poder e a tua força a este povo e aos seus descendentes” (Sl 71.17-18).

Para a literatura bíblica a velhice é, portanto, o período em que homens e mulheres devem fazer a colheita da experiência de toda a sua vida, fazer um balanço entre o que é essencial e o que é supérfluo e alcançar o nível de grande sabedoria e serenidade. É também o período em que podem realizar um relevante papel na sociedade: deixar um legado.  Todas as pessoas idosas estão passando um legado à geração seguinte. Legado espiritual, emocional e social passam de pai para filho, bom ou mal. Se é verdade que o homem vive sob a herança dos que o precederam e que seu futuro depende definitivamente dos valores dos mais velhos, então a sabedoria e a experiência dos idosos podem iluminar os passos das gerações mais jovens no caminho do progresso em direção a uma forma cada vez mais completa de civilização. Entender o valor de um legado deixado a outros, olhar para frente e saber que se pode influenciar o futuro é o grande papel dado a todas as pessoas idosas. Há em nós um sentimento de que há mais para esta vida do que viver e morrer, ansiamos por algo mais, queremos saber de onde viemos, para onde vamos e onde nos encontramos nesse grande projeto da existência.  Ora, não seria uma grande riqueza quando é colocado em nossas vidas uma pessoa idosa que pode aliviar o peso destas questões oferecendo sábias respostas? Sem dúvida, este é o forte legado e a grande herança que que as pessoas idosas devem estender e a todos abençoar. A Bíblia escreve este plano: “Ele estabeleceu um testemunho em Jacó, e instituiu uma lei em Israel, e ordenou a nossos pais que os transmitissem a seus filhos, a fim de que a nova geração os conhecesse, filhos que ainda hão de nascer se levantassem e por sua vez os referissem aos seus descendentes; para que pusessem em Deus a sua confiança e não se esquecessem dos feitos de Deus mas lhe observassem os mandamentos […]” (Sl 78.5-7).

Concluindo, ao examinarmos o tema da velhice no contexto bíblico, do ponto de vista do Velho e Novo Testamento, podemos inferir diversas referências importantes e esclarecedoras em relação ao envelhecimento humano.   A luz irradiada pelas Escrituras sobre os diversos temas relativos à velhice poderá contribuir para uma visualização mais clara do “quadro completo” dessa realidade. Acreditamos que palestras, debates, eventos e todo e qualquer tema gerontológicos jamais seria o mesmo depois de serem abordados pelo viés bíblico com a devida aplicação da cosmovisão cristã. Dessa perspectiva, o resgate da literatura bíblica e dos seus ensinamentos relativos ao envelhecimento se tornam cruciais para o avanço da ciência gerontológica em seu intuito de oferecer uma visão mais humana e, por conseguinte, uma visão acerca do tipo de ambiente social mais propício que desejamos viver.

Wilson Nunes, mestre em gerontologia pela Universidade Católica de Brasília e professor do curso de medicina da UNIEVANGÉLICA – Anápolis, GO. Ministro em júbilo da Igreja Cristã Evangélica do Brasil.

Artigo publicado na edição 006 da Revista Virtual Médicos de Cristo. Reproduzido com permissão.

Imagem: Unsplash.

Leia mais:

Como aprender a “contar nossos dias”, por Paul Tournier

Tenho um velhinho para cuidar, por Wilfried Korber

Sou idoso, o que a igreja precisa saber a meu respeito?

Trago um passado dentro de mim

Deus já me concedeu 73 anos de bênçãos. Papai era pastor. Inspiração para mim! Fui casada com um pastor, a quem Deus chamou para si, quando eu tinha apenas 38 anos. Uma filha e três outros filhos fizeram permanecer o amor entre nós. Casei-me, depois de nove anos de viuvez, com outro pastor. Outros quatro filhos. Mais amor. Família grande, que me tem enchido de felicidade. As marcas do passado continuam comigo. Ganhos, perdas, alegrias, tristezas. Risos, às vezes, choro. Marcas que se podem revelar em momentos menos adequados.

Minhas forças não são as mesmas de anos passados
“…nossos anos acabam-se como um suspiro”. Eu acrescentaria a essa afirmativa do sábio: “…e nossas forças se vão com esse suspiro”.

Ainda posso fazer muito
“…na velhice ainda darão frutos!” Que bom! Ainda posso frutificar! Fazer muito para o glória do meu Deus.

Jovens e crianças me inspiram a prosseguir
Vê-los na igreja renova-me as forças, a alegria, a esperança de que o mundo será melhor.

Preciso ouvir palavras de ânimo
Ânimo é alma. A alma precisa de alimento. E “as palavras agradáveis… revigoram a saúde e a alegria de viver”.

Noemí Lucília Soares Ferreira, 73 anos, mora no Rio de Janeiro (RJ).

*****

Ainda posso ser útil

Tenho oitenta e dois anos e meu marido é pastor jubilado. Sempre tive muito prazer em trabalhar com ele por onde passamos e agora sinto trabalhar pouco, não só pelas limitações da idade como pela fragilidade da saúde. Estou atenta para descobrir em que posso ainda ser útil.

Cleds Bussinguer L. César, 82 anos, mora em Viçosa, MG.

*****

Meu tempo já passou, mas sou uma idosa feliz

No meu carro há uma placa: “Vaga especial”. Tenho privilégios especiais nas filas, Correios, bancos, etc. Mas não são apenas esses privilégios que me fazem feliz. Andei fazendo as contas da família, número de netos e bisnetos; é bem difícil, constantes acréscimos sempre alteram os meus números. Posso abrir os olhos de manhã sempre grata pela casa, família, alimento, os queridos e amigos. Domingo, então, melhor ainda, vou me juntar aos irmãos da grande família da fé. Aquele diácono me ajuda entrar, o presbítero me indica a sala da escola dominical e o pastor, inspirado pelo Espírito Santo, trazendo aquela mensagem que eu precisava naquela hora. Ah, como é bom tudo isso. Sento e penso: “Essa igreja não é igual a que cresci com meus pais, quando sentava ao lado deles aprendendo a ler no Salmo 23; eles me faziam acompanhar a leitura responsiva, hoje pode ser que cantemos o hino predileto do papai: ‘Deixa a luz do céu entrar’, ou de minha mãe. Bom mesmo é quando cantávamos o meu ‘Vinde meninos’ subindo para a minha classe de olho para ver quais classes estavam completas com presença dos alunos, suas Bíblias, a minha meio pesada, coleta para a cestinha.”

Chega de recordações, o que mais me incomoda hoje, será pontualidade? Será rol do berço (0 a 3 anos)? Será Bíblia? Será Reforma? Será moedinhas? Será cesta-de-amor? Será liturgia? E as baguncinhas?

No meu tempo… Ah, esse já se foi.

Meu tempo hoje só me torna alegre: minha igreja tem naturalmente muitas vovós (só fazendo também vovócas), mas vejo numero considerável de jovens das mais diversas procedências: Roraima, Minas, Goiás, Espírito Santo… E aonde vão esses jovens nas noites de domingo, considerando os convidativos apelos da Unicamp? Os happy hours de calçada longe de papai e mamãe? Pois venham ver: estão aqui na igreja, de manga arregaçada servindo em tudo, cantando e louvando ao Senhor, se conhecendo, formando laços nesse teto onde a Divina Providencia os trouxe e os aproxima. Querem coisa mais linda, mais inspiradora para uma idosa como eu?

Sou feliz. Sou uma idosa feliz, muito feliz. Participo dessa numerosa família da fé.

Nelly B. Lane, 86 anos, mora em Campinas, SP

*****

As igrejas não priorizam os idosos

Infelizmente, as igrejas hoje não priorizam os idosos. Eu, modéstia parte, sentava no primeiro banco da igreja, hoje sento na última fila, pois adquiri labirintite e o som muito alto perturba. Assim sendo, acho que deveria haver um evento sobre os idosos nas igrejas para que suas necessidades sejam ouvidas e, na medida do possível, melhorar a nossa vida na igreja.

Sarah Gomes, 68 anos, mora em Parintins, AM.

*****

Minha dedicação é meu testemunho de gratidão

Os que me conhecem evidentemente não precisam ler estas informações, pois minha vida e meus atos são claros a eles. O que gostaria de testemunhar aos que não me conhecem é que não tive uma reviravolta determinado dia, relativa à minha fé. Desde criança, com os ensinos da Igreja e de minha mãe, pude entender a graça de Deus pela qual vivo o dia a dia. Cresci na Igreja estudando vivendo a escalada da fé. Posso dizer que sou abençoado em todos os meus trabalhos com a família e vejo em cada momento decisivo do passado de um homem a mão de Deus guiando-me nas escolhas que fiz. Minha dedicação à causa é meu testemunho de gratidão pelas bênçãos recebidas especialmente dentro da Igreja. Sempre estudei e estudo, mas sei que pouco sei: acompanhar e imitar os servos de Deus foi um incentivo ao meu crescimento espiritual. Há um pensamento que diz: “Só devemos olhar as pessoas de cima para lhes dar a mão e levantá-las”. Este é um ato de humildade com o qual demonstramos o exercício do amor cristão. Gratidão e fé me elevam e me fazem reconhecer obra do Criador através de Jesus Cristo na força do Espírito Santo. Deus seja louvado.

Oswaldo Augusto Silva, 77 anos, mora em Uberlândia, MG.

*****

Programações cansativas

Quando eu era mais novo eu achava muito boa a programação na igreja, mas agora eu acho um pouco cansativas. Bom que, na minha igreja, agora temos dois cultos com uma hora de duração cada. Tem uma escada grande para subir, mas também é bom porque a gente exercita as pernas. Para mim, isso é muito bom.

Valdir Ferreira dos Santos, 86 anos, mora em Parintins, AM.

**

Conteúdo publicado originalmente no blog Ultimato em maio de 2017. Reproduzido com permissão.

Imagem: Pixabay.

Movimento Cristão 60+ divulga programa do 1º Encontro Regional

Com a experiência de quatro encontros nacionais (1º Encontro em João Pessoa, PB, em 2023; 2º Encontro em Pompeia, SP, em 2023; 3º Encontro em João Pessoa, PB, em 2023; 4º Encontro em Sumaré, SP, em 2024), o Movimento Cristão 60+ começou 2025 com uma novidade: a realização de encontros regionais com o objetivo de facilitar a participação do maior número possível de pessoas interessadas no que tem sido dito e feito por e para pessoas com mais de sessenta anos de idade.

Com o tema “Tempo de desfrutar e de semear”, o 1º Encontro Regional  acontecerá no dia 17 de maio de 2025 (durante apenas um dia) em São Paulo, SP.

Durante as palestras, devocionais, workshops, compartilhamento de experiências, momentos de socialização e comunhão os participantes do 1º Encontro Regional terão oportunidade de ouvir e vivenciar assuntos que lhes dizem respeito: sua relação com a igreja, autocuidado, envolvimento na missão, segunda carreira e, não menos importante, o “desfrutar da vida”. – temas que mantêm continuidade com o que já vem sendo tratado nos encontros nacionais.

Conheça as palestras preparadas para o 1º Encontro

– Espiritualidade, finitude, enlutamento e esperança, com o doutor Ageu H. Lisboa

– Idoso: elo entre gerações, com o pastor Irland Azevedo

– Vivendo o imprevisível, com Thomas Hahn

– Como iniciar e consolidar um ministério de 60+: uma caminhada de 15 anos, com o grupo Lírios do Campo da Igreja Metodista Livre do bairro Saúde, em São Paulo

Quanto aos workshops, programados para o período da tarde, já estão confirmados:

– Opções de segunda carreira para os 60+, com Volney Faustini

– Música, nutrição e envelhecimento saudável, com Bruna Marinho e Adriana Saldiba

– Movimente-se! Como o exercício físico pode melhorar a qualidade de vida, com Talitha Koo Yen

Se você quer aprender a envelhecer, ou compreender melhor o envelhecimento de seus familiares ou membros de sua comunidade, ou se equipar para um ministério profícuo com os 60+, não perca a oportunidade de estar presente neste Encontro. Faça já a sua inscrição [aqui].

**
O Movimento Cristão 60+ nasceu no coração de um grupo de amigos nesta fase de idade com o objetivo de despertar as igrejas para esta realidade e, ao mesmo tempo, para encorajar os 60+ a não se aposentarem da carreira cristã, ao autocuidado e a servirem à igreja com seus dons, experiências e rede de contatos.


Uma das principais formas de atingir os seus objetivos é a promoção de eventos. Visite o site do MC 60+ para saber mais sobre o Movimento e ler sobre os encontros já realizados.

Serviço:
I Encontro Regional do Movimento Cristão 60+
Tempo de desfrutar e de semear
Quando: 17 de maio de 2025, sábado, das 8 às 18 horas
Onde: Igreja dos Cristãos de São Paulo, Rua Dr Abelardo Vergueiro César, 682 – Vila Alexandria – São Paulo, SP
Inscrições aqui.

Imagem: Unsplash

Andando com Deus

Por Wilfried Körber

Se examinarmos a Bíblia, vamos encontrar muitos que, pelo seu andar em obediência e justiça, foram considerados íntegros e isso agrada a Deus.

Imagem: Vincent van Gogh, Estrada com cipreste e estrela, 1890. Domínio público

Há alguns dias, escrevi um texto com o título: “Andando dia e noite com o Senhor”. O povo, com Moisés, andava pelo deserto e Deus os guiava, de dia numa nuvem e de noite numa coluna de fogo. Esse episódio é conhecido, e poucos percebem a grande mensagem que contém. Ser guiado por Deus pelos caminhos do deserto, recebendo proteção e direção é uma coisa, e andar com Deus, como Enoque fazia, tem outra profundidade. Enoque, da sétima geração depois de Adão viveu em comunhão com Deus e isso mereceu destaque. Enoque viveu 365 anos, uma vida curta para sua época, e sua biografia é muito reduzida. O versículo 24 do quinto capítulo de Genesis diz: “Andou Enoque com Deus, e já não era, porque Deus o tomou para si”. Outro relato, agora no Novo Testamento, em Hebreus 11.5 diz: “Pela fé Enoque foi trasladado para não ver a morte; não foi achado porque Deus o trasladara. Pois antes da sua trasladação, obteve testemunho de haver agradado a Deus”.

Poderíamos perguntar: “Como é andar com Deus? O que Deus requer?”. A resposta está no próprio texto: “De haver agradado a Deus”. Poderíamos ainda fazer outra pergunta: “Com que podemos agradar a Deus?” Pode haver muitas respostas. Vamos olhar para um detalhe da vida de Salomão.

Em 1 Reis 3 lemos que Deus agradou-se de Salomão. Primeiro, Salomão amava ao Senhor, andando nos preceitos de Davi (3.3). Por conta desse amor, Salomão foi ao lugar mais alto da região, e ofereceu mil holocaustos em um altar. Como consequência, Deus apareceu a Salomão em sonhos, e lhe disse: “Pede-me o que queres que eu te dê”. Diz ainda o texto:

“Respondeu Salomão: De grande benevolência usaste para com teu servo Davi, meu pai, porque ele andou contigo em fidelidade, e em justiça, e em retidão de coração, perante a Tua face; mantiveste-lhe esta grande benevolência e lhe deste um filho que se assentasse no seu trono, como hoje se vê. Agora, pois, ó Senhor meu Deus Tu fizeste reinar este Teu servo em lugar de Davi, meu pai; não passo de uma criança, não sei como conduzir-me. Teu servo está no meio do Teu povo que elegeste, povo grande, tão numeroso que se não pode contar. Dá, pois, ao teu servo coração compreensivo para julgar a este grande povo? Estas palavras agradaram ao Senhor…”

Não sabemos o que Enoque fez, mas em Hebreus11.5 lemos que ele obteve testemunho de haver agradado a Deus. Se continuarmos examinando outros vultos da Bíblia, vamos encontrar muitos que pelo seu andar em obediência e justiça foram considerados íntegros e isso agrada a Deus. Vamos imitá-los?


Wilfried Körber nasceu em Göttingen na Alemanha em 1931 e vive no Brasil desde 1937. Converteu-se aos 16 anos na então Igreja Alemã Batista Zoar, frequentada por sua mãe. Membro fundador da Igreja Batista Filadélfia de São Paulo, envolveu-se com o trabalho de evangelização de crianças e missões, com sua esposa Gisela, de saudosa memória. Há mais de uma década escreve textos para o devocionário Presente Diário. Atualmente vive em Sorocaba, SP. @lampadaparaosmeuspes_.

Leia mais:

O abismo entre gerações é irreconciliável?

O exercício de uma paternidade sábia é uma longa jornada compartilhada, e é no caminho que adquirimos a sabedoria

Por Tiago Pereira

Quando os filhos nascem, nós imediatamente passamos a ocupar essa curiosa (e inédita) posição equidistante entre duas gerações: a dos netos e a dos avós. Um lugar privilegiado que os pais têm para assistir de camarote os extremos agridoces da vida. E quando a distância entre a primeira e a terceira geração envolve pessoas que nasceram em milênios diferentes, parece que se forma um abismo grande demais para ser superado. Ainda mais quando percebemos que o tempo entre gerações parece estar cada vez menor. Se gerações familiares giram em torno de 25 anos, o espaço geracional dentro da sociedade parece não seguir mais esse padrão e agora os intervalos se reduziram a não mais que 10 anos. A geração Z dos nativos digitais nascidos a partir do ano 2000 já deu espaço para a geração Alfa, que se iniciou em 2010, e esta já está dando espaço para a geração C, a geração dos bebês nascidos na pandemia de Covid (ou se preferir, os coronials, como já são chamados). 

A época em que você nasce não precisa moldar exatamente quem você é

Claro que os limites entre as gerações são fluidos e certamente há controvérsias entre os intervalos e as datas. Mas a pergunta que queremos fazer, no entanto, é: esse abismo intergeracional existe de fato? O cientista social Bobby Duffy parece discordar, pelo menos em parte, como afirma o subtítulo de seu livro lançado em 2021, intitulado “O mito geracional: por que quando você nasceu importa menos do que imagina” (The Generation Myth: Why When You”re Born Matters Less Than You Think, sem tradução). O autor do livro vê com preocupação a segregação etária percebida em muitas sociedades ocidentais nos últimos anos, mas atribui o problema a questões sociais mais profundas do que apenas o conflito entre gerações. Para ele, a “tensão” entre diferentes gerações não é apenas natural, mas essencial e benéfica para a sociedade, e tendo a concordar com ele. O ser humano é profundamente relacional e isso sempre deverá extrapolar a barreira geracional. É nisso que reside, por exemplo, a beleza e a dinâmica de uma comunidade cristã saudável. É nesse contato que conseguimos perceber como encontrar pontos de convergência, aprendizado mútuo e cuidado. O exercício de encontrar semelhanças entre gerações, aliás, pode ser um importante antídoto para evitar o problema de criar rótulos geracionais e acabar alimentando mais uma espécie de horóscopo moderno, como muitos que vemos por aí. A época em que você nasce não precisa moldar exatamente quem você é.

Como um típico millennial nascido nos anos 80, nutro certo orgulho de ser parte da última geração que navega com tranquilidade entre dois mundos com tempos e ritmos totalmente opostos: vi o mundo analógico das fitas magnéticas, das televisões de tubo e das fichas de telefone dar espaço para o mundo digital incessantemente conectado dos aparelhos celulares. Hoje tenho um casal de filhos nativos digitais que são geração alfa e que lidarão com robôs melhor do que eu, mas nunca entenderão a expressão “a ficha caiu”. Não sei o quanto o abismo entre mim e eles irá crescer com o passar dos anos e isso, de fato, só o futuro dirá. Mas do meu ponto referencial, quero voltar agora para o abismo que existe entre mim e a geração dos meus pais, os queridos avós, representantes paleolíticos da idealista, conservadora e disciplinada geração de baby boomers (aquela nascida no pós-guerra até o início dos anos 60). 

Dentre tantas diferenças entre nossas gerações, o exercício da criação de filhos parece ser um dos exemplos mais emblemáticos. Ser pai perto dos avós não é tarefa simples, mas talvez nunca tenha sido, apesar de a Bíblia não nos relatar o relacionamento entre Abraão e seus netos gêmeos. Criar filhos perto dos avós é viver tentando conciliar as expectativas de ambos os lados. Filhos que querem ser mimados e avós que querem mimá-los (mas que também reclamam se os mimamos). E uma parte do problema parece estar nas nossas percepções sobre autoridade e disciplina. Nenhuma das gerações despreza esses valores, e um pai millennial está tão preocupado com isso quanto um pai boomer, mas é inegável que a pluralidade de ideias na praça pública traz certa nebulosidade sobre o assunto.

Minha geração foi criada num mundo com visões ainda razoavelmente tradicionais e conservadoras sobre família, masculinidade, feminilidade e papéis do homem e da mulher. Essas visões, no entanto, cada vez mais se dissolvem no mundo contemporâneo. Vale lembrar, por exemplo, que a família típica dos cartazes americanos que vendeu essa ideia para nossos pais não passa no teste da história da humanidade e muito menos é o modelo de família cristã que as Escrituras mostram. Nesse caldeirão, os pais millennials, pertencentes a uma geração mais questionadora e flexível a mudanças que as anteriores, parecem estar numa busca constante por entender o que significa exercer autoridade sem autoritarismo, masculinidade sem opressão, disciplina sem tirania e respeito além dos pronomes de tratamento. Mas se esses valores parecem ser tão fluidos na cultura moderna e se não há limites para a literatura sobre o tema, talvez a melhor opção seja mesmo direcionar essa busca para as Escrituras que reconhecemos, enquanto cristãos, como autoridade divinamente inspirada.

Apontar e ir junto no caminho

Pais cristãos, afinal, irão concordar que a nós é exigido criar os filhos segundo a instrução e o conselho do Senhor (Efésios 6:4). Uma coisa bem diferente, porém, é entender qual é a instrução e qual é o conselho do Senhor. Uma ideia é olhar para a Lei do Senhor e para os Livros de Sabedoria, mas também entender que há um caminho importante a ser trilhado entre eles para não se confundir as coisas. A literatura hebraica de Sabedoria não é normativa – não é lei – mas quer nos mostrar que a busca pela sabedoria deve estar condicionada e submissa ao próprio Deus. Quando Provérbios 22:6 nos diz para ensinarmos “a criança no caminho em que deve andar”, nem sempre nos atentamos suficientemente à ideia de que a sabedoria só será formada durante uma longa jornada com o próprio Deus. Não há sabedoria verdadeira fora desse relacionamento. O salmista afirma que as palavras de Deus são mais doces que o mel (Salmos 119:103), e o livro de Deuteronômio nos ordena a conversar “sobre elas quando estiver sentado em casa, quando estiver andando pelo caminho, quando se deitar e quando se levantar” (Dt 6:7). Não é apenas sobre apontar o caminho, mas antes, sobre ir junto no caminho.

Toda dificuldade para entender aqueles valores universais que aparentemente confundem as gerações, no fim, devem estar submetidos a esta realidade: o exercício de uma paternidade sábia é uma longa jornada compartilhada, e é no caminho que adquirimos a sabedoria. Não é à toa que o Cristo seja ao mesmo tempo a Palavra, o Caminho e a própria Sabedoria encarnada. Uma paternidade submissa a Deus, portanto, é uma paternidade cristocêntrica. Se olhar para Cristo nos revela o que é ser verdadeiramente humano, o que é ser imagem de Deus e o que é viver como parte do Reino, então olhar para Cristo irá nos revelar como devemos ser pais (mesmo que Jesus não tenha tido filhos enquanto viveu entre nós). Por isso, as palavras do profeta a todos os homens também deveriam ser incorporadas pelos pais que querem exercer uma paternidade cristocêntrica: “Ele mostrou a você, ó homem, o que é bom e o que o Senhor exige: Pratique a justiça, ame a fidelidade e ande humildemente com o seu Deus” (Miquéias 6:8). No fim do dia, minha oração é que essa seja a imagem que meus filhos vejam diariamente em mim. A imagem do Cristo que se esvazia, se humilha e que se faz servo. Que eles sejam discípulos nessa caminhada com Jesus e aprendam a amar a esse Deus que tanto os amou.

O ponto fundamental da vida é a caminhadaFinalmente, quero voltar a atenção para os conflitos entre as gerações. Se Deus em Cristo estava reconciliando consigo o mundo e nos confiou a mensagem da reconciliação (2 Coríntios 5:19), então os abismos intergeracionais podem, sim, e devem ser reconciliados. Os recortes geracionais podem nos fazer esquecer que o ponto fundamental da vida é a caminhada, e as características que definem uma geração não são, afinal, escritas em pedra. Olhando para o livro dos Provérbios, é interessante perceber como o autor vai compilando seus ensinos e conselhos ao longo de uma jornada. Salomão vive e participa das gerações de seu tempo, observa e aprende com elas enquanto caminha. Ao olhar para o livro de Eclesiastes, no entanto, o autor parece partir de outra perspectiva, um panorama da vida a partir da janela da velhice. Podemos dizer que ele está vendo que os abismos intergeracionais de sua época – como na nossa – eram pura vaidade. Se o ponto de partida do livro dos Provérbios é o temor do Senhor, esse se torna a conclusão do autor do Eclesiastes, que encontra a Sabedoria ao final de suas reflexões e conclui: “Tema a Deus e guarde os seus mandamentos, pois isso é o essencial para o homem” (Eclesiastes 12:13). 

Tiago Pereira é biólogo formado pela Universidade Federal de Viçosa, mestre e doutor em botânica também pela UFV, com pós-doutorado em Biologia Molecular e Filogeografia. Atualmente, faz parte da equipe de trabalho da Associação Brasileira de Cristãos na Ciência (ABC2) como coordenador nacional dos Grupos de Estudo. É membro da igreja presbiteriana, casado com Eliza e pai de Pedro e Maria Clara.

Artigo publicado originalmente no site Ultimatoonline. Reproduzido com permissão.

Leia mais:

Entre gerações, por Karen Bomilcar

Como honrar os idosos em um mundo que valoriza os jovens, por Ariane Gomes