Trocando nosso coração de pedra por um coração de carne

Sejamos justos e tenhamos palavras e atitudes que façam e tragam o bem, pois Deus deseja nos abençoar

Por Elisa Maria Ferraz Arruda Medeiros

Algumas expressões são essencialmente negativas: não posso; sou fraco; tenho falta de fé; não consigo é muito difícil; não vai sair minha aposentadoria; esse negócio não vai dar certo, e muitas outras que falamos sem pensar e nem nos damos conta do seu significado depois de faladas, mas, conhecemos o medo e a insegurança que essas palavras nos trazem.

Quando pensamos que estamos com medo e o confessamos, ele começa a ficar gigante diante de nós de tal maneira que perdemos a coragem. Foi o que aconteceu a Jó quando confessou:” Aquilo que temo me sobrevém, e o que receio me acontece” (Jó 3.25).

Ao dizermos que nossa fé é pequena, torna-se uma confissão, estamos, sem saber, dando direito legal de ação ao Diabo, que anda em derredor, como leão que ruge procurando alguém para devorar(1Pe 5.8),procurando uma brecha, fazendo estragos em nossa vida e na vida da nossa família e a dúvida, que é o oposto à fé, se levanta diante de nós e cresce de tal maneira que a fé começa a faltar em nosso coração.

Na verdade, quando você ou eu dizemos: “Não consigo por minhas contas em dia”, realmente, não conseguiremos porque já decidimos e colocamos uma posição negativa em nosso coração, confessando com nossa boca. Já tomamos a posição e esquecemos que nós recebemos o que declaramos, pois, quando falamos estamos plantando as sementes que iremos colher que são nossas palavras.

Isto acontece porque estamos falando em contrário com o que diz a Palavra de Deus, pois ela nos afirma: “O meu Deus, segundo a sua riqueza em glória, há de suprir, em Cristo Jesus, cada uma de vossas necessidades” (Fp. 4.19).

Para todas as afirmações negativas sobre nós, temos na palavra de Deus afirmações que nos trazem bênçãos.

Para “não posso”: “Posso todas as coisas naquele que me fortalece” (Fp.4.13).

Para “sou fraco”: “Tu és a minha fortaleza” (Sl 31.4).

Para “sou derrotado”: “Somos mais que vencedores” (Rm 8.37)

Basta lermos a Palavra para sabermos que Deus quer que mudemos nossa maneira de falar, abençoando nossa vida, nossos sonhos, apesar das circunstancias em que vivemos.

As afirmações que encontramos na Bíblia a nosso respeito, nos fortalecem e nos dão uma visão diferente sobre nós, enquanto filhos. Devemos abandonar algumas palavras que trazem a característica de quem não é filho.

Devemos colocar no coração o que Deus fala sobre nós

“O próprio Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus” (Rm.8.16)

Deus diz que somos filhos. Éramos criaturas, criadas à imagem e semelhança dele, mas Jesus, o Verbo se fez carne e viveu entre nós se fazendo em pecado para nos libertar da culpa, um justo que se fez injusto para que fossemos justificados por ele. Trocou de lugar conosco e desfez a barreira que existia entre nós e Deus, e nos transformou em filhos. Qualquer pessoa que deixa Jesus fazer morada em sua vida, torna-se filho de Deus Pai.

Você já parou para pensar nessa verdade? Somos filhos do Rei.

Temos tanto valor para Deus que ele não poupou Jesus da cruz para nos salvar.

Se começarmos a ler na Palavra o que Deus pensa sobre nós, e o que diz que somos, as nossas atitudes passarão a ser diferentes.

O desejo do coração de Deus é que sejamos uma bênção, façamos coisas boas, pois fomos criados para as boas obras (Ef.2.10), sejamos justos e tenhamos palavras e atitudes que façam e tragam o bem, pois ele deseja abençoar-nos.

Ele diz que:

Somos filhos (Jo 1.12);

Somos redimidos – resgatados pelo sangue de Cristo (1Pe 18.19);

Nascemos de novo (Jo 12.13);

Temos nova natureza (Cl 3.9-10);

Somos Justificados (Rm 3.24-31);

Somos Salvos (At 2.21 e Ef 2.8);

Somos mais que vencedores (Rm 8.37);

As nossas necessidades serão supridas (Fp 4.13; Sl 31.19; Rm 8.32)

Somos sacerdócio real, nação santa, povo adquirido, raça eleita (1Pe 2.9)

Somos delícia de Deus (Is 62.4);

Somos a menina dos olhos de Deus (Dt 32.10; Zc 2.8; Sl 17.8);

Somos embaixadores (2Co 5.20);

Somos corajosos, não temos medo (Js 1,9; Sl 27.1,3);

Somos prósperos e se quisermos comeremos o melhor dessa terra (Is 1.19).

Se Deus diz que somos tudo isso, é porque o somos para ele. O plano dele é que sejamos. São afirmações do Pai.

Elisa Maria Ferraz Arruda, 80 anos, membro da 1ª Igreja Presbiteriana Independente de Londrina, PR.

Leia mais:

>> Como ser forte e corajoso, por Elisa Maria F. Arruda

>> Saber envelhecer, por Oswaldo Luiz Gomes Jacob

Imagem: Unsplash.

Longevidade no Brasil precisa do apoio de abrigos

Recanto Vida: uma casa que recebe idosos com carinho e seguindo as exigências legais

Por Xênia Marques Lança de Q. Casséte

O número de pessoas idosas no Brasil dobrou em pouco mais de duas décadas e a última pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2023, mostrou que o país alcançou o número de 15,5% de idosos com 60 anos e mais (60+). Nessa faixa etária existem hoje 33 milhões de brasileiros, que representam uma parcela maior que a dos jovens entre 15 e 24 anos. Isso claramente significa que o país tem agora menos nascimentos e maior longevidade.

A previsão é que a população idosa continuará a crescer e que deverá ser a maior faixa etária do Brasil em 2046. Esse crescimento está impulsionando, tanto por parte do Estado quanto da sociedade civil, novas ações focadas na pessoa idosa, cidadão com todos os direitos e um pouco menos de deveres e que contribuiu muito e ainda contribui para o crescimento da economia do país.

Os idosos necessitam de segurança constante, atenção profissional periódica e de um ambiente que fortaleça o corpo e estimule a mente e as emoções. Mas um número significativo deles chega nessa fase da vida sem familiares por perto ou com familiares ainda em atividades de trabalho e com a criação de filhos, entre outras coisas, o que pode tornar muito complicado dar-lhes uma boa e justa assistência. Por causa disso as instituições que oferecem abrigo e cuidados a idosos no Brasil observam uma grande procura por vagas. Cresce a necessidade de mais locais com esse objetivo, em função do aumento do número de idosos.

Iniciamos com esta matéria, uma série de reportagens que pretendem mostrar algumas instituições cristãs que têm feito um excelente trabalho com e para as pessoas 60+ pelo Brasil, auxiliando as famílias nesse trabalho tão importante e imprescindível neste momento em que as estatísticas mostram o crescimento do número de idosos no país.

Recanto Vida

Em Belo Horizonte, a Igreja Batista do Barro Preto fundou em 26/02/2000, o Recanto Vida – Instituição de Longa Permanência para Idosos (ILPI), com o objetivo de abrigar idosos de ambos os sexos, a partir de 60 anos, fisicamente independentes, mas sem condições de permanecer com suas famílias. A instituição possui alojamentos adaptados para abrigar mulheres e homens separadamente. E um prédio, construído posteriormente à fundação, oferece hoje, instalações de cozinha, refeitório, banheiros, lavanderia industrial equipada conforme as exigências da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

Por mais de duas décadas, dezenas de idosos e suas famílias têm sido beneficiados pelo Recanto Vida. De acordo com a gerente administrativa, Luciana Viana, “desde a fundação, já houve cinco idosos centenários na casa. Alguns já têm mais de 90 anos com uma boa saúde física e mental. Mas atualmente, a maioria dos internos têm menos de 70 anos”.

Segundo Luciana, a instituição “é um lar de idosos que preza pelo cuidado integral, unindo atenção à saúde, convivência, espiritualidade e qualidade de vida, contando com uma equipe multiprofissional composta por enfermeiro, técnicos de enfermagem e cuidadores, garantindo assistência contínua e humanizada aos residentes”.

A rotina do Recanto Vida inclui seis refeições diárias, todas acompanhadas por orientação e monitoramento nutricional. “Também oferecemos atividades terapêuticas regulares, como fisioterapia duas vezes por semana, terapia ocupacional duas vezes por semana e acompanhamento com educador físico, também duas vezes por semana, sempre respeitando as individualidades e limitações de cada idoso. Além disso, disponibilizamos atendimento de psicanálise em formato individualizado”, informa a gerente

O Recanto Vida acredita que a espiritualidade é um pilar importante para a vida, por isso oferece um trabalho de capelania iniciado pelo pastor Romilton Brasil, já falecido. Também são realizados cultos com o apoio da Igreja Batista de Confins, atualmente sob a liderança do pastor Luis Gustavo Muritiba, além de visitas regulares e ações de ministérios da Igreja Batista do Barro Preto.

Segundo Luciana, o Recanto Vida promove alegria, socialização e bem-estar por meio de diversas atividades recreativas e de convivência. “Realizamos passeios externos a shoppings, lanchonetes e cafés, promovemos rodízios de pizza, comemorações de aniversários, festivais de sorvete e picolé, dança sênior entre outras ações que tornam o cotidiano mais leve e significativo”.

A gerente conta que o ambiente da instituição no dia-a-dia é marcado pelo cuidado, pelo afeto e pela valorização da vida em todas as suas fases. “Aqui, acreditamos que o envelhecer pode – e deve – ser vivido com dignidade, alegria e propósito. O Recanto Vida é, verdadeiramente, um lugar de gente feliz”.

De acordo com a Associação Batista Bem Viver (ABBV), mantenedora da instituição, os colaboradores do Recanto Vida, que ali trabalham, cumprem um ministério, enquanto desempenham valioso atendimento aos residentes. Entre eles a coordenadora administrativa, a coordenadora técnica, os técnicos de enfermagem, os cuidadores de idosos, os cozinheiros, os lavadores de roupas, os que atuam nos serviços gerais e outros, todos devidamente capacitados, que tratam os residentes com atenção e carinho, para proporcionar-lhes o bem-estar que necessitam.

Equipe de trabalho

Atualmente, o Recanto Vida tem 25 colaboradores celetistas e cinco profissionais prestadores de serviço através de contratos, além de um grupo de aproximadamente 30 voluntários em áreas diversas como cabelereiros, barbeiros, podólogos, manicures, massoterapeutas, musicistas, educador físico, psicanalistas e outros.

Para oferecer todos os serviços de qualidade, o lugar de residência, refeições e gastos legais com funcionários, água, luz e outros, o custo por cada pessoa idosa com assistência digna, é hoje de R$ 9.168,00, segundo a gerente Luciana. Mas o valor cobrado atualmente para o idoso que reside no Recanto Vida é de R$ 6.300,00 por mês. O restante é custeado pela Associação Batista Bem Viver. A gerente informa que há vagas sociais na instituição, que são avaliadas pela sua assistente social.

Este tem sido o grande desafio do Recanto Vida e da ABBV, que segundo a gerente, para manter a estrutura atual sem perder a qualidade no acolhimento institucional, o gasto total do Recanto Vida é em média de duzentos mil reais (R$ 200.000,00) por mês.

“Por 26 anos o Recanto Vida tem abençoado as vidas dos residentes e de suas famílias, em todo tempo e em todas as circunstâncias, operando a mão do nosso Deus. Foi Ele que inspirou o Pastor Arlécio em seu sonho; foi ele quem nos direcionou para a propriedade em Confins com condições de adquiri-la; e também quem, em todo tempo orientou as decisões das diretorias da ABBV e animou a Igreja Batista do Barro Preto a suprir todas as necessidades. Portanto, toda honra e glória seja dada ao nosso Deus, que usou o seu servo e outros que atuaram e continuam atuando na história do Recanto Vida”, conclui a gerente administrativa.

A instituição atende atualmente 23 idosos: 16 mulheres e sete homens. Existe um projeto em desenvolvimento que estenderá este número para 50 idosos, mas ainda sem data para iniciar. Para mais informações e contatos com o Recanto Vida, seu site é: orecantovida.com.br. E, no Instagram e no Facebook: @orecantovida.

Mantenedora

Em 1998, o então pastor da Igreja Batista do Barro Preto, Arlécio Franco da Costa compartilhou seu sonho de fundar um lar de idosos e a igreja apoiou imediatamente, quando foi criada, em 17/12/1998 a Associação Batista Bem Viver (ABBV) com a aprovação de seu Estatuto e eleição da primeira Diretoria e Conselho Fiscal.

A Igreja Batista do Barro Preto criou a Associação Batista Bem Viver, associação civil sem fins lucrativos que entre outras atribuições é a mantenedora do Recanto Vida. Na sede da igreja em Belo Horizonte, Avenida Augusto de Lima, 1.962 – Barro Preto, a Associação, cujo presidente é Timóteo Pereira Lima, que é também o vice-presidente da Igreja, iniciou fazendo um convênio com a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Foi então criado o projeto “Vale a Pena Viver”, cujo objetivo também é promover qualidade de vida para a terceira idade e oferece treinamentos de coordenação motora global, habilidades manuais, estimulação sensorial cognitiva, além de atividades culturais na área da música e ginástica sênior.

Quanto aos cuidados com os residentes, mesmo antes da vigência do Estatuto do Idoso, a ABBV já havia estabelecido como alvo proporcionar aos residentes aassistência digna que merecem, disponibilizando, com excelência, recursos humanos e materiais. A associação está sempre atenta a todas as exigências requeridas pela Legislação a fim de cumprir o que ela prescreve e as recomendações da Vigilância Sanitária e do Ministério Público, que sempre fiscalizam o Recanto Vida.

Conforme informações da Diretoria da ABBV, a associação sempre se preocupou em manter em dia a completa documentação exigida para o funcionamento da Instituição. Isso levou ao cumprimento de todas as exigências para obter benefícios do Poder Público.  Assim, através de convênios e de emendas parlamentares, o Recanto recebeu verbas para aquisição de bens de consumo e bens permanentes desde 2004, como móveis, veículos e equipamentos diversos. E essa verba governamental proporcionou também ao Recanto Vida a construção de uma lavanderia equipada onde atualmente são lavadas 5 toneladas de roupas por mês, utilizando produtos de alta performance, garantindo a necessária higienização.

Ministério da maturidade

Na Igreja Batista do Barro Preto, o trabalho com pessoas 60+, chamado de “Ministério da Maturidade” faz parte da sua lista de ministérios. O vice-presidente da Igreja que é atualmente o presidente da ABBV, Timóteo P.Lima afirma que esse é também um campo missionário da igreja. “Na igreja do Barro Preto, esse ministério tem sido uma benção, pois alcança pessoas solitárias, faz sedentários utilizar o corpo, possibilita a confraternização de membros e a evangelização de convidados”, conta.

E segundo o vice-presidente da I. B. Barro Preto, há muitas formas e atividades que podem ser desenvolvidas, como por exemplo: “uma reunião semanal, onde se desenvolve atividades de terapia ocupacional, ginástica funcional e crescimento bíblico. Se não houver alguém especializado, pode-se fazer um convênio com alguma universidade. São realizadas também, visitas a museus e shoppings centers, viagens, assistência a filmes e até um coral foi organizado. A criatividade não tem limites e dependerá do perfil dos participantes e de sua disponibilidade de tempo”, informa Timóteo. E ainda garante que “a integração da membresia é um dos frutos do ministério que tem cada vez mais importância com o envelhecimento da população.

Mais do que ações pontuais, o idoso precisa ser incluído, valorizado e respeitado como alguém que ainda tem história, fé e propósito. Quando a igreja acolhe o idoso com amor e dignidade, ela pratica o evangelho na sua essência

E o vice-presidente da igreja deixa uma palavra de incentivo às igrejas no Brasil: “Às igrejas que já possuem ou desejam iniciar ministérios voltados aos idosos, deixo uma palavra de encorajamento e responsabilidade. O cuidado com a pessoa idosa é um chamado cristão, bíblico e urgente. É possível fazer muito: oferecer escuta, visitas regulares, momentos de oração, louvor, estudo da Palavra, atividades de convivência e apoio às famílias e cuidadores. Mais do que ações pontuais, o idoso precisa ser incluído, valorizado e respeitado como alguém que ainda tem história, fé e propósito. Quando a igreja acolhe o idoso com amor e dignidade, ela pratica o evangelho na sua essência.”

Xênia Marques Lança de Q. Casséte é jornalista, esposa e mãe. Membro da Igreja Batista da Redenção, faz parte da equipe do Coletivo Bereia de informação e checagem de notícias.

Imagens: Recanto Vida. Usadas com permissão.

Antes só que mal acompanhado. Será?

Pessoas que têm relacionamentos significativos e profundos tem maior qualidade de saúde mental e física, impactando também na longevidade

Por Carlos “Catito” e Dagmar Grzybowski

Um ditado muito popular estimula as pessoas a selecionarem seus relacionamentos a fim de não se envolverem com quem possa lhe trazer problemas. Entretanto essa interpretação do referido ditado pode levar ao isolamento social, o que não é nem um pouco saudável.

Na perspectiva da saúde, o Brasil adotou um princípio de associar cores a alguns meses do ano para fazer campanhas acerca de cuidados essenciais com algumas áreas. Assim temos o setembro amarelo – prevenção do suicídio; o outubro rosa – prevenção do câncer de mama; o novembro azul – prevenção do câncer de próstata, etc. O mês de janeiro é dedicado ao cuidado com a saúde mental e é chamado janeiro branco.

A saúde mental passa obrigatoriamente pela qualidade dos relacionamentos que desenvolvemos. Somos seres gregários pois fomos criados para vivermos em relacionamentos. Na perspectiva bíblica da criação a única coisa que não foi boa em toda a criação divina foi a falta de outro ser que correspondesse ao primeiro ser humano criado: “Então o Senhor Deus declarou: ‘Não é bom que o homem esteja só; farei para ele alguém que o auxilie e lhe corresponda’”. (Gn 2.18).

Desta forma, na perspectiva cristã, somos seres criados para vivermos em relacionamentos e a qualidade desses relacionamentos está diretamente associada à qualidade de saúde integral da pessoa.

Infelizmente, vemos as pessoas muito preocupadas como o seu bem-estar físico, fazendo exercícios em academias (às vezes de forma até exagerada) e buscando uma alimentação mais saudável (sempre que a consciência e o orçamento permitem), porém pouco atentas ao desenvolvimento de uma “saúde relacional”.

Um estudo apresentado por Robert Waldinger1, diretor do estudo de Harvard, sobre o desenvolvimento adulto, destaca que, realmente, a qualidade dos relacionamentos é o maior preditor de saúde a longo prazo e é um fator chave para a longevidade e saúde a longo prazo, sendo um fator muitas vezes ignorado e por conseguinte negligenciado.

De acordo com o referido estudo, a qualidade dos relacionamentos é um dos principais indicativos da qualidade de saúde integral ao longo da vida, ou seja, pessoas que têm relacionamentos significativos e profundos têm maior qualidade de saúde mental e física, impactando também na longevidade.

O estudo destaca ainda que pessoas solitárias tendem a ter saúde integral deteriorada e se sentirem mais infelizes que as que possuem bons relacionamentos. Também rejeita a ideia de que o sucesso financeiro é o fator mais associado ao sentimento de felicidade.

Não se trata necessariamente da quantidade de amigos que uma pessoa tem, mas da qualidade dos vínculos. Sentir que é possível contar com os outros em momentos difíceis é fundamental.

Ainda, segundo o estudo apresentado por Waldinger, relacionamentos saudáveis protegem o corpo e o cérebro, ajudando a regular o estresse e a prevenir doenças crônicas como diabetes, artrite e declínio cognitivo. A satisfação nos relacionamentos na meia-idade foi um preditor de saúde melhor do que os níveis de colesterol. Em contrapartida a solidão é considerada tão prejudicial à saúde quanto fumar ou ter consumo de álcool em excesso.

Infelizmente, na nossa sociedade pós-moderna, as pessoas estão cada vez mais isoladas, apesar de estarem sempre conectadas. Essas conexões, tratam-se de uma espécie de ‘pseudo-relacionamentos’ nos quais as trocas acabam sendo apenas de informações: locais agradáveis onde estiveram; viagens fantásticas feitas; momentos felizes ou mesmo tristes (como doenças e mortes) vivenciados, mas todos comunicados com a frieza de um noticiário e mediados pela tecnologia das telas.

A participação em redes sociais, por si só, não substitui a conexão emocional significativa provida por interações face a face de qualidade. O abraço, o aperto de mão, os olhos nos olhos durante a conversação fazem muita diferença na qualidade dos relacionamentos.

Sem mencionar a transitoriedade egocêntrica dos relacionamentos virtuais, os quais o sociólogo Zygmunt Bauman denomina de ‘relações líquidas’2 por serem menos frequentes e menos duradouros, em que as relações amorosas deixam de ter aspecto de união e passam a ser mero acúmulo de experiências e qualquer contrariedade desfaz o relacionamento em apenas um toque na tela.

Como cristãos somos chamados a viver uma dimensão relacional que ultrapassa todas as possibilidades imagináveis do mero convívio humano: “Da multidão dos que creram, uma era a mente e um o coração” (At 4.32). Essa dimensão é reafirmada com uma imagem extremamente forte de interrelação: membros uns dos outros (1Co 12.12-27).

Por isso é muito importante desenvolvermos relacionamentos significativos que nos acompanhem ao longo da vida. Não só os relacionamentos de família, mas de amizades que perdurem e com as quais possamos contar. Isso será fator de fortalecimento de nossa saúde integral.

Notas

1. Harvard Study of Adult Development, a pesquisa longitudinal mais longa do mundo sobre a vida adulta. Iniciado em 1938, o estudo acompanhou centenas de homens (e posteriormente suas famílias, incluindo cônjuges e mais de mil descendentes) por mais de 85 anos para descobrir o que realmente contribui para uma vida longa, saudável e feliz.

2. Zygmunt Bauman. Amor Líquido: Sobre a Fragilidade dos Laços Humanos (Liquid Love: On the Frailty of Human Bonds. Cambridge: Polity). Traduzido por Carlos Alberto Medeiros. Jorge Zahar Editor.

Imagem: Unsplash.

Carlos “Catito” e Dagmar são casados, ambos psicólogos e terapeutas de casais e de família, e membros da Igreja Luterana. São autores de Pais Santos, Filhos Nem Tanto. Acompanhe o blog: ultimato.com.br/sites/casamentoefamilia/.

Dr. Butler: ecos de um legado que não se apaga

Por Elias Bispo

Quarenta e nove anos se passaram desde a primeira vez em que pisei na Igreja Presbiteriana de Canhotinho. Eu era um jovem recém-alcançado pela fé, viajando com outros rapazes da União de Mocidade Presbiteriana. O ônibus de linha avançava lentamente pelos 27 quilômetros que separavam Garanhuns de Canhotinho, serpenteando por São João e Angelim, como se quisesse prolongar a expectativa da chegada.

Ao descer diante do templo, algo me marcou de imediato: no jardim lateral, silencioso e verde, repousavam o Rev. George William Butler, sua esposa Mary Rena Humphrey e o enigmático “Né Vilela”. Aquele túmulo, tão próximo da porta lateral da igreja, parecia guardar não apenas corpos, mas histórias que ainda respiravam.

Anos depois, em 1979, encontrei essas histórias nas páginas da biografia escrita pelo Rev. Edijéce Martins Ferreira. Ali descobri o médico-missionário que unia Bíblia e bisturi, fé e ciência, coragem e ternura. Descobri também o episódio de fevereiro de 1898, quando um fanático tentou tirar-lhe a vida em São Bento do Una. O golpe, porém, encontrou outro peito: o de Manoel Correia Vilela, o Né Vilela, que tombou no lugar do missionário e se tornou o primeiro mártir cristão do Agreste pernambucano. Desde então, aquele nome gravado na lápide nunca mais me soou estranho.

Hoje, 6 de janeiro de 2026, voltando de Garanhuns rumo a Tamandaré, senti o impulso de retornar a Canhotinho. Pedi a um mototaxista que me conduzisse até a igreja. Ao avistar o templo, reconheci-o de imediato – mais imponente, mais vivo, como se o tempo tivesse decidido honrá-lo. O jardim estava cuidado, o túmulo preservado, e a memória, intacta.

Fotografei o lugar. A porta lateral estava entreaberta; bati palmas e entrei. Dois irmãos me receberam com gentileza, entre eles o pastor Welber, capixaba e vascaíno. Havia almoço servido, aroma de comunhão no ar. Aceitei apenas um refrigerante, mas recebi muito mais: acolhimento, conversa, lembranças despertas.

Falamos de Pérola Lins, que já descansa no Senhor, e de Doreide, hoje na Bolívia. Falamos também da expansão do evangelho nas cidades vizinhas – sementes lançadas por Butler, regadas por gerações, florescendo ainda agora.

Saí dali com o coração aquecido. Há algo profundamente belo em testemunhar uma obra que atravessa séculos sem perder vigor. E senti nascer o desejo de levar a Classe 60+ da Escola Bíblica Dominical da IP Madalena para uma visita histórica e cultural àquela comunidade, ainda neste primeiro semestre de 2026. Talvez para que outros também ouçam, no silêncio daquele jardim, os ecos de um legado que não se apaga.

Tamandaré, PE, 6 de janeiro de 2026.

Elias Bispo é contador, atua na área financeira há 44 anos, educador financeiro, servidor público, casado com Mércia (psicóloga) há 42 anos, um casal de filhos, três netos, presbítero na Igreja Presbiteriana Madalena.

Eu com Deus e Deus comigo

Por Wilfried Korber

São, essas duas posições, muito parecidas, mas não são iguais. Tentarei explicar o que penso e como sou consolado em ambos os casos.

“Eu com Deus” significa que eu me disponho a viver de acordo com a sua vontade. Meu contato com ele é através da oração e da prática diária nos meus afazeres, procurando fazer tudo o que ele espera de mim, da melhor forma possível. Procuro melhorar minha comunhão, que como com outros personagens bíblicos, deve ser com real intimidade. Meu exemplo nesse caso é Moisés, como está escrito em Êxodo, nos capítulos 19 e 20.18-21. Depois desses, segue outro encontro no capítulo 24 e ainda no capítulo 33.12-23. Quero destacar nesse último trecho o versículo 21, no qual Deus disse a Moisés: “Eis aqui um lugar junto a mim!”

Agora, com essa palavra de aconchego já estamos chegando à segunda expressão do título: “Deus comigo.” Isso significa que Deus está ao meu lado por iniciativa dele. Como mencionei antes, foi ele que disse a Moisés: “Eis um lugar junto a mim,” convidando-o a se aproximar. Em outras palavras, Deus está dizendo que a mão dele está estendida na direção de Moisés; ou ainda como mencionado em outra ocasião, que ele pode levá-lo sobre as suas asas. Outra figura é quando Deus diz que é possível encontrar abrigo na sombra de suas asas (Salmos 57.1; 63.7). Também no Salmo 91.1, Deus nos fala do abrigo à sua sombra.

Resumindo, quero considerar que uma é a posição quando eu vou em busca de Deus, e outra é quando Deus se coloca à minha disposição. Em ambos os casos estaremos juntos, e isso é maravilhoso.

Wilfried Körber nasceu em Göttingen na Alemanha em 1931 e vive no Brasil desde 1937. Converteu-se aos 16 anos na então Igreja Alemã Batista Zoar, frequentada por sua mãe. Membro fundador da Igreja Batista Filadélfia de São Paulo, envolveu-se com o trabalho de evangelização de crianças e missões, com sua esposa Gisela, de saudosa memória. Há mais de uma década escreve textos para o devocionário Presente Diário. Atualmente vive em Sorocaba, SP. @lampadaparaosmeuspes_.

Imagem: Unsplash.

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Entra na minha casa, por Wilfried Korber

Abençoados para abençoar, por Carlos Munhoz

Abençoados para abençoar

Por Carlos Munhoz

“1- Deus tenha misericórdia de nós e nos abençoe; e faça resplandecer o seu rosto sobre nós. 2- Para que se conheça na terra o teu caminho, e em todas as nações a tua salvação. 3- Louvem-te a ti, ó Deus, os povos; louvem-te os povos todos” (Salmo 67.1-3, ARC)

Em seus três primeiros versos, o Salmo 67 traz três importantes reflexões:

PRIMEIRA: Clamor pela misericórdia, bênção de Deus e presença manifesta do abençoador

“Deus tenha misericórdia de nós e nos abençoe; e faça resplandecer o seu rosto sobre nós” (v. 1/1)

A quem o salmista clama pela misericórdia e bênção?

A Deus.

Agostinho: “Fizeste-nos para Ti, e inquieto está o nosso coração enquanto não repousa em Ti”.

Deus deve ser a nossa primazia. Ele é a fonte de toda boa dádiva, de todo dom perfeito.

O Senhor Jesus recorria sempre a Deus Pai em oração. É a ele quem devemos sempre recorrer.

“Deus tenha misericórdia de nós e nos abençoe; e faça resplandecer o seu rosto sobre nós;” (v. 1/2)

Carecemos da misericórdia de Deus. De um coração arrependido e contrito na presença de Deus. Não é um pedido pessoal, mas coletivo.

“Deus tenha misericórdia de nós e nos abençoe; e faça resplandecer o seu rosto sobre nós;” (v. 1/3)

Pedimos isso para podermos abençoar, precisamos ser bênção, nos enchendo do Espírito Santo.

Bênção de Deus, não para retê-la para si, mas para compartilhá-la entre as nações, com o nosso próximo.

Somos como o mar da Galileia, que, ao receber as águas do Jordão, as distribui para irrigar os campos; nesse sentido, quem só recebe e a retem para si, torna-se sem vida como o mar Morto.

“Deus tenha misericórdia de nós e nos abençoe; e faça resplandecer o seu rosto sobre nós;” (v.1/4)

Precisamos da unção de Deus, da presença manifesta e inequívoca de Deus na nossa vida.

A bênção não é tudo o que o povo de Deus almeja: Ele quer mais, anseia pelo próprio abençoador.

SEGUNDA: Para abençoar vidas, fazendo Deus e o seu plano de salvação conhecido

“Para que se conheça na terra o teu caminho, e em todas as nações a tua salvação.” (v.2)

Abençoados para abençoar. Receber para compartilhar.

A bênção de Deus deve ser estendida a todas as famílias da Terra.

TERCEIRA: Louvá-lo e adorá-lo eternamente

“Louvem-te a ti, ó Deus, os povos; louvem-te os povos todos.” (v. 3)

O maior motivo para as missões e o evangelismo é um zelo apaixonado pelas almas mas, sobretudo, pela glória de Jesus Cristo.

Conclusão

Recebemos muitas bênçãos de Deus, mas não para as retermos para nós, mas para compartilharmos com todos.

Que em tudo na nossa vida e através dela, o Senhor, e tão somente Ele, receba toda honra, glória, louvor e adoração.

Que Deus abençoe muito a todos, cada vez mais, e que muitas vidas sejam abençoadas por meio deste maravilhoso Ministério Cristão 60+. E que o Senhor, tão somente ele, seja glorificado. Amém!

Carlos Munhoz, Carlos Munhoz, 65 anos, casado com Jenusa Munhoz, pai da Priscila e avô de Melissa e Joaquim, é membro da Igreja Bíblica Evangélica da Comunhão e diretor do Espaço de Missões AMEI. Reside em São Paulo e é membro do Grupo Base do MC60+.

Imagem: Rio Jordão próximo ao mar da Galileia. Wikimedia.

A morte que nos toca viver e morrer

Por Ageu Heringer Lisboa

A morte é tão antiga quanto o surgimento da vida. É parte do incessante processo de reciclagem dos elementos da natureza. Positivamente, a biologia e a Bíblia nos lembram que nosso organismo tem prazo de validade estando programado para se desenvolver, cumprir seu desígnio e retornar ao seu nascedouro, a terra: “O pó deve voltar ao pó e o espírito voltar para Deus, que o deu” (Ec 12.7).

Esteticamente a morte está associada ao feio, à desvitalização progressiva, ao definhamento por doenças, originada por ataque de uma fera ou uma víbora, ou a espada do campo de batalha, trazendo febre, delírios, gemidos. E quando completa sua obra, tem-se a putrefação do corpo que precisa ser queimado ou enterrado para espantar outras mortes. Cenas que alimentaram o imaginário sombrio, frio, aterrorizante associado ao morrer em todas as culturas.

A intuição da finitude nos impacta e nos mobiliza, já que está presente em nossa imaginação e no profundo inconsciente pessoal e coletivo. Mas será sempre um assunto mórbido falar da morte? Mesmo quando temos enfermos graves em nossas famílias? O que se evita e interdita chama-se de tabu. Penso que de uma perspectiva da fé cristã, só por superstição, crendice, tabu sociocultural, culpa, medo e má teologia evitamos o assunto. Sim, a morte gera incômodos pois, positivamente, nascemos para viver e queremos viver o máximo de dias possíveis, com saúde e cercado de amizades e amores. E o desejo de eternidade está inscrito em nosso coração (Ec3.12). Mas, chega o dia em que ela se apresenta. Súbita ou lentamente.

Então vivemos, ainda hoje, com questões que acompanham a humanidade desde tempos imemoriais. A morte tem uma importância que se vê retratada nas culturas funerária dos povos, com tumbas, sarcófagos, pinturas, rituais e textos sagrados. Os vivos sempre se interrogam diante dela, símbolo de grande mistério, do desconhecido, com poder de nos assombrar. Impõe reverência. Reflete uma dimensão do sagrado, algo que atrai e aterroriza, que transcende o ordinário. Convida-nos a avaliar o sentido e o propósito da existência.

Encontramos uma fascinante e complexa variedade cultural de modos de vivenciar a morte de um ente querido ou de uma autoridade grupal e religiosa. Em alguns contextos antropológicos, a morte sacrificial de animais ou de humanos serviu de símbolo pactual entre grupos humanos, selando a paz, ou como oferenda a um Deus ou espírito com finalidade expiatória ou para obtenção de benevolência, boas colheitas, vitória em guerras.

Além do meio cultural que nos envolve com referências de como administrar a morte, voltando-nos para a dimensão familiar e pessoal do morrer, temos algumas tarefas a encarar para uma boa transição na última etapa do ciclo vital. Que ela não seja malvista nem fonte de terror. Incômoda, sim, mas…

Um dos pontos centrais de nossa fé bíblica, importa lembrar, é que a morte já foi tratada e resolvida em definitivo, histórica e fisicamente, por meio do sacrifício e ressurreição do Filho do Homem, Jesus, o Cristo de Deus. Este fato garante um novo início, com a biologia da ressurreição, que nos revestirá da incorruptibilidade e da imortalidade (1Co 15.50-54).

Então, garantidos pelo Ressurreto, podemos exercitar uma expectativa serena quanto à nossa terminalidade e a de nossos queridos.  E cuidar de tarefas prévias ao morrer. 

Sim, ninguém sabe quando partirá exatamente. Portanto, que tal estarmos sempre preparados para a chamada rumo à morada eterna? O sábio Coelét exortou jovens para se conectarem ao Criador, antes dos “dias maus e da morte”, desfrutar os prazeres simples da vida, temendo a Deus e guardando seus mandamentos, porque isto é o dever de cada pessoa” (Ec 12.13).

Quem sabe de sua hora?

Tarefas prévias ao morrer

Balanço existencial

Em qualquer idade devemos “contar os dias”, reconsiderar o vivido. Um corajoso e humilde ato de escuta da consciência, onde o Espírito que nos conhece fala, e temos oportunidade de nos enxergamos no íntimo e fazermos acertos com nós mesmos. Tempo e lugar para confissões, reconhecimentos, acordos com Deus e com pessoas. Meio para recebermos leveza de alma e paz de espírito.

Providências documentais

Válidas mesmo para um jovem de vinte anos, não só para um ancião enfermo: não deixe dívidas nem dúvidas sobre patrimônio, contas, partilhas de bens, desejos e acertos de qualquer natureza. Junte, confira e mantenha em local seguro documentação pessoal e familiar, de bens móveis e imóveis, certidões de nascimento, de casamento, de divórcio. Tenha um advogado de sua irrestrita confiança para elaboração de procuração registrada em cartório.

Previdência

Já que estamos sujeitos a adoecimento, acidentes, interrupção forçada de trabalho e movimentos implicando despesa hospitalar, enterro ou cremação, recomenda-se designar pessoa de íntima confiança para acompanhar decisões ou mesmo decidir por você caso fique impossibilitado/a. Compartilhe suas senhas e o mapa da mina!

Testamento vital

Diretivas Antecipadas de Vontade (DAV) é um documento que registra as preferências de uma pessoa em relação a tratamentos e cuidados de saúde em caso de incapacidade de se expressar. Segundo Resolução do Conselho Federal de Medicina, “Poder escolher não ser submetido a tratamentos extraordinários de manutenção da vida na fase final de doenças como demência, insuficiência cardíaca, doença pulmonar obstrutiva crônica ou câncer, quando já não existe possibilidade de reversão do quadro”.

Este é tema importante pois muita gente tem dificuldade de aceitar que o ente querido precisa partir. Insistir em tratamentos que não irão reverter o quadro é infligir sofrimento ao paciente – distanásia ou esperar por milagre nem sempre é ajuizado nem expressão de amor! Mas, ressalte-se que “o cuidado deve continuar até o momento da morte, com ênfase no controle dos sintomas e na resolução de pendências”1.

Funerais – enterro ou cremação

Além do Sistema Único de Saúde (SUS), se possível tenha um plano de saúde, um seguro de vida e auxílio funeral. Sobre funerais, algumas prefeituras doam caixões. Deixe seus familiares orientados para que não sejam vítimas de despesas abusivas. Um caixão modelo standard/social (simples) pode ser encontrado em São Paulo, capital por valores que vão de R$ 147,00 a R$ 695,00. Quem quiser um modelo de luxo faz um PIX de 10 a 50 mil reais. Decida se vale enterrar dinheiro junto! Lembre-se que você já estará no céu!

Cada vez mais a preferência das famílias é por cremação. Simplifica-se o processo. Não há significativas objeções religiosas a não ser entre muçulmanos. E o custo é mais barato do que o do enterro tradicional. Recolhe-se as cinzas num pequeno vaso após dois a cinco dias.

Dimensão espiritual

Morrer costuma ser um processo. Simultâneo ao definhar físico, pode ocorrer uma revitalização espiritual quando a pessoa prestes a morrer se torna mais receptiva para receber afetos, a manifestar gratidão e abrir-se espiritualmente.

Estar na dependência de cuidadores e de aparelhos muda a percepção de si e dos outros. A vivência da absoluta fragilidade e a incerteza quanto ao futuro imediato desperta a consciência de muitos para a última decisão: ressignificar a existência pessoal. Devemos apoiá-los respeitando seu cansaço e limites, nos dispondo a ouvi-los, acolhendo suas queixas, medos e desejos. Podemos perguntar se desejam falar com alguém sobre algo de natureza íntima – uma confissão –, se têm um pedido a fazer, se gostariam de liberar perdão para alguém, se aceitam uma oração. A pessoa enferma tem direito a saber a verdade de sua condição, se perguntar. E os que a acompanham podem e devem dizer que são gratos pelo tempo de sua vida. Que a amam. Que ela siga na companhia de Jesus na travessia para o céu. E até breve!

Nota

1. Testamento vital permitirá às pessoas definirem limites terapêuticos na manutenção da vida. Site do Conselho Federal de Medicina.

Ageu Heringer Lisboa, 75 anos, psicólogo, mora em Campinas, SP. É autor de Sexo: Espiritualidade, Instinto e Cultura e organizador de Bíblia e Psique: Marcas Bíblicas na Psicologia e na Psiquiatria e membro-fundador do Corpo de Psicólogos e Psiquiatras Cristãos (CPPC) e da Associação Internacional de Assessoramento e Pastoral Familiar (EIRENE) no Brasil. Ex-assessor da Aliança Bíblica Universitária (ABU), desde 1974 trabalha em clínica psicoterápica e exerce consultoria a ONGs sociais e equipes ministeriais.

Imagem: A dança da morte. Autor desconhecido, Século 16. Coleção do Museu Metropolitano de Arte.

Leia mais:

>> Saber envelhecer, Oswaldo Luiz Gomes Jacob

>> Não tenho medo da morte, Thomas Hahn

Virada de ano

Por Oseas Heckert

Senhor, ao começar este novo ano, ajuda-me a me aquietar nos Teus braços, e a abrir o meu coração para o que Tu tens preparado para mim no novo ano que vai começar.

CELEBRAÇÃO

Relembre momentos relevantes, conquistas, alegrias dos últimos meses.

Quem me encorajou? Quem me ajudou? Quem me inspirou com palavras e atitudes?

Demonstre sua gratidão a Deus com o Salmo 36.5-9:

O teu amor, Senhor, chega até os céus;

a tua fidelidade até as nuvens.

A tua justiça é firme como as altas montanhas;

as tuas decisões, insondáveis como o grande mar.

Tu, Senhor, preservas tanto os homens quanto os animais.

Como é precioso o teu amor, ó Deus!

Os homens encontram refúgio à sombra das tuas asas.

Eles se banqueteiam na fartura da tua casa;

tu lhes dás de beber do teu rio de delícias.

Pois em ti está a fonte da vida;

graças à tua luz, vemos a luz.

Em que me tornei melhor? Quais foram os aprendizados, novos hábitos adquiridos?

O que eu quero levar para o novo ano?

LAMENTO E ARREPENDIMENTO

Como fui afetado pelas agitações sociais e políticas nos últimos meses?

Quais foram os momentos mais difíceis e doloridos?

Reconheça a presença e o cuidado de Deus em meio a tudo o que passou.

Do que me arrependo de ter pensado, feito, dito, ou de ter me omitido?

Aproprie-se da compaixão e do perdão de Deus, com o Salmo 103.11-14: 

Pois como os céus se elevam acima da terra,

assim é grande o seu amor para com os que o temem;

e como o Oriente está longe do Ocidente,

assim ele afasta para longe de nós as nossas transgressões.

Como um pai tem compaixão de seus filhos,

assim o Senhor tem compaixão dos que o temem;

pois ele sabe do que somos formados;

lembra-se de que somos pó.

Ao entrar no novo ano, quais experiências/sentimentos quero deixar para trás?

Reflita sobre Hebreus 12.1,2:

Portanto, também nós, uma vez que estamos rodeados por tão grande nuvem de testemunhas, livremo-nos de tudo o que nos atrapalha e do pecado que nos envolve e corramos com perseverança a corrida que nos é proposta, tendo os olhos fitos em Jesus, autor e consumador da nossa fé. Ele, pela alegria que lhe fora proposta, suportou a cruz, desprezando a vergonha, e assentou-se à direita do trono de Deus.
 

Em que me considero menos capaz que os outros?

Tenho relutado em pedir ajuda? Por quê?

Senhor, ajuda-me a abandonar as coisas e emoções que atrapalham minha caminhada.

Ajuda-me a me livrar das mágoas e raízes de amargura.

Eu quero seguir livre de tudo isto no novo ano que começa.

Eu quero me livrar do pecado que tenazmente me assedia. 

Eu peço e recebo o Teu perdão. 

Ajuda-me a manter meus olhos fixos em Jesus, para eu seguir com perseverança a jornada que está posta diante de mim.

RECOMEÇO E RESOLUÇÕES

Receba a orientação de Deus. Ore com o Salmo 25.4-6:
Mostra-me, Senhor, os teus caminhos,

ensina-me as tuas veredas;

guia-me com a tua verdade e ensina-me,

pois tu és Deus, meu Salvador,

e a minha esperança está em ti o tempo todo.

Como eu me sinto diante do novo ano? Quais são as minhas expectativas?

Estou ansioso com relação a alguma coisa?

Abra seu coração diante de Deus.

Senhor, o que Tu queres de mim neste novo ano?

Como Tu queres que seja diferente?

Estás me convidando a desenvolver alguma nova disciplina espiritual?

Fala, Senhor, pois o teu servo está ouvindo. (cf 1 Samuel 3.10)

Observe o depoimento de Paulo aos Filipenses 3.12-14:]

Não que eu já tenha obtido tudo isso ou tenha sido aperfeiçoado, mas prossigo para alcançá-lo, pois para isso também fui alcançado por Cristo Jesus. Irmãos, não penso que eu mesmo já o tenha alcançado, mas uma coisa faço: esquecendo-me das coisas que ficaram para trás e avançando para as que estão adiante, prossigo para o alvo, a fim de ganhar o prêmio do chamado celestial de Deus em Cristo Jesus.

Reflita sobre Romanos 8.28: Sabemos que Deus age em todas as coisas para o bem daqueles que o amam, dos que foram chamados de acordo com o seu propósito.

Mesmo quando você não perceber, Deus está trabalhando em sua vida.

Senhor, eu entrego a Ti o novo ano. Tu és o autor e consumador da minha fé. 

Eu me submeto à história que Tu estás escrevendo em mim e através de mim.

(Adaptado de Lectio 365)

Oseas Heckert é consultor de empresas e “aprendiz de poeta, ainda que tarde”. Escreve para www.antropogogia.net.

Leia mais:

“Ensina-nos a contar os nossos dias” , por Lili Yoshimoto

Nada é para sempre? , por Christian Gillis

Acolher o estranho e as nossas estranhezas

O que era estranho, passa a ser um “nosso”

Por Tânia de Medeiros Wutzki

Desde que conheci a realidade das pessoas em situação de refúgio, a causa me mobiliza.

Tenho aprendido com a teologia migrante, a perspectiva bíblica tanto sobre sermos acolhedores como princípios para o acolhimento. Aprendi que somos todos peregrinos, cidadãos de outro reino, e muitos de nós migramos ou nossos antepassados foram migrantes internos ou de fora do país. Como diz o slogan da Missão MAIS “Não são eles, somos nós”. Neste tempo, tenho percebido, também, avanços nas políticas públicas de acolhimento que orientam os serviços, algumas com influência/incidência de organizações cristãs. É bonito ver o que igrejas e organizações têm feito neste segmento.

Entre os conceitos bíblicos que dão base para a nossa prática está o da hospitalidade.

Vou citar apenas um texto: “Pratiquem a hospitalidade” (Rm 12.13b). Paulo inclui a hospitalidade na lista dos aspectos fundamentais para a vida cristã

A hospitalidade bíblica não se refere apenas a uma casa aberta, mas também a outras dimensões como espaço na agenda, tempo para escuta e liberalidade financeira.

Na minha caminhada, aprendi que a palavra hospitalidade no grego é philoxenia – que significa amigo do estranho, do estrangeiro. A Bíblia amplia bem mais o sentido da hospitalidade, que não é receber apenas nossos amigos, irmãos e irmãs, família estendida; é receber o estranho, aquele que desconheço ou que me desafia porque é diferente daqueles com quem convivo.

Acolher o estranho na sociedade, na comunidade, na igreja e na família é o desafio dos seguidores de Jesus.

O objetivo da hospitalidade e do acolhimento é o pertencimento, quando o que era estranho, passa a ser um “nosso”.

O contrário da philoxenia é uma palavra que não gostamos de ouvir, mas está presente em nossa sociedade: xenofobia – medo ou aversão ao estranho. Infelizmente pessoas em situação de refúgio vivenciam a xenofobia com frequência.

Recentemente, li uma reflexão que acrescentou uma outra dimensão na prática cristã da hospitalidade.

A abadessa Christine Valters Paintner nos convida a redescobrir a hospitalidade como um ato radical de pertencimento que começa dentro de nós.

Com base nos ensinos dos monges do deserto, pais da igreja, ela afirma que a prática da hospitalidade não é só com o outro, das relações externas da nossa vida, mas também conosco mesmos, com nossa vida interior, com as estranhezas que surgem ao longo da vida, fraquezas que nos desestruturam, nos tiram do eixo.

Christine nos convida: e “se, quando a vida começasse a desmoronar, eu abrisse meu coração para acolher a dor e o medo que também chegam, e se eu convidasse todos os sentimentos dolorosos de perda e desorientação para um chá com ternura?”

Quando acolhemos os nossos sentimentos estranhos, nos tornamos mais sensíveis para acolher o outro, estranho. A hospitalidade também pode ser uma experiência de dentro para fora, interna e externa.

Esta fase da vida 60+ pode nos trazer algumas estranhezas, sentimento de insegurança, fragilidade e incertezas.

Entre as estranhezas podemos encontrar, talvez, uma agenda que tem mais consultas e exames do que gostaríamos:

Talvez a solidão por não ter mais os relacionamentos do mundo do trabalho e o “ninho vazio”.

Talvez mais reflexão e pensamentos sobre a morte.

Talvez a constatação de que o corpo não está mais tão alinhado com a mente.

Talvez nossa tendência seja reclamar, rejeitar, negar estas estranhezas. Mas podemos ser hospitaleiros, acolhê-las (tomar um chá com elas) e depois, com serenidade, sabedoria e em oração, discernir, tomar decisões e lidar com elas de maneira acertada.

Meu desejo e oração é que nós, a partir da hospitalidade e do acolhimento das nossas estranhezas, estejamos abertos, sensíveis e disponíveis para acolher aqueles que o Senhor colocar em nosso caminho.

Tânia de Medeiros Wutzki foi coordenadora dos projetos sociais da FEPAS na Convenção Batista Independente, é conselheira da Rede Evangélica Nacional de Ação Social/RENAS, integra o grupo gestor do Projeto Retalhos de Esperança e o grupo base do Movimento 60+.

Imagem: Unsplash.

Leia mais:

>> Envelhecimento, deserto e oásis, por Tânia de Medeiros Wutzki

A saúde como fundamento de uma vida plena

“Eu vim para que tenham vida, e a tenham plenamente.” (João 10.10)

Por Jorge Cruz

Ter uma boa saúde é o desejo de praticamente todas as pessoas, seja qual for o local onde vivem, a sua língua ou cultura. Em 1948, a Organização Mundial de Saúde (OMS) apresentou um conceito de saúde como sendo o “estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não só a ausência de doença ou enfermidade”. Esta definição tem a virtude de reconhecer que não basta o corpo estar bem para se ter saúde. Há outras dimensões que devem ser consideradas, entre as quais a dimensão mental e a social. Contudo, a definição de saúde da OMS parece-me irrealista e mesmo ingênua, pois não é de esperar que cada pessoa esteja a maior parte do tempo neste estado de completo bem-estar físico, mental e social, que mais se assemelha a um estado de êxtase ou de felicidade absoluta. Além disso, há situações em que a pessoa tem uma doença e pode não ter nenhum sinal ou sintoma, como acontece geralmente na hipertensão arterial e em estados iniciais de câncer.

Galeno, um famoso médico grego do século 2 da era cristã, apresentou uma definição de saúde bastante realista e equilibrada. Galeno considera a saúde o “estado em que nos sentimos capazes de fazer as coisas que desejamos fazer, com o mínimo de dor e desconforto”. É uma espécie de meio termo entre a doença incapacitante e uma saúde perfeita de difícil alcance. Nesse sentido, uma pessoa pode considerar-se saudável apesar de alguns condicionalismos de natureza física ou mental, desde que não a impeçam de realizar os seus projetos de vida.

Em 1984, na 37.ª Assembleia-Geral da OMS, foi aprovada a inclusão da dimensão espiritual na definição de saúde desta organização, embora não tenha sido adotada nos documentos oficiais de forma generalizada.

O que a Bíblia diz?

A Palavra de Deus revela o enorme valor da vida humana aos olhos do Criador, desde a concepção até à morte natural (Gn 1.27, Êx 20.13, Sl 139). Encontramos também nas Escrituras Sagradas algumas recomendações para promover a saúde física, mental e espiritual das pessoas.

O conceito hebraico de saúde (shalom) é mais dinâmico e abrangente que a definição da OMS, pois não só considera o ser humano uma entidade biopsicossocial e espiritual, como inclui a noção de plenitude, felicidade, prazer, paz e bem-estar, numa vertente pessoal e comunitária.

Na perspetiva bíblica, a dimensão espiritual é a base de todas as outras, não sendo possível haver saúde integral sem um relacionamento saudável com Deus e com o próximo. Além disso, este estado de saúde (shalom) só será totalmente desfrutado quando o Reino de Deus for finalmente estabelecido para sempre (cf. Fp 3.21, Ap 21.4).

A doença não faz parte dos planos originais do Criador, mas foi uma consequência da desobediência do homem e da mulher no Jardim do Éden (Gênesis 1-3). Parece teologicamente correto afirmar que as doenças estão direta ou indiretamente relacionadas com a atividade do diabo e das hostes demoníacas (cf. Jó 1-2). Como resultado da expulsão do Paraíso, a doença passou a fazer parte da condição humana. O ministério da redenção do Senhor Jesus Cristo também contempla a cura e libertação da doença e de todas as amarras dos poderes das trevas (Lc 4.18-19).

Paulo recorda aos coríntios, e a cada um dos crentes, que o nosso corpo físico, embora temporário, é onde o Espírito Santo habita, e por conseguinte, somos responsáveis perante Deus pelo modo como cuidamos dele. Diz o apóstolo: “Não sabeis que o vosso corpo é o templo do Espírito Santo, que habita em vós, proveniente de Deus, e que não sois de vós mesmos? Porque fostes comprados por bom preço; glorificai, pois, a Deus no vosso corpo, e no vosso espírito, os quais pertencem a Deus” (1Co 6.19-20).

Uma forma de se promover a saúde, e uma das primeiras a ser estabelecidas por Deus, é a necessidade de descansarmos, não apenas durante o sono mas também um dia por semana: “Lembra-te do dia do sábado, para o santificar. Seis dias trabalharás, e farás toda a tua obra. Mas o sétimo dia é o sábado do Senhor teu Deus; não farás nenhuma obra…” (Êx 20.8-10).

Há também inúmeras advertências na Palavra de Deus acerca dos malefícios do consumo de bebidas alcoólicas, como p. ex. Provérbios 23.29-33.

A moderação e autodomínio são virtudes cristãs (cf. Gl 5.22, Fp 3.18-19) que podem ser aplicadas à forma equilibrada como nos devemos alimentar e a todas as áreas da vida. Lemos em Provérbios 25.16: “Achaste mel? Come o que te basta; para que, porventura, não te fartes dele, e o venhas a vomitar”.

Uma atitude de gratidão e contentamento por todas as dádivas que recebemos de Deus (cf. 1Ts 5.18), e a entrega dos problemas e preocupações ao Senhor, em oração, são outras maneiras de desenvolvermos a nossa saúde mental e emocional, e combatermos o estresse. Paulo exortou os Filipenses: “Não estejais inquietos por coisa alguma, antes, as vossas petições sejam em tudo conhecidas, diante de Deus, pela oração e súplicas, com ação de graças. E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará os vossos corações e os vossos pensamentos em Cristo Jesus” (Fp 4.6-7).

Evidências científicas

Contrariamente ao que defendia Freud, que a religião era a causa de neuroses e outras perturbações mentais, é hoje reconhecido o papel altamente positivo da fé para a saúde das pessoas.

O Dr. Harold Koenig, psiquiatra americano, na sua obra autobiográfica The Healing Connection, relata como experimentou a cura de problemas mentais de que padecia desde a adolescência, a partir do momento em que entregou a sua vida a Jesus (p.87). É atualmente um dos principais pesquisadores, a nível mundial, sobre os efeitos da fé e prática religiosas na saúde física e mental, sendo autor e coautor de mais de 35 livros e de centenas de artigos científicos sobre o assunto.

As evidências científicas dos benefícios para a saúde das crenças religiosas, com destaque para a fé cristã, são avassaladoras. Incluem redução da incidência de ansiedade e depressão, consciência do sentido da vida, recuperação mais rápida de estados depressivos e outros problemas de saúde, menor consumo de álcool, tabaco e outras substâncias nocivas, sistema imunitário mais robusto, menor incidência de hipertensão arterial, menores taxas de suicídio, e uma atitude de maior otimismo e esperança em relação ao futuro. Há igualmente uma correlação estatisticamente significativa entre o grau de envolvimento religioso e a mortalidade em geral. As pessoas mais envolvidas nas suas comunidades de fé vivem mais tempo que as que têm uma postura mais passiva e menos participativa na sua igreja local. Um estudo realizado entre afro-americanos revelou que os que participavam nas atividades religiosas mais do que uma vez por semana tinham uma esperança de vida 14 anos superior aos que não frequentavam a igreja (Koenig, p. 133).

O principal problema encontrado entre os cristãos, que se repercute negativamente na saúde, é o excesso de peso, para o que poderá contribuir a participação regular em eventos sociais nas igrejas, envolvendo alimentos ricos em açúcar e gordura e altamente calóricos.

Como melhorar a saúde?

As doenças cardiovasculares e oncológicas, as duas principais causas de morte no mundo, são influenciadas por fatores de risco comportamentais relacionados com o estilo de vida. Cerca de 20% dos vários tipos de câncer estão relacionados com o consumo de tabaco, 10% com o excesso de peso e 8% com o consumo de bebidas alcoólicas. Algumas formas de prevenir estas doenças são uma alimentação saudável, controlar o peso e a tensão arterial, praticar exercício físico, ter bons hábitos de sono, evitar o consumo de álcool, não consumir tabaco, evitar comportamentos de risco (p. ex. na circulação rodoviária) e fazer periodicamente exames de rastreio sob supervisão médica.

A obesidade, considerada uma epidemia dos tempos modernos, é infelizmente cada vez mais frequente entre os cristãos. Alguns dos problemas de saúde relacionados com o excesso de peso são a hipertensão arterial, a doença coronária, o acidente vascular cerebral, a diabetes tipo 2, vários tipos de câncer, lesões osteoarticulares, infertilidade, asma, depressão, doenças renais e hepáticas, e a apneia do sono.

Pequenas mudanças na forma como nos alimentamos poderão fazer uma grande diferença no controle do excesso de peso e na melhoria do estado de saúde. Algumas das mais importantes incluem: fazer uma alimentação variada, aumentar o consumo de vegetais, reduzir o consumo de hidratos de carbono e açúcar, evitar o consumo de alimentos ultraprocessados (refrigerantes, biscoitos, salsichas, etc.), e incluir alimentos fermentados na dieta (kefir, kombucha, etc.). Para quem não é diabético e não tem outras doenças que o impeçam, é aconselhável fazer uma pausa alimentar diária de 12-14h, incluindo o período de sono noturno.

Conclusão

Todos os cristãos nascidos de novo podem estar seguros de que receberão novos corpos quando o Senhor Jesus voltar (1Co 15.40-44), adequados para viverem na Sua presença nos novos céus e nova terra. Mas enquanto vivermos neste mundo, para podermos cumprir cabalmente o nosso chamado e missão, somos responsáveis pela nossas ações, nomeadamente pela forma como cuidamos (ou não) da nossa saúde.

O plano de Deus para cada um dos Seus filhos é que tenham uma vida plena e abundante (Jo 10.10), neste mundo e na eternidade, que se traduz numa boa saúde e bem-estar, a nível físico, mental, social e espiritual. As recomendações milenares que encontramos na Palavra de Deus continuam a ser relevantes para desfrutarmos de boa saúde, na nossa sociedade moderna, tal como têm sido ao longo da história da humanidade. E, como seria de esperar, têm sido corroboradas por inúmeros estudos científicos.

Jorge Cruz é médico especialista em angiologia e cirurgia vascular, doutor em bioética, membro do Comitê de Países de Língua Portuguesa da International Christian Medical & Dental Association (ICMDA), membro honorário da Associação Cristã Evangélica de Profissionais de Saúde (ACEPS-Portugal), membro do Conselho Internacional da PRIME – Partnerships in International Medical Education. Mora em Porto, Portugal.

Bibliografia

Bunn, A. & Randall, D. (2011). Health benefits of Christian faith. CMF Files 44. Christian Medical Fellowship. https://www.cmf.org.uk/resources/publications/content/?context=article&id=25627

Fergusson, A. (1993). Health: The strength to be human. Inter-Varsity Press.

Koenig, H. G. & Lewis, G (2000). The Healing Connection: The story of a physician’s search for link between faith and science. Templeton Foundation Press.

Saunders, P. (2014). The Human Journey: Thinking biblically about health. Christian Medical Fellowship.

Imagem: Unsplash.

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