Esclarecendo seu propósito na terceira idade (parte 2)

Buscar o Senhor e entregar-nos à sua vontade é um processo de redirecionar nosso coração e transformar nossa alma para toda a vida

Por Mark D. Roberts

Esta é a Parte 2 de uma série de artigos sobre o tema: “Esclarecendo seu propósito na terceira idade”. Na Parte 1, eu disse que estava respondendo a uma pergunta de um amigo que me perguntou: “Se alguém em nossa fase da vida não tem uma noção clara de propósito, existe algum processo pelo qual essa pessoa possa descobri-lo?”

Expliquei na Parte 1 que não acredito que exista um único processo que leve todas as pessoas a entender com clareza qual é o seu propósito. O que tenho aprendido recentemente confirma essa convicção. No boletim eletrônico Third Third Life de junho de 2022, pedi às pessoas que me enviassem suas respostas às seguintes perguntas:

1. Se você tem uma noção relativamente clara de seu propósito na terceira idade, de onde veio essa clareza? Como você discerniu seu propósito para esta fase da vida?

2. Se você não tem muita clareza sobre seu propósito na terceira idade, o que parece estar impedindo essa clareza?

3. Se você fosse sugerir uma única coisa que alguém pudesse fazer para obter maior clareza sobre seu propósito, qual seria essa coisa?

Recebi respostas de pelo menos algumas dezenas de pessoas, às quais sou muito grato. Agradeço pelo que compartilharam comigo. Descobri que, de fato, as pessoas chegam a uma compreensão de seu propósito por caminhos diferentes. Não existe uma abordagem que sirva para todos. Também me chamou a atenção o fato de que muitas pessoas na terceira idade ainda estão desenvolvendo sua noçāo de propósito. Elas já descobriram algumas coisas, enquanto outras ainda precisam ser discernidas. Por exemplo, uma pessoa que me escreveu sente-se chamada a se dedicar de maneira mais constante a seus netos e filhos (não apenas aos netos, diga-se de passagem). Mas ela não tem certeza do que mais Deus tem para ela fazer. Ela sabe que há mais e ainda está em um processo de discernimento.

Embora eu não ache que exista um caminho perfeito para descobrir seu propósito, estou convencido de que há coisas que podemos fazer para obter maior clareza sobre o nosso propósito. Não devemos simplesmente ficar esperando até termos certeza qual é nosso propósito na terceira idade. Um homem que me escreveu enfatizou a importância de agir ativamente, experimentar possibilidades, explorar opções e aprender com a experiência vivida. Seu conselho combina com uma das sugestões que apresentarei mais adiante: “#9 – Experimente para avançar”.

Na Parte 1 desta série, comecei com a primeira de dez sugestões de coisas que você pode fazer para esclarecer seu propósito: #1 – Comprometa-se com o propósito de Deus para todas as coisas, inclusive para sua vida. Os cristãos não começam a discernir seu propósito procurando dentro de si mesmos ou prestando atenção às necessidades do mundo, embora ambas as coisas sejam importantes. Em vez disso, começam a esclarecer seu propósito dando atenção e refletindo sobre o propósito de Deus para todas as coisas, inclusive para si mesmos.

Na Parte 2, gostaria de considerar as sugestões 2 e 3:

Sugestão 2. Busque o Senhor em oração e entregue-se à vontade de Deus

Sugestão 3. Preste atenção à maneira como Deus criou você e aos dons que lhe concedeu

Sugestão 2: Busque o Senhor em oração e entregue-se à vontade de Deus

As Escrituras nos ensinam repetidamente a pedir a Deus, em oração, aquilo que desejamos. Jesus, por exemplo, diz: “Peçam, e será dado; busquem, e encontrarão; batam, e a porta será aberta” (Mt 7.7). Certamente é apropriado pedir ao Senhor coisas específicas relacionadas ao seu propósito na terceira idade. Você pode pedir a Deus que o guie, inspire e capacite.

Mas também o encorajo a se oferecer a Deus enquanto ora, entregando sua vida a Deus e permanecendo aberto ao propósito gracioso que ele tem para você. Jesus nos ensina a dizer ao nosso Pai celestial: “Venha o teu Reino; seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu” (Mt 6.10). Quando oramos “Seja feita a tua vontade”, estamos implicitamente acrescentando: “E não a minha vontade”. Alguns versículos depois, em Mateus, Jesus acrescenta: “Busquem, pois, em primeiro lugar o Reino de Deus” (Mt 6.33, NVI). Quando fazemos isso, estamos escolhendo a vontade de Deus em vez da nossa própria, entregando-nos à soberania graciosa de Deus. De maneira profunda, Jesus nos mostra esse tipo de oração no Getsêmani, quando ora: “Aba, Pai, tudo te é possível. Afasta de mim este cálice; contudo, não seja o que eu quero, mas sim o que tu queres” (Mc 14.36).

Embora buscar o Senhor em oração seja algo que faço com frequência, confesso que acho mais difícil entregar-me a Deus. O fato é que eu realmente quero aquilo que quero. No entanto, à medida que cresço em Cristo, estou aprendendo lentamente a entregar mais de mim a Deus. Fui ajudado nesse processo de crescimento por uma oração de Santo Inácio conhecida como “Suscipe”. Suscipe é uma palavra latina que significa “receber ou tomar” e é a primeira palavra dessa oração de Santo Inácio em latim. A Suscipe diz o seguinte:

Toma, Senhor, e receba toda a minha liberdade, minha memória, meu entendimento e toda a minha vontade. Tudo o que tenho e considero meu. Você me deu tudo. A você, Senhor, eu o devolvo. Tudo é seu; faça com isso o que quiser. Me dê apenas o seu amor e a sua graça. Isso é suficiente para mim.

Faço essa oração todas as manhãs durante meu momento devocional. Eu consigo dizer as palavras, mas tenho dificuldade em entendê-las com todo o coração. Compartilhei essa luta com um amigo de terceira idade que, para minha surpresa, também ora a Suscipe todos os dias e também acha difícil dizê-la sem reservas. Será que o amor e a graça de Deus seriam realmente suficientes para ele?

Fui encorajado pela sinceridade de meu amigo. Sua luta, tão semelhante à minha, lembrou-me de que buscar o Senhor e entregar-nos à sua vontade não é algo que fazemos uma vez e depois seguimos em frente. Pelo contrário, é um processo de redirecionar nosso coração e transformar nossa alma para toda a vida. Esse redirecionamento e essa transformação acontecem como resposta à graça de Deus. Nossa experiência da bondade ilimitada de Deus nos permite orar com mais verdade e plenitude: “Seja feita a tua vontade”.

Sugestão 3: Preste atenção à maneira como Deus criou você e aos dons que lhe concedeu

O Salmo 139.14 contém esta frase memorável e comovente: “Eu te louvo porque me fizeste de modo especial e admirável”. Cada ser humano é uma criação única de Deus. Embora o pecado corrompa a bondade da criação, cada pessoa ainda carrega a imagem de Deus. Cada pessoa é “feita de modo especial e admirável”, inclusive você.

Deus lhe deu talentos, habilidades, pontos fortes, traços de personalidade, valores, percepções e dons espirituais distintos. Você desenvolveu e usou essas características ao longo de sua vida. Ao entrar na terceira idade, poderá usar muitos desses dons, talvez de maneiras novas. Por exemplo, durante sua vida profissional em tempo integral, talvez você fosse supervisor de trabalhadores mais jovens. Agora, se estiver aposentado, poderá usar algumas dessas mesmas habilidades para orientar pessoas mais jovens no ambiente de trabalho, na igreja ou em escolas carentes de sua cidade. Também é bastante possível que você desenvolva novas habilidades à medida que envelhece.

Narrativas negativas comuns sobre o envelhecimento exageram a perda de capacidades à medida que as pessoas envelhecem. Certamente, os adultos mais velhos não conseguem fazer tudo o que um dia foram capazes de fazer. As pesquisas sobre o envelhecimento confirmam o que sabemos por experiência pessoal. Meus joelhos não me permitem mais correr, embora eu ainda adore fazer trilhas. E acho mais difícil lembrar nomes, embora geralmente um nome esquecido volte magicamente à minha mente horas depois de eu ter precisado usá-lo. É verdade que algumas pessoas vivenciam perdas significativas e dolorosas no início da velhice, como a demência de início precoce. Mas a maioria dos adultos mais velhos continua tendo habilidades consideráveis, com alguns se tornando mais fortes com a idade. Pesquisas mostram, por exemplo, que cérebros mais velhos são mais integrados do que cérebros mais jovens. Como escreve o psicólogo geriátrico Gene Cohen: “A complexa arquitetura neural dos cérebros mais velhos, construída ao longo de anos de experiência, prática e vida cotidiana, é uma força fundamental dos adultos mais velhos”.1 As implicações desse desenvolvimento cerebral são profundas. Por exemplo, em From Strength to Strength, Arthur Brooks, professor de liderança em Harvard, observa: “Quando você é jovem, tem inteligência bruta; quando é velho, tem sabedoria. Quando é jovem, consegue gerar muitos fatos; quando é velho, sabe o que eles significam e como usá-los”.2

Se você não tem certeza sobre seus talentos, habilidades, pontos fortes, traços de personalidade, valores e dons espirituais, recomendo que pergunte a pessoas que o conhecem bem. Elas ajudarão você a enxergar aspectos de si mesmo que talvez não consiga perceber sozinho. Além disso, você também poderá encontrar ferramentas úteis que identifiquem seus pontos fortes, suas motivações e sua personalidade.3

Nenhuma dessas ferramentas domina o mercado de identificação de “quem você realmente é”. Na minha experiência, cada uma delas pode ajudá-lo a enxergar coisas sobre si mesmo que talvez nunca tivesse percebido. Além disso, elas podem esclarecer e confirmar aspectos de você que ajudarão a discernir seu propósito na vida. Por exemplo, quando fiz a avaliação CliftonStrengths, ela confirmou que sou uma pessoa bastante “intelectual”. A maioria dos meus principais pontos fortes está no domínio “Pensamento Estratégico”. Não é nenhuma surpresa. Mas meu segundo ponto forte é Realizador (Achiever), o que ajuda a explicar por que não trabalho em tempo integral no meio acadêmico. Tenho uma inclinação natural para construir coisas, e não apenas estudá-las e escrever sobre elas. Eu percebia isso em mim durante a pós-graduação, mas nunca consegui expressá-lo plenamente até fazer o que então se chamava StrengthsFinder.

Ao prestar muita atenção à maneira como Deus criou você e aos dons que lhe concedeu, você será ajudado no esforço de esclarecer seu propósito na terceira idade. Essa sugestão, por si só, não responderá a todas as suas perguntas sobre propósito e vocação. Mas permitirá que você diga com maior confiança: “Qualquer que seja meu propósito no futuro, isso me ajudará a exercer esses dons, pontos fortes etc”.

Conclusão

Até agora, apresentei três das dez sugestões para esclarecer seu propósito na terceira fase da vida:

Sugestão 1: Comprometa-se com o propósito de Deus para todas as coisas, inclusive para sua vida.

Sugestão 2: Busque o Senhor em oração e entregue-se à vontade de Deus.

Sugestão 3: Preste atenção à maneira como Deus criou você e aos dons que lhe concedeu.

Na Parte 3 desta série, passaremos às próximas sugestões. Aqui vai uma pequena prévia. A Sugestão 4 começa como a Sugestão 3: “Preste atenção a…”. Como você completaria essa frase?

Notas

1. Cohen, Gene. The Mature Mind, p. 8.

2. Brooks, Arthur. From Strength to Strength, p. 27.

3. Exemplos de testes de avaliação sāo: CliftonStrengths (anteriormente StrengthsFinder); Enneagram Institute; Myers & Briggs.

Mark D. Roberts, pesquisador sênior do Max De Pree Center da Fuller para liderança, onde foca no desenvolvimento espiritual e no desenvolvimento dos líderes.

Artigo publicado originalmente em Clarifying Your Purpose in the Third Third of Life, Part 2, por Mark D. Roberts. Reproduzido com permissão da Max DePree Center for Leadership, www.depree.org.

Tradução: James Chen

Leia mais:

>> Esclarecendo seu propósito na terceira idade (parte 1), por Mark D. Roberts

>> A oração dos mais velhos, por Paul Freston

>> Mentor de aposentadoria: um novo tipo de mentor, por Hilda R. Davis

Quero trazer à memória aquilo que me dá esperança

O amor deve transbordar constantemente da nossa vida como resposta de gratidão ao nosso Deus, constrangidos pelo Seu amor leal que dura para sempre, porque nosso Deus é bom!

Por Elizabeth Ng Koo

Como povo da redenção, redimido por Jesus somos restaurados ao projeto original de Deus para sermos adoradores. A adoração é o lugar onde o nosso coração encontra descanso. Criados para louvar a Deus, somos convocados para dar graças ao Senhor, porque ele é bom, o seu amor leal dura para sempre.1

Alguns trechos muito conhecidos e preciosos da Escritura nos orientam sobre a vida que nos é proposta.

Temos um tesouro em nós, a vida com Deus, um relacionamento de intimidade com ele e o privilégio de compartilhar essa vida com outros. Esse tesouro está em vasos de barro para mostrar que tudo provém de Deus e não de nós.2

A vida com Deus e o relacionamento com ele são uma jornada. Todos os dias somos chamados para não nos amoldarmos ao padrão deste mundo: a busca vã da juventude eterna, a validação pelo mundo de quem somos, a atração do consumismo (a cobiça da carne, a cobiça dos olhos, a soberba da vida).3 Mas nós somos renovados pela transformação da nossa mente, podendo nos oferecer num culto racional, como sacrifício a Deus, para comprovar a sua boa, agradável e perfeita vontade.4

Em nossa caminhada o Senhor Deus nos dá muitos dons, mas três deles são comuns a todos nós e essenciais para o nosso andar: a fé, a esperança e o amor.5  Diariamente, somos transformados e renovados de fé em fé.6 Louvado seja o Senhor!

O dom da esperança, tema do V Encontro Nacional do Movimento Cristão 60+.Este é o meu texto preferido: “De todos os lados somos pressionados, mas não desanimados, ficamos perplexos, mas não desesperados, somos perseguidos, mas não abandonados, abatidos, mas não destruídos, pois sabemos que aquele que ressuscitou o Senhor Jesus dentre os mortos também nos ressuscitará. Por isso não desanimamos. Embora exteriormente estejamos a desgastar-nos, interiormente estamos sendo renovados dia após dia, pois nossos sofrimentos leves e momentâneos estão produzindo para nós uma glória eterna que pesa mais do que todos eles. Assim, fixamos nossos olhos, não naquilo que se vê, mas no que não se vê, pois o que se vê é transitório, mas o que não se vê é eterno”.7 Que esperança maravilhosa!

E por fim o amor que deve transbordar constantemente da nossa vida como resposta de gratidão ao nosso Deus, constrangidos pelo Seu amor leal que dura para sempre, porque nosso Deus e bom!

Notas

1. Salmos 136.1, NVI 2011

2. 2 Coríntios 4.5-7, NVI 2011

3. 1 João 2.16, NVI 2011

4. Romanos 12.1-2, NVI 2011

5. 1 Coríntios 13.13, NVI 2011

6. Romanos 1.17, ARA

7. 2 Coríntios 4.8,16-18, NVI 2011

Elizabeth Ng Koo é membro da Igreja Evangélica dos Cristãos de São Paulo, farmacêutica, casada com Robert, mãe de Chandra,Talitha e Christopher e avó de nove netos.

Este texto se baseia na devocional feita por Elizabeth Ng Koo na reunião de oração do MC60+ no dia 8/9/2026.

Leia mais:

>> Esclarecendo seu propósito na terceira idade, por Mark D. Roberts

>> Jesus Cristo – o eixo do universo, por Elben César

>> “Ensina-nos a contar os nossos dias”, por Shih Li Li Yoshimoto

Os que estão indo embora.

Por Wilfried Körber

Thomas Hahn foi colaborador do site do MC60+ (você pode pesquisar pelo seu nome para ler os seus artigos). Ele fazia parte de um grupo de Whatsapp dos que estiveram presentes no I Encontro Regional do MC60+,  realizado em 2025, no qual comemorou-se os seus 88 anos. Neste grupo, ele se expressou pela última vez no dia 22/8/2026, 8 dias antes de sua morte. E foram estas as suas palavras: “Estou totalmente entregue nas mãos do Pai. É uma experiência de conforto e amor total”. Ele não tinha medo da morte. Em abril de 2024 ele escreveu este sincero depoimento na “última idade”, então com 88 anos, celebrando as dádivas de Deus e a igreja em que está inserido – mesmo em meio a muitas dificuldades.  

Thomas Hahn nasceu em Viena, Áustria, mas considerava-se carioca por formação. Foi casado com Christine há 62, com quem tem três filhos. Foi ordenado pastor aos 87 na Igreja Batista da Granja Viana, em Cotia, SP.

…

No dia 30 de agosto, partiu para estar com o Senhor, nosso querido irmão Thomas Hahn aos 90 anos (MC60+). Conheci-o, em fevereiro passado, através de um texto que ele escreveu para o MC60+, sob o título: “Carta de um velho”. Tornamo-nos amigos, mas durou pouco porque, como mencionei, ele já foi embora.

Quando chegamos nessa idade, que podemos chamar de bíblica, porque o texto no Salmo 90, na oração de Moisés, a duração de nossa vida é de 70 anos, chegando alguns a 80, sendo que ele mesmo chegou aos 120, então nós dos grupos 60+ não devemos estranhar se está na hora de partir. Não será sempre uma despedida fácil, nem desejada, mas devemos estar preparados.

O que vem depois, para nós que somos salvos, não é assustador. Só lemos coisas boas e bonitas para o nosso futuro, quando deixarmos este vale de sombra e de lágrimas. Contudo, esse tempo que, conforme foi designado, após os 60 anos, muitas vezes deixa a desejar. Incapacidade, fraquezas, solidão e saudades não são situações incomuns.

No cap.12 do livro de Eclesiastes, o autor, com muito acerto, descreveu nossa situação quando o dia declina: “…antes que venham os maus dias, e cheguem os anos dos quais dirás: Não tenho neles prazer; antes que se escureçam o sol, a lua e as estrelas do esplendor da tua vida, e tornem a vir as nuvens do aguaceiro; no dia em que tremerem os guardas da casa, os teus braços, e se curvarem os homens outrora fortes, as tuas pernas, e cessarem os teus moedores da boca, por já serem poucos, e se escurecerem os teu olhos nas janelas; e os teus lábios, quais portas da rua, se fecharem; no dia em que não puderes falar em alta voz, te levantares à voz das aves, e todas as harmonias, filhas da música, te diminuírem; como também quando temeres o que é alto, e te espantes no caminho, e te embranqueceres, como floresce a amendoeira, e o gafanhoto te for um peso, e te perecer o apetite; porque vais à casa eterna, e os pranteadores andem rodeando pela praça; antes que se rompa o fio de prata, e se despedace o copo de ouro, e se quebre o cântaro junto à fonte, e se desfaça a roda junto ao poço, e o pó volte à terra, como o era, e o espírito volte a Deus, que o deu.”  Essa meditação de Salomão, que parece pessimista, é seguida por Apocalipse 21: onde lemos: “E Deus limpará de seus olhos toda lágrima, e não haverá mais morte, nem pranto, nem clamor, nem dor, porque já as primeiras coisas são passadas.”  Segue depois a eternidade que o irmão Thomas já iniciou.  Até mais, meu irmão!   

             

Tempestade perfeita

Não importa quão densas sejam as trevas do momento em que vivemos ou quão profundo seja o vale pelo qual estejamos passando, Deus age de forma serena


Por Ricardo Agreste

Creio ser consenso entre a maioria de nós que os últimos dois anos foram grandemente marcados pela adversidade e pelo sofrimento, gerando um clima de insegurança e confusão. Na minha caminhada pessoal, sem sombra de dúvida, eu apontaria este período recente como o mais difícil e complexo de toda a minha existência. Nas dimensões pessoal, familiar e ministerial, vivi o que muitos chamariam de “tempestade perfeita”.  Uma sobreposição de problemas e crises como nunca havia experimentado em minha vida.

Na dimensão pessoal, conheci de perto o que significa a experiência da depressão. Se não bastasse as tensões e dificuldades decorrentes da própria pandemia, situações inesperadas emergiram no contexto da minha família e igreja local, testando meus limites emocionais como nunca. Ainda, para tornar o momento mais complexo, fui diagnosticado com um tumor altamente agressivo no rim, tendo que ser submetido a uma cirurgia de quase cinco horas de duração e, ao longo do processo de recuperação, enfrentar uma pneumonia.

No contexto familiar, vi minha querida esposa dedicando-se intensamente na tentativa de salvar vidas numa UTI respiratória durante a primeira e a segunda ondas da pandemia. No entanto, a partir de um determinado momento, ela não conseguia mais lidar com tudo o que acontecia, sendo diagnosticada com síndrome pós-traumática, enfermidade emocional típica de soldados que enfrentam as atrocidades de um fronte de guerra. Diante disso, todo o nosso ritmo e rotina de vida tiveram de ser radicalmente alterados. 

No contexto ministerial, num dos momentos mais críticos da pandemia, quando a igreja mais necessitava de cuidado e segurança, perdi metade de minha equipe pastoral. A decisão tomada por jovens pastores gerou um clima de grande tensão e instabilidade nas relações. Minha liderança passou a ser questionada e pessoas queridas, com quem caminhávamos há muitos anos, decidiram deixar a igreja. Tudo isso num momento em que não se fazia possível encontros pessoais para se tratar com afetividade os conflitos interpessoais.

Foi neste período de muita adversidade e sofrimento que Deus me ofereceu uma nova perspectiva do tão conhecido Salmo 23. Por um lado, o vale de trevas e morte foi uma experiência muito real em minha jornada. Em alguns momentos, a escuridão não me permitia enxergar saída alguma para os problemas enfrentados. A consciência de minha impotência diante de determinadas situações era também uma constante. Ao longo de semanas minha alma oscilou entre sentimentos de desânimo, incerteza, tristeza, medo e ansiedade.

Por outro lado, descobri também uma faceta de Deus para a qual nunca havia atentado. Não importa quão densas sejam as trevas do momento em que vivemos ou quão profundo seja o vale pelo qual estejamos passando, Deus age de forma serena. Ele nos faz repousar em pastagens verdes, ele nos conduz a águas tranquilas, ele restaura o nosso vigor, mas tudo isso de forma graciosa, segura e serena. Ele é o Deus todo-poderoso e, por isso, não se deixa perturbar pelo caos que envolve nossa vida.

Assim, descobri também quão importante é a serenidade para aqueles que afirmam confiar em Deus. O salmista faz uma declaração categórica logo no início do Salmo 23: “O Senhor é o meu pastor, de nada terei falta”. Ou seja, sua confiança no caráter, no amor e no cuidado de Deus movia seu coração do medo e ansiedade para a serenidade. Mesmo estando diante de problemas para os quais não existem soluções concretas e visíveis, sabemos que a bondade e a fidelidade de Deus nos acompanharão todos os dias de nossa vida.

Em meio à tempestade perfeita, descobri que Deus age de forma serena. Mais do que isso: na minha caminhada com o Pai, descobri que existem problemas e crises para as quais não terei soluções prontas e instantâneas. Por isso, praticar a serenidade implica confiar na bondade e fidelidade de Deus, mesmo quando ainda estou caminhando por um vale e ainda cercado por trevas. A serenidade que vem da confiança no amor e no cuidado de Deus para com a minha vida me possibilita caminhar na certeza de que ele me conduzirá para pastos verdejantes e águas tranquilas.

Mas toda esta experiência me desafiou também como pastor, pregador e líder. Como alguém que estava no meio de um vale de morte e cercado de sombras, pude perceber quão importante e necessário é ter pessoas que estejam ao redor, orientando e guiando, com atitudes e palavras que transmitam serenidade. Se existe algo dispensável em tempos de adversidade são atitudes e palavras que intensificam a tensão, o conflito, a polarização e a confusão. Precisa-se, essencialmente, de um exercício de empatia.

Por isso, deixando de lado os dois últimos anos da minha vida pessoal, tenho colocado os olhos na vida em sociedade nos próximos meses. Bem possivelmente, viveremos ainda um período difícil com muitas tensões políticas e agravamento da crise econômica. Muitas de nossas igrejas já estão saindo do período da pandemia enfraquecidas e divididas por fatores ideológicos. Precisamos que Deus nos dê pastores e líderes que façam uso da serenidade para guiar as ovelhas de Deus através deste vale de sombras.

Precisamos, sim, como discípulos de Jesus, participar deste momento histórico de nossa nação, contribuindo para que valores do reino de Deus tornem-se uma realidade mais presente em nossa sociedade. No entanto, não podemos fazê-lo com instrumentos que não nos tornam identificados com o bom pastor do Salmo 23 e de João 10. Como ovelhas guiadas por um Pai sereno, precisamos fazer da serenidade uma marca também em nossa vida. Ela é de grande importância quando atravessamos vales de morte e sombras, mas também imprescindível quando guiamos pessoas que caminham por estes vales.

Artigo publicado originalmente na edição 395 de Ultimato. Reproduzido com permissão.

Ricardo Agreste é um dos preletores do 5º Encontro do Ministério Cristão 60+. Pastor da Comunidade Presbiteriana Chácara Primavera, em Campinas, SP. É formado em teologia pelo Seminário Presbiteriano do Sul e em filosofia pela Faculdade Interativa de São Paulo. Atualmente cursa doutorado em ministério no Missional Training Center, em Phoenix, Estados Unidos, e é diretor-presidente do Centro de Treinamento para Plantadores de Igreja (CTPI). É casado com Sônia, com quem tem três filhos, Luiza, Levi e Ligia, e dois netos, Gabriel e João.

Leia mais:

>> Chamado para um propósito, por Manoel Elecinio das Neves Oliveira

>> Esclarecendo seu propósito na terceira idade (parte 1), por Mark D. Roberts

Esclarecendo seu propósito na terceira idade (parte 1)

Se alguém não tem um senso claro de propósito, existe algum processo pelo qual possa descobrir isso?

Por Mark D. Roberts

Recentemente, estive conversando com várias pessoas que estão entrando ou prestes a entrar na terceira idade. Estávamos falando sobre propósito e sua importância para o florescimento da terceira idade. Enquanto eu descrevia alguns elementos fundamentais para viver com propósito, um amigo disse: “Eu entendo a importância do que você está falando. Mas eu gostaria de saber se existe algum processo. Se alguém nessa fase da vida não tem um senso claro de propósito, existe algum processo pelo qual essa pessoa possa descobrir isso?”

Que ótima pergunta! Isso me fez pensar se existe esse processo e, se existir, qual é. Então, fui pesquisar. Digitalizei livros que li sobre descobrir e viver com propósito. Revisei vários artigos acadêmicos sobre a conexão entre propósito e florescimento na vida dos idosos. Refleti sobre conversas que tive com pessoas de terceira idade, algumas das quais têm um propósito forte para viver e outras que ainda estão buscando esse propósito. Por exemplo, um pensamento sobre uma mulher que, ao se aposentar da carreira empresarial, sabia com certeza que queria ajudar imigrantes nos Estados Unidos a se estabelecerem. Também revivi na minha mente algo que ouvi de um homem recém-aposentado: “Tenho muitas coisas que posso fazer todos os dias. Mas estou procurando algo além de um monte de tarefas. Estou procurando um motivo para acordar de manhã”. Por anos, esse motivo esteve relacionado ao seu trabalho. Agora ele está procurando algum novo “despertador” de significado que o inspire a sair da cama.

Com base em muitas conversas com pessoas na terceira idade, acredito que a maioria das pessoas não seja nem completamente guiada por um propósito, nem completamente sem propósito. Eles estão em algum lugar entre os dois extremos. Suas vidas são guiadas por algum senso de propósito, seja cuidando dos netos, ajudando na escola primária local ou viajando para novos destinos. Mas a experiência de propósito deles pode parecer bastante fragmentada. Eles teriam dificuldade em dizer claramente qual é o propósito de sua vida, o motivo de sua existência e seu principal motivo de viver.

Então, meu amigo colocou em palavras o que muitos nesta fase estão se perguntando: “Como posso encontrar meu propósito para esta etapa da vida? Existe algum processo que possa me ajudar a entender melhor o grande ‘porquê’ da minha vida? E, se sim, qual é esse processo?”

Existe algum processo para encontrar seu propósito?

Após refletir, não acredito que exista um único processo que leve cada pessoa a esclarecer sua vocação. Na verdade, tenho quase certeza de que não existe um único processo porque, ao ouvir pessoas falarem sobre seu propósito e como o identificaram, ouço uma grande variedade de histórias. Algumas pessoas falam sobre momentos especiais de inspiração quando “simplesmente sabiam” o que fariam das suas vidas. Os cristãos geralmente atribuem a Deus esse momento de revelação. Outras pessoas que hoje têm um senso claro de propósito descrevem um caminho sinuoso que as trouxe até aqui. Nicholas Pearce, em seu livro The Purpose Path (O Caminho do Propósito), comenta: “Sim, todo mundo tem um caminho de propósito, mas raramente é simples – há curvas, viradas, bifurcações no caminho e terreno não pavimentado” (p. 91). Então, tenho quase certeza de que não existe um processo único para todos que permita que cada pessoa discirna o propósito de sua vida.

Embora não consiga achar um roteiro que o guie passo a passo pelo caminho perfeito até o seu propósito, há coisas que você pode fazer para seguir em frente com sabedoria rumo a uma maior clareza sobre o seu propósito. Tive o privilégio de entrevistar Nicholas Pearce no meu papel de coapresentador do podcast “Making It Work”. Pearce é um premiado professor de gestão na Kellogg School of Management da Northwestern University, além de pastor e autor do livro best-seller The Purpose Path: A Guide to Pursuing Your Authentic Life’s work. Pearce acredita que podemos encontrar o propósito da nossa vida fazendo cinco perguntas básicas:

  • O que é sucesso?
  • Quem sou eu?
  • Por que estou aqui?
  • Estou correndo a corrida certa?
  • Estou correndo bem a corrida?

Então, segundo Pearce, uma vez que determinamos nosso propósito, precisamos de “coragem vocacional” para persegui-lo, não importa em que fase da vida estejamos.

Note que Pearce não está propondo um fluxograma de “faça isso, depois aquilo” para determinar o propósito da vida. Em vez disso, é preciso lidar com suas cinco perguntas em momentos e maneiras diferentes. Devo mencionar que, embora The Purpose Path não tenha sido escrito explicitamente para adultos mais velhos, ele é tão relevante para nós quanto para os mais jovens. Pearce explica que caminhar em parceria com Deus na vida “se aplica igualmente à pessoa que está na casa dos quarenta, cinquenta anos, sessenta anos, setenta ou até oitenta ou noventa anos. Nunca é tarde para descobrir a razão da sua existência e dedicar, todos os dias, toda a vida e toda a força que lhe restam ao cumprimento do seu propósito” (p. 76). Amém a isso!

Achei as cinco perguntas de Pearce instigantes à medida que trabalho no desenvolvimento do meu próprio senso de propósito na vida. Recomendo-lhe o livro dele. Mas, como verá abaixo, vou sugerir dez coisas adicionais que você pode fazer ao buscar seu propósito na terceira idade. Antes de eu apresentar essas sugestões, porém, preciso oferecer algumas definições rápidas.

Definindo “propósito” e “esclarecimento”

Você deve ter notado que intitulei este artigo “Esclarecendo seu propósito na terceira idade, parte 1.” Acho que ajudaria se eu definisse alguns termos-chave neste título: “propósito” e “esclarecimento”.

Temos uma noção intuitiva do que significa propósito. Esse sentido está alinhado com a definição básica de “propósito” da Merriam-Webster como “algo criado como um objetivo ou fim a ser alcançado”. Mas, claro, essa definição inclui todos os tipos de propósitos. Pode-se dizer com razão que fui à farmácia ontem para comprar alguns kits de teste caseiro de Covid-19 (suspiro). Eu tinha um propósito para minha jornada de compras. Mas esse não é o tipo de propósito de que estamos falando aqui.

Quando falamos em ter propósito, ou seja, propósito na vida, estamos pensando em algo maior, algo mais significativo e influente do que os propósitos temporários que preenchem nossas vidas do dia a dia. Acho útil a definição de “propósito” proposta pelo professor de educação de Stanford William Damon em seu excelente livro, The Path to Purpose:Helping Our Children Find Their Calling in Life: “Propósito é a intenção estável e abrangente de realizar algo que, ao mesmo tempo, seja significativo para si mesmo e tenha impacto no mundo além de si” (p. 48). Quando nós, na terceira idade, dizemos que estamos procurando um propósito, é disso que estamos falando. É algo “significativo para mim” e “consequente para o mundo além de mim”.

Essa noção de propósito aparece em formas mais populares também. Em 2009, por exemplo, Simon Sinek deu uma palestra TEDx no Noroeste do Pacífico. Chamava-se “Como grandes líderes inspiram ação“. Até hoje, esta é a terceira palestra TED mais popular da história, com mais de 58 milhões de visualizações de página. A palestra de Sinek é toda sobre por que fazemos o que fazemos. Como diz Sinek, “Por ‘por quê’ quero dizer: Qual é o seu propósito? Qual é a sua causa? Qual é a sua crença? Por que você sai da cama de manhã? E por que alguém deveria se importar?” Da mesma forma, Marc Freedman, CEO da Encore.org, disse: “Propósito é sentir que o mundo precisa de você tanto quanto você precisa dele, que você tem algo a contribuir e que ainda é importante”.

Nosso propósito nos dá o “porquê” de nossas vidas. Ele nos diz por que estamos aqui na Terra, para que serve nossa vida e para onde ela deve estar caminhando. Esse tipo de propósito nos guia, nos inspira e, sim, nos faz levantar da cama pela manhã.

Antes que o propósito possa nos inspirar a levantar da cama, porém, precisamos saber qual é o propósito da nossa vida. As pessoas usam uma variedade de verbos para descrever como alcançamos esse conhecimento. Alguns falam sobre descobrir nosso propósito. Outros preferem encontrar nosso propósito. Ainda assim, outros preferem a linguagem de criar nosso propósito.

Embora todas essas formas de falar nos levem mais ou menos ao mesmo lugar, prefiro a linguagem de esclarecer nosso propósito. Falar sobre descobrir ou encontrar nosso propósito sugere que esse propósito é mais parecido com um tesouro enterrado. É algo lá fora que podemos ir desenterrar ou algo escondido em nossos próprios corações que precisa ser descoberto. Às vezes, o propósito pode realmente ser como um tesouro escondido. Mas muitas vezes não é algo que encontramos magicamente, é algo que ajudamos a produzir. Aqueles que falam sobre criar nosso propósito destacam essa realidade. Mas, como um cristão que acredita que o propósito de Deus para nós é o mais importante de todos, não acho útil falar sobre criar nosso propósito como se fôssemos livres para inventá-lo por conta própria. Acredito que ajudamos a formar nosso propósito individual em relação a Deus e ao propósito de Deus para o universo, assim como para nossas próprias vidas.

Não importa como chegamos lá, acho que a maioria de nós está ansiando por clareza sobre nosso propósito. Gostaríamos de poder vê-lo claramente, falar sobre ele com clareza e persegui-lo com olhos e corações claros. Se tivermos esclarecido nosso propósito, então podemos viver nele, escolhendo ser guiados e motivados por ele.

Dez sugestões para esclarecer seu propósito

Vou oferecer dez sugestões para esclarecer seu propósito. Esses itens “a fazer” também seriam úteis em uma fase de reesclarecimento do seu propósito. Talvez você já tenha tido uma forte noção do propósito da sua vida no passado, mas está se perguntando se não é hora de redefinir seu propósito. Acredito que as dez sugestões serão úteis, não importa onde você esteja no seu “caminho de propósito”.

Devo dizer desde o início que muitas dessas sugestões podem ser encontradas em outras fontes. Não me dei ao trabalho de citar em notas de rodapé as fontes que foram instrutivas para mim. Certamente não estou afirmando ser a primeira pessoa a oferecer algumas das sugestões que você encontrará abaixo. Além disso, muitas dessas sugestões vêm diretamente das Escrituras. Estou escrevendo aqui, como costumo fazer, como cristão que acredita que Jesus é nosso Senhor e Salvador e que a Bíblia é a palavra verdadeira de Deus para nós. Assim, o que sugiro é frequentemente uma destilação do ensino bíblico como eu entendo.

Como este artigo está ficando bastante longo, vou terminar com a primeira das dez sugestões que mencionei. Se você seguir essa sugestão, estará indo na direção certa enquanto busca esclarecer o propósito da sua vida.

Sugestão 1 – Comprometa-se com o propósito de Deus para todas as coisas, inclusive para sua vida

Essa primeira sugestão é talvez a mais importante de todas. Baseia-se no fato de que seu propósito principal é, antes de tudo, viver de acordo com o propósito de Deus para tudo, inclusive para sua vida. Essa verdade leva a uma pergunta óbvia: Qual é o propósito de Deus para todas as coisas, inclusive para você?

As Escrituras oferecem várias maneiras de responder a essa pergunta. Uma delas é encontrada no Novo Testamento, na carta aos Efésios. A seção inicial de Efésios 1 descreve como Deus está realizando seu propósito cósmico por meio de Jesus Cristo, algo que Deus determinou mesmo antes da criação do mundo (Ef 1.4). Através de Cristo, Deus nos oferece adoção, perdão e redenção de acordo com a graça (Ef 1.5-8). Além disso, através de Cristo, Deus está restaurando todo o cosmos que foi quebrado pelo pecado. Como diz em Efésios 1.9-10, Deus tem um plano para “unir, no tempo certo, debaixo da autoridade de Cristo, tudo o que existe no céu e na terra” (NTLH, itálico adicionado). Deus unirá todas as coisas em Cristo, restaurando todo o universo ao que Deus pretendia desde o início.

Cristãos são beneficiários e participantes desse trabalho. Efésios 1.11-12 afirma: “Em Cristo também obtivemos uma herança, tendo sido predestinados conforme o plano daquele que faz todas as coisas segundo o propósito da sua vontade, a fim de que nós, os que primeiro esperamos em Cristo, sejamos para o louvor de sua glória.” Deus tem um propósito para você e para mim, que vivemos para a glória de Deus em tudo o que fazemos em todas as áreas da vida.

Então, como glorificamos Deus através de quem somos e do que fazemos? A princípio, podemos imaginar as coisas que fazemos quando vamos à igreja: cantar louvores, oferecer orações e assim por diante. Também podemos imaginar o que fazemos no serviço cristão aos outros, como ensinar na escola dominical, alimentar os famintos ou compartilhar o evangelho com o vizinho. Essas ações certamente glorificam Deus, mas são apenas o começo.

Efésios 2.8-10 revela mais sobre como devemos glorificar a Deus. Diz: “Pois vocês sāo salvos pela graça, por meio da fé, e isso não vem de vocês, é dom de Deus — não por obras, para que ninguém se glorie. Porque somos criação de Deus realizada em Cristo Jesus para fazermos boas obras, as quais Deus preparou antes para nós a praticarmos.” (itálico adicionado). É crucial notar que fomos salvos não por, mas para boas obras. Não ganhamos nossa salvação pelo que fazemos. Vem pela graça recebida através da fé. Mas expressamos nossa salvação por meio das boas obras que Deus nos deu para fazer. E estas não são apenas as que associamos à igreja. Idealmente, deveríamos estar fazendo as boas obras de Deus o tempo todo, em nosso trabalho e em nossa família, em nossas amizades e finanças, em nossas orações e em nossas brincadeiras.

Quando começamos nossa busca por propósito focando no propósito de Deus para todas as coisas, inclusive para nós, percebemos que nosso propósito é muito mais do que nós mesmos. Como Rick Warren escreve em A Vida Motivada por Propósito:

Não é sobre você. O propósito da sua vida é muito maior do que sua realização, sua paz de espírito ou até mesmo sua felicidade. É muito maior do que sua família, sua carreira ou até mesmo seus sonhos e ambições mais ousados. Se você quer saber por que foi colocado neste planeta, deve começar por Deus. Você nasceu pelo propósito e para o propósito dele. (p. 17)

Claro, muito mais poderia ser dito sobre o propósito de Deus para todas as coisas, inclusive para você. Mas mesmo esse resumo conciso dos ensinamentos de Efésios lhe dá uma maneira de começar a refletir sobre seu próprio propósito à luz do propósito cósmico de Deus. Você pode, por exemplo, considerar as seguintes perguntas:

  • Como estou participando da obra de Deus de unir e restaurar todas as coisas em Cristo? Como minha vida poderia contribuir para a obra de Deus no mundo?
  • Estou intencionalmente buscando viver para o louvor da glória de Deus em tudo o que faço? No meu trabalho? Nos meus relacionamentos? No meu tempo livre? Com meu dinheiro? Com meus talentos e habilidades? Na minha aposentadoria? Se eu vivo para glorificar a Deus, por quê? Se não, por que nāo?
  • Será que estou caminhando todos os dias nas boas obras que Deus preparou para mim? Eu sei quais são esses bons trabalhos? Eu tenho clareza sobre o que Deus me criou em Cristo para fazer?

Se você está procurando uma maneira rápida de descobrir seu propósito na vida, talvez esteja frustrado com a minha primeira sugestão. Parece tão grande e teológico. E, de certa forma, sāo essas duas coisas. Mas estou convencido de que, se você quer identificar o propósito da sua vida, precisa começar com o propósito de Deus.

Se você está procurando algo prático para fazer, deixe-me encorajá-lo a praticar a reflexão bíblica. Você pode começar com as passagens de Efésios que mencionei aqui: Efésios 1.3-14; 2.8-10. Leia essas partes das Escrituras lentamente, deixando cada palavra penetrar. Pense no significado das palavras e no que elas significam para você. Converse com o Senhor sobre o que você está pensando. Usando a(s) mesma(s) passagem(s) das Escrituras, faça isso várias vezes ao longo de vários dias, ou até semanas e meses. Embora você não vá focar apenas no seu propósito pessoal, quanto mais meditar sobre o propósito de Deus, mais sentirá as coisas se agitando em sua alma. Eu recomendo que você tente!

Fique ligado

Até agora, sugeri a primeira de dez sugestões que vão te ajudar a esclarecer seu propósito na vida. Na Parte 2, apresentarei sugestões adicionais.

Mark D. Roberts, pesquisador sênior do Max De Pree Center da Fuller para liderança, onde foca no desenvolvimento espiritual e no desenvolvimento dos líderes.

Artigo publicado originalmente em Clarifying Your Purpose in the Third Third of Life, Part 1, por Mark D. Roberts. Reproduzido com permissão da Max DePree Center for Leadership, www.depree.org.

Tradução: James Chen

Imagem: Unsplash.

Leia mais:

>> “Para iluminar, a gente tem que derreter” , por Por Heidi Ferreira A. S. de Oliveira

>> A oração dos mais velhos, por Paul Freston

>> Mentor de aposentadoria: um novo tipo de mentor, por Hilda R. Davis

Mais avós do que netos!

705 milhões de idosos contra 680 milhões de crianças pequenas. Isso vai se acentuar até 2050

Por Klênia Fassoni

No dia 26 de julho comemora-se o Dia dos Avós. A origem desta data está relacionada aos avós de Jesus, Ana e Joaquim, segundo a tradição cristã.

Segundo a professora Lídice Meyer, em 1584 o Papa Gregório XIII fixou a data da festa de Santa Ana em 26 de julho e na década de 1960 o Papa Paulo VI juntou a esta data a comemoração de São Joaquim. A partir de então, a Igreja Católica relembra os avós de Jesus no dia 26 de julho. Em 2003 a data passou a ser também considerada como o dia dos avós em Portugal e logo foi adotada em todo o mundo. Em 2021 passou a ser chamada de Dia Mundial do Avós e dos Idosos.

A data tem recebido cada vez mais atenção.

Há um fato inédito na história da humanidade: o número de pessoas com 65 anos ou mais superou a quantidade de crianças entre 0 e 4 anos de idade em todo o planeta. Os dados divulgados pela ONU em 2019 são de 705 milhões de idosos contra 680 milhões de crianças pequenas, tornando-se um “mundo com mais avós do que netos”. Isso vai se acentuar até 2050.1

A celebração desta data é bem-vinda. Famílias e igrejas devem incentivar o respeito e a valorização dos idosos, a relação dos avós com os netos e a intergeracionalidade.

Pensamos pouco no fato de que Jesus também tinha avós, maternos e paternos. Independentemente do que conta a tradição cristã, estes avós, assim como os avós de hoje fazem com relação aos seus netos, acompanharam o crescimento de Jesus. Certamente Jesus carregava consigo muitas memórias de seus avós. Por outro lado, os avós de Jesus foram marcados pela convivência com o neto. Naturalmente, por ser Filho de Deus, esta influência extrapola a influência normal de um neto na vida dos avós.

Mas todo avô e toda avó que tem o privilégio de conviver com os netos não sai incólume desta relação. É uma via de mão dupla. Somos ensinados e transformados por eles. Netos são fonte de alegria, despertam-nos para experiências novas ou já esquecidas e enchem a nossa vida de significados. Eles motivam as nossas melhores orações.

Nos planos de Deus é assim que deve ser: diferentes gerações se relacionando. Temos falado com mais frequência dos idosos como transmissores dos conteúdos da fé aos filhos e aos netos – “O que ouvimos e aprendemos, o que os nossos pais nos contaram, não o encobriremos a seus filhos; contaremos à geração vindoura os louvores do Senhor, e o seu poder, e as maravilhas que fez.” (Sl 78.3). Mas não é só isto, os netos devem ser vistos como dádivas de Deus, que enriquecem a vida de seus avós. 

O blog MC 60+ tem publicado artigos sobre o papel dos avós e também experiências de avós:

. Rastros de bênção, por Hannes Fischer

. Saudade da vovó, por João Soares da Fonseca

. A bênção de ter e de ser avós, por Esther Carrenho

. Uma avó feliz, por Cássia Sakyiama

Nota:

1. Pela 1ª vez, mundo tem ‘mais avós do que netos’. Site BBC Brasil.

Klênia Fassoni, diretora da Editora Ultimato, é avó de quatro netos.

Imagem: Milena Dias.

Iniciativas de (re)valorização da membresia 60+ no âmbito de comunidades evangélicas

Por Elias Monteiro Bispo Filho

Introdução

O Brasil sempre foi considerado um país de jovens. Desde o descobrimento até a década de 70 do século passado, a percentagem de jovens entre 0 e 14 anos ficou acima de 40% da população, enquanto a percentagem de idosos com 60 ou mais anos permaneceu abaixo do 5% populacional. Entretanto, a partir da virada do milênio, a pirâmide populacional aponta uma tendência de longo prazo, qual seja o aumento da população idosa. Segundo dados do Censo 2022, a porcentagem de brasileiros idosos maiores de 65 anos cresceu de 7,4% em 2010 para 10,9% em 2022. Izabel Marri, demógrafa do IBGE, declarou em entrevista que “o Brasil envelheceu muito rápido se a gente comparar com países desenvolvidos”, acrescentando que “a França e a Inglaterra demoraram 200 anos para envelhecer, e o Brasil por volta de 40, 60 anos”.

O envelhecimento acelerado da população tem causado questionamentos sobre a sustentabilidade do sistema previdenciário, que é financiado coletivamente e depende essencialmente da manutenção da População Economicamente Ativa (PEA). Também são apontados como consequências diretas do envelhecimento populacional brasileiro os crescentes custos financeiros para o Sistema Único de Saúde (SUS), como a alta complexidade de cirurgias, o maior uso de remédios e maiores durações de internações para idosos.

Este artigo visa discorrer acerca das iniciativas de (re)valorização da membresia 60+, seja por meio de instituições de ensino, pastorais, ministérios e movimentos dedicados a essa parcela populacional nos arraiais das igrejas cristãs evangélicas, contemplando aspectos inerentes ao autocuidado, estímulo ao desenvolvimento de segunda carreira pós-aposentadoria, bem-estar psicoemocional e a promoção da espiritualidade.

Como metodologia de pesquisa, serão analisadas as plataformas digitais ativas de denominações, ministérios, atividades cristãs, instituições, movimentos eclesiásticos ou paraeclesiásticos, com a expectativa de se compreender ações em curso que valorizem o idoso no seio das suas tradições.

1. A questão do envelhecimento

Em 1940, um indivíduo que chegasse aos 60 anos de idade viveria, em média, mais 13,2 anos, sendo mais 11,6 anos para os homens e mais 14,5 anos para as mulheres. Já em 2024, a população do país que chega aos 60 anos de idade vive, em média mais 22,6 anos, sendo mais 20,8 anos para homens e mais 24,2 anos para as mulheres. Em 2024, a expectativa de vida da população brasileira chegou aos 76,6 anos, crescendo 2,5 meses em relação a 2023. Para a população masculina, o aumento foi de 2,5 meses passando de 73,1 anos para 73,3 anos, no período. Já para as mulheres o ganho foi um pouco menor: de 79,7 para 79,9 anos, ou mais 2,0 meses, conforme informações contidas nas Tábuas de Mortalidade 2024, do IBGE, disponibilizadas pela Agência GOV, no artigo “Chance de vida longa no Brasil é a maior da história.

Para Tournier (2014), médico e psiquiatra cristão, é preciso aceitar o fato de que envelhecemos, aceitar a aposentadoria e assumir com serenidade a perspectiva de morrer; é preciso manter-nos ativos, sociáveis e abertos na medida do possível, apesar de certa inevitável solidão. Ressaltou que para se ter uma boa velhice é preciso começar a prepará-la cedo, e não a retardar o mais possível. Na metade da vida se terá de começar a refletir e organizar a existência com vistas ao futuro ainda distante, em vez de se deixar levar pelo torvelinho profissional e social.

Nuland (2007), médico, trata do impacto do passar dos anos na mente e no corpo, nas ambições e nos relacionamentos, nas mudanças dos sentidos, na aparência, nos reflexos, na resistência física e no desejo sexual, mesmo assim, sendo possível encontrar na idade avançada um sem-número de bênçãos, caraterizadas como maturidade emocional, liberdade interior, relações mais profundas, sabedoria prática e um senso mais claro do que realmente importa, pois nessa fase da vida se concentram as energias tanto da mente quanto do corpo, disponibilizando cotidianamente novas fontes de criatividade, percepção e intensidade espiritual.

César (1999) argumentou que a velhice deveria ser encarada como um prêmio da graça de Deus conforme disposto em Deuteronômio 30:20 (NAA), “amando o SENHOR, seu Deus, dando ouvidos à sua voz e apegando-se a ele; pois disto depende a vida e a longevidade de vocês”.1 Procurar viver uma velhice sem enfado ou murmuração, uma fase da vida útil, que trabalha, sem o peso dos saudosismos, se constitui num ensinamento paulino, contido na epístola aos filipenses, capítulo 3:13-14, “Irmãos, quanto a mim, não julgo havê-lo alcançado, mas uma coisa faço: esquecendo-me das coisas que ficam para trás e avançando para as que estão diante de mim, prossigo para o alvo.”

D´Andrea (2019), consultor de empresas, narra as iniciativas de uma carreia totalmente nova como última empreitada profissional, que denominou de “carreiras-bônus”, por se tratar de trilhas profissionais completamente novas, iniciadas no momento de pós-carreira principal, sendo um paradigma desta era permanecer economicamente ativo o maior tempo possível, numa atividade desejada que traga significado, rotina flexível e a emoção de novos desafios, conteúdos e relacionamentos, um pouco de diversão e que seja consistente com os valores do indivíduo, sem ameaçar a sua autoimagem ou o seu ajuste social.

Segundo a Plataforma Longeviver, metade dos bebês do século 21 viverão mais de 100 anos; todos os dias a expectativa de vida no Brasil cresce 5 horas; sendo que entre os homens brasileiros entre 50 e 64 anos, há aqueles que não trabalham e nem estão procurando emprego, tampouco são aposentados, sendo um nicho que se aproxima de 10% desse nicho populacional, sendo um fato com impactos sociais preocupantes. Em 2019, os recifenses com 60 anos ou mais eram 181.643 pessoas, sendo 63% mulheres e 37% homens. O percentual de pessoas 60+ independentes era de apenas 30%.

Além das dificuldades inerentes a empregabilidade, o preconceito contra pessoas idosas se manifesta de diversas maneiras, seja no ambiente familiar, no contexto profissional e, paradoxalmente, em ambientes cristãos, podendo causar sequelas psicológicas nas vítimas em face da falta de respeito.

A Organização Mundial da Saúde, divulgou que um em cada seis idosos no mundo já sofreu algum tipo de violência, sendo o etarismo uma dessas formas, que é definido como preconceito ou discriminação contra pessoas com base na sua idade. Esse comportamento pode se manifestar de diversas formas, como em atitudes negativas, estereótipos, piadas de mau gosto, tratamento desigual, e até mesmo na negação de serviços ou benefícios, podendo ser considerado crime no Brasil, segundo o Artigo 96 do Estatuto da Pessoa Idosa.

Discriminar pessoa idosa, impedindo ou dificultando seu acesso a operações bancárias, aos meios de transporte, ao direito de contratar ou por qualquer outro meio ou instrumento necessário ao exercício da cidadania, por motivo de idade:

Pena – reclusão de 6 (seis) meses a 1 (um) ano e multa.

§ 1o Na mesma pena incorre quem desdenhar, humilhar, menosprezar ou discriminar pessoa idosa, por qualquer motivo.

§ 2o A pena será aumentada de 1/3 (um terço) se a vítima se encontrar sob os cuidados ou responsabilidade do agente.

§ 3º Não constitui crime a negativa de crédito motivada por superendividamento da pessoa idosa. (Redação dada pela Lei nº 14.423, de 2022).

1.1 O que a Bíblia diz sobre o idoso?

A Bíblia ensina a importância de honrar e respeitar os idosos, reconhecendo a sabedoria e a experiência que vêm com a idade. Em Levítico 19:32, está escrito: “Fiquem em pé na presença dos idosos, honre a presença do ancião e tema o seu Deus.” Jó 12:12 ainda questiona: “Está a sabedoria com os idosos? Será que a longevidade traz o entendimento?”. Estes versículos destacam a importância da sabedoria, de tratar os velhos com dignidade e reverência, valorizando a sua experiência. Entretanto, se trata de uma pergunta que levanta uma dúvida, para em seguida afirmar que somente em Deus há sabedoria, força, conselho e entendimento (Jó 12:13).

A Bíblia também ensina sobre a igualdade e a justiça, o que implica que qualquer forma de discriminação, incluindo o etarismo, não é condizente com os ensinamentos cristãos. Em Gálatas 3:28, por exemplo, está escrito: “Dessarte, não pode haver judeu nem grego; nem escravo nem liberto; nem homem nem mulher; porque todos vós sois um em Cristo Jesus”. Esse versículo reforça a ideia de que todas as pessoas são iguais aos olhos de Deus. Devemos nos esforçar para educar a nós mesmos e aos outros sobre os prejuízos do etarismo e promover uma cultura de respeito e inclusão, um ambiente mais justo e acolhedor para todos.

O discurso poético de Salomão, contido no livro de Eclesiastes 12:1-7, embora escrito há alguns milhares de anos, especificamente quanto à velhice, descreve sintomas físicos e psíquicos, contendo conselhos para os mais jovens e conforto para aqueles, vejamos:

“1Lembre-se do seu Criador nos dias da sua mocidade, antes que venham os dias maus, e cheguem os anos em que você dirá: “Não tenho neles prazer.” 2Lembre-se do Criador antes que se escureçam o sol, a lua e as estrelas, e as nuvens voltem depois da chuva. 3Lembre-se dele antes do dia em que tremerem os guardas da casa, os seus braços, e se curvarem os homens que no passado eram fortes, as suas pernas, e cessarem os moedores da sua boca, por já serem poucos, e se escurecerem os que olham pelas janelas, os seus olhos. 4Faça isso antes que as portas da rua se fechem e o ruído das pedras do moinho se torne difícil de ouvir; quando você se levantar à voz das aves, e todas as harmonias, filhas da música, começarem a desaparecer; 5quando você tiver medo do que é alto e se espantar no caminho; quando florescer como a amendoeira, e o gafanhoto lhe for um peso; e quando você perder o apetite. Porque o ser humano vai à morada eterna, e os pranteadores andarão rodeando pela praça. 6Lembre-se do seu Criador, antes que se rompa o fio de prata, e se despedace o copo de ouro, e se quebre o cântaro junto à fonte, e se desfaça a roda junto ao poço, 7e o pó volte à terra, de onde veio, e o espírito volte a Deus, que o deu.”

Salomão exorta que o homem se lembre de Deus enquanto ainda é jovem, antes que cheguem os dias difíceis da velhice, quando o corpo perde força, os sentidos se enfraquecem e os prazeres diminuem. Ele descreve poeticamente o envelhecimento: braços que tremem, pernas que se curvam, dentes que faltam, olhos que escurecem, ouvidos que já não ouvem bem, sono leve, medo do caminho e perda de vigor. Através de metáforas — como o “fio de prata” que se rompe e o “copo de ouro” que se despedaça — ele retrata a aproximação da morte. No fim, lembra que o corpo volta ao pó e o espírito retorna a Deus, que o concedeu.

Percebe-se que Salomão não disse que a velhice é ruim. Ele está dizendo que ela é inevitável, e por isso, a maior benção é viver a juventude com consciência, para que a velhice seja vivida com paz. O texto é um chamado à lucidez, não ao medo; à sabedoria, não ao desespero; à espiritualidade, ao aconchego com o Senhor.

Malgrado a Bíblia apresentar aspectos biológicos e psicoemocionais inerentes a terceira idade, não significa que toda a velhice seja decadente e triste, podendo ser vigorosa e alegre, não obstante as limitações, pois as pessoas e os desígnios divinos são diferentes, depende também daquilo que plantamos a vida toda e se pretende colher na velhice.

O livro de Eclesiástico 25:3-6 (BJ)2ensina que a vida é um processo de construção e que a sabedoria é mais valiosa do que as conquistas materiais, sendo a velhice honrada quando é fruto de uma vida bem vivida.

“3Se não acumulaste na juventude, como queres encontrar em tua velhice? 4Como é belo para os cabelos brancos saber julgar e para os anciãos conhecer o conselho! 5Como é bela a sabedoria dos anciãos e nas pessoas honradas a reflexão e o conselho! 6A coroa dos anciãos é uma rica experiência; a sua glória, o temor do Senhor.”

Destarte, a terceira idade não significa apenas decadência e tristeza, ela pode ser alegre e vigorosa, não obstante suas limitações, como César (1999) argumentou, nem todo idoso fica cego e surdo; nem todo idoso fica fraco e incapaz, citando o exemplo de Moisés que foi um homem ativo até o dia de sua morte; nem todo idoso sofre com o pressentimento da morte, pois confia no Senhor e sabe que não o desamparará até o momento final, como disse Paulo em 2Tm 4:6-7, “Quanto a mim, estou sendo já oferecido por libação, e o tempo da minha partida é chegado. Combati o bom combate, completei a carreira, guardei a fé.”

2. Inciativas de (re)valorização da membresia 60+

A igreja deve estar atenta a essa realidade, uma “pastoral da pessoa idosa” faz-se mister, em cujo bojo estejam inseridos programas que considerem sobre a valorização, a inclusão, o acolhimento, a defesa de direitos e a assistência espiritual, orientações quanto ao autocuidado etc. (Casséte. X. apud Lisboa, A.H, do Corpo de Psicólogos e Psiquiatras Cristãos).

A Plataforma Longeviver, considerando o aumento progressivo da expectativa de vida, se define com o objetivo de antecipar os impactos que estas mudanças trazem, preparando a sociedade e o indivíduo para uma vida produtiva, inclusiva e natural, difundindo e multiplicando conhecimento, melhores práticas e metodologia junto aos setores público e privado, à sociedade civil e com organizações que compartilhem o mesmo objetivo de construir uma sociedade equalitária para todas as idades. Nesse sentido apoia a pesquisa e a geração de conhecimento em conexão com centros de pesquisa, patrocina plataformas de conhecimento e a promoção de eventos, estimula o engajamento da sociedade civil na discussão de temas prioritários, conscientiza sobre o tema e otimiza o uso de Leis de incentivo.

No contexto cristão evangélico, já podemos observar o surgimento de iniciativas de valorização do idoso no ambiente eclesial, um desses empreendimentos é o Movimento Cristão 60, que se define como formado por um grupo de cristãos com diferentes experiências profissionais e eclesiásticas que buscam compartilhar a visão de que mesmo na terceira idade é possível servir a Deus com vigor e entusiasmo.

O Movimento Cristão 60+ incentiva a disponibilização de experiências e habilidades anteriormente adquiridas a serviço do Reino, por intermédio de iniciativas individuais ou coletivas de apoio e cuidado integral dispensado aos indivíduos, familiares e comunidades; engajamento em projetos de natureza eclesial, social, educacional, cultural e ambiental.

O Movimento Cristão 60+ tem como Missão, impulsionar os 60+, aposentados ou não, a desenvolverem uma segunda carreira, o autocuidado, a continuarem a dar frutos ao longo do processo de envelhecimento. Tem como Visão de futuro, que Homens e Mulheres 60+ sejam comprometidos em suas comunidades de fé e engajados no serviço do Reino de Deus – na igreja local de comunhão, na comunidade e na sociedade mais ampla – por intermédio do uso de suas habilidades e experiências adquiridas no decorrer dos anos, envolvidos em iniciativas e projetos, para (a) restauração do ser humano; (b) justiça no ambiente socioeconômico; (c) equilíbrio da natureza.

A Igreja Presbiteriana do Brasil – IPB, criou a Secretaria Nacional da Pessoa Idosa, em 1999, na Reunião Extraordinária da Comissão Executiva do Supremo Concílio, com a finalidade de atender os irmãos na terceira idade, que compreende a faixa etária de 60 anos ou mais. A Secretaria se preocupa com a dignidade e a qualidade de vida dos idosos da IPB, preparando atividades, encontros e ações que incentivem a criação de novos grupos de idosos em igrejas locais.

Para alcançar tal alvo, a Secretaria conta com um importante aliado, o Estatuto da Pessoa Idosa, Lei nº 10.741, sancionada no dia 1º de outubro de 2003, que deve ser um importante passo na luta pela dignidade dessa faixa etária. A Secretaria tem trabalhado para conscientizar pastores e líderes, e até mesmo os idosos, a fim de promover uma convivência harmoniosa dentro da IPB. A Secretaria tem como objetivos:

(a) a criação de grupos de idosos em cada igreja da IPB, incentivando crescimento espiritual, social e intelectual; (b) propor programas que promovam orientação segura nas áreas de saúde, esporte e lazer; (c) divulgar o Estatuto do Idoso para conscientização dos direitos e deveres de cidadania do idoso; (d) despertar no idoso o reconhecimento de seus dons e talentos para serem usados no Reino de Deus; (e) incentivar o idoso a observar com que honra, dignidade e carinho ele é tratado na Palavra de Deus; (f) motivar a criação de complexos de estrutura de cultura e lazer no âmbito da Igreja Presbiteriana do Brasil, para contribuir de maneira prática e efetiva para a qualidade de vida do idoso, tanto física, como emocional e espiritualmente.

A Faculdade Teológica Sul-Americana – FTSA, desenvolve uma política de incentivo e de valorização do idoso, mediante concessão de descontos de 50% nas mensalidades de alunos a partir de 60 anos. Esse benefício na estava evidenciado no site da instituição, na página Benefícios para nossos estudantes. Evidenciamos esse fato junto a Faculdade com o intuito de promover a atualização ao Portal, conforme as políticas de gestão e de ensino.

A Universidade Católica de Pernambuco – UNICAP é um bom exemplo de instituição educacional que tem um programa destinado a população idosa denominado Unicap Prata, em cuja página há divulgação de programação anual com doze temas, relacionado ao ensino, oficinas, rodas de conversa, dança circular, cinema, grupo socioemocional, orientação jurídica etc., constituindo-se num arcabouço robusto de atividades correlacionadas a população 60+.

Dando sequenciamento a pesquisa, não encontramos referências a pastorais ou ministérios relacionados a população idosa que pudessem estar ativos em sites de denominações cristãs históricas como a Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil – IECLB3; Igreja Evangélica Luterana do Brasil – IELB4; Convenção Batista Brasileira – CBB5; Igreja Metodista6.

3. Considerações finais

O envelhecimento é um processo normal na vida, que inicia quando da concepção e termina com a morte, entretanto, temos a “mente de Cristo” (1Co 2.16), devendo o cristão refletir que embora tenha mais passado do que futuro, a ideia é morrer jovem o mais velho possível, pois viver é diferente de estar vivo.

Inobstante o rápido envelhecimento da população brasileira, deduzimos que as denominações eclesiásticas devem melhor se preparar para assistir esse nicho de sua membresia. A maioria das igrejas evangélicas tem programas especiais para crianças, adolescentes, jovens, senhoras, corais, universitários, casais e outros, mas ainda quase nada ou pouquíssima coisa para os idosos.

Enfatizamos que um programa para idosos depende de fatores locais, da cultura, dos recursos financeiros, das prioridades, da visão pastoral e do grau de amor e respeito pela ancianidade, mas, sobretudo, da vontade de fazer um modelo alternativo de atenção, que fuja de modelos de exclusão social.

Cesár (1999) apud Célia Pereira Caldas, salientou “que Deus permita aos jovens e aos líderes a clareza e antevisão necessária para ampliar os horizontes daqueles que chegam à terceira idade, pois este é o destino de todos nós”.

A Igreja Presbiteriana do Brasil implementou trabalho centralizado numa Secretaria conduzida por um dos pastores daquela denominação, com replicação nos Sínodos e Presbitérios daquela denominação, mais ainda com aparente pouco impacto nas igrejas locais.

As instituições de ensino UNICAP e FTSA têm programa de incentivos, sendo o da primeira mais relevante, com extensa programação ativa e com efeitos efetivos sobre a população.

O trabalho desenvolvido pelo Movimento Cristão 60+ tem excelente abrangência, em face do caráter supra denominacional, com realização de encontros nacionais, regionais, robustez na mídia, levando aos participantes a conscientização sobre a necessidade de uma pastoral específica para os idosos, redundando em ações locais.

Saber envelhecer é uma arte, é o processo natural da vida, motivo da gratidão a Deus pela vida vivida, saúde, família, amigos e irmãos, pois toda boa dádiva Dele é procedente, conforme Salmos 92:12-15:

O justo florescerá como a palmeira, crescerá como o cedro no Líbano. Plantados na Casa do Senhor, florescerão nos átrios do nosso Deus. Na velhice ainda darão frutos, serão cheios de seiva e de verdor, para anunciar que o Senhor é reto. Ele é a minha rocha, e nele não há injustiça (Salmos 92:12-15).

Notas

1. As citações bíblicas, ocorrerão segundo a versão Nova Almeida Atualizada (NAA)

2. Bíblia de Jerusalém

3. PORTAL LUTERANO. Menu. https://www.luterano.org.br/ – Acesso em 20mar2026

4. PORTAL IELB. Pesquisa. https://www.ielb.org.br/pesquisa – Acesso em 20mar2026

5. PORTAL CBB. Pesquisa. https://convencaobatista.com.br/site/index.php – Acesso em 20mar2026

6. PORTAL IGREJA METODISTA. Busca. https://www.metodista.org.br/igreja/ – Acesso em 20mar2026

Referências

AGÊNCIA GOV. Chance de vida longa no Brasil é a maior da história.

BÍBLIA DE JERUSALÉM. São Paulo: Paulus, 2002.

CENSO 2022, Panorama Censo 2022. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Acesso em: 05 mar 2026.

CÉSAR, Kléos Magalhães Lenz. Fui moço, agora sou velho… e daí? Viçosa: Ultimato, 1999

D´ANDREA, Rafael. Reinventando-se depois dos 50 anos de idade: como fazer a transição de carreira e carreira-bônus. São Paulo: Atlas, 2019.

FTSA. Benefícios para nossos estudantes. Acesso em 20 de março de 2026

IPB. Secretaria da Terceira Idade. Acesso em 20mar2026

MOVIMENTO CRISTÃO 60+. Quem somos? Acesso em: 05 mar 2026.

NULAND, Sherwin B. A arte de envelher. Rio de Janeiro: Objetiva, 2007

PALMS, Roger C. Celebrando a vida depois dos 50. Niterói: Textus, 2000

PORTAL CBB. Pesquisa. https://convencaobatista.com.br/site/index.php . Acesso em 20mar2026

PORTAL IELB. Pesquisa. https://www.ielb.org.br/pesquisa  Acesso em 20mar2026

PORTAL LUTERANO. Menu. https://www.luterano.org.br/ – Acesso em 20mar2026

REPAPI. Rede de apoio à pessoa idosa. Igreja Presbiteriana do Farol | Repapi Acesso em: 05 mar 2026.

TOURNIER, Paul. É preciso saber envelhecer. Viçosa: Ultimato, 2014

UNICAP. Unicap prata.https://portal.unicap.br/prata – Acesso em 20mar2026

ULTIMATO. Envelhecimento da população requer novas políticas públicas e atenção da igrejav. Acesso em 20mar2026.

WIKIPEDIA. Censo  Demográfico. Acesso em: 19mar2026

Elias Bispo é contador, atua na área financeira há 44 anos, educador financeiro, servidor público, casado com Mércia (psicóloga) há 42 anos, um casal de filhos, três netos, presbítero na Igreja Presbiteriana Madalena.

Imagem: Unsplash.

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Marcolina Figueira de Magalhães (1909–1988): a desbravadora do sertão

Marcolina nasceu em 27 de março de 1909 e descansou em 14 de janeiro de 1988. Sua vida é um testemunho de serviço amoroso a Jesus e de anúncio perseverante do Evangelho

Por Rute Salviano Almeida

Marcolina Figueira de Magalhães nasceu em Palmeira dos Índios, Alagoas, no dia 27 de março de 1909. Seus pais, José e Francisca Figueira de Magalhães, eram católicos praticantes e passaram por dificuldades para criar e educar os oito filhos. Três faleceram na infância, e Marcolina tinha apenas 8 anos de idade quando o pai se foi.

Sua família foi morar com amigos, em Maceió, e a menina, que era muito religiosa, tinha medo dos crentes e evitava andar na calçada da igreja evangélica, pois havia sido ensinada a não se aproximar deles.

Marcolina tinha um vizinho protestante, do qual fugia para não ouvir suas “heresias”. O homem, conhecedor da fé profunda nas imagens que ela possuía, disse-lhe para testar se a sua Nossa Senhora dos Navegantes tinha mesmo poder. Sugeriu que acendesse um fósforo na imagem, e se a santa fosse poderosa resistiria ao fogo.

A ingênua menina resolveu fazer o teste e saiu queimando suas imagens. Decepcionada, admitiu que o homem tinha razão. Como aqueles santos, que não conseguiam defender-se do fogo, protegeriam alguém?

Marcolina também comparou um bispo local com Jesus. Aquele bispo brigava, amaldiçoava, rogava pragas e mandava para o inferno. Jesus, com certeza, jamais agiria assim, pensou ela, ficando cada vez mais confusa.

Seu vizinho continuava a lhe ensinar o evangelho, e a filha mais velha da família com a qual morava a aconselhava a aceitar a Jesus, até que ela o fez. Porém, foi impedida de frequentar a igreja por sua mãe de criação, que, escandalizada com sua conversão, passou a persegui-la.

Só aos 13 anos Marcolina pôde ser batizada, com a licença de sua mãe. A perseguição amadureceu sua fé e a aproximou mais de Cristo. Ela cursou a 4ª e 5ª séries no Colégio Batista Alagoano. Em 1928, sentiu-se chamada para a obra missionária, e o doutor John Mein, que era o diretor do colégio, facilitou seu ingresso na Escola de Trabalhadoras Cristãs.

Ao ouvir o pastor Zacarias Campêlo falando sobre seu trabalho entre os índios e sobre Noêmia, a jovem sentia o Senhor lhe falando: “A quem enviarei, e quem irá por nós?” (Is 6.8). Então, orava, em lágrimas, para que pudesse chegar ao interior, onde aquela heroína trabalhara e vivera por pouco tempo.

Enquanto estudava, Marcolina trabalhou na Igreja Batista da Rua Imperial, pastoreada pelo doutor Antonio Neves de Mesquita. Em 1931, formou-se e voltou para Alagoas, onde lecionou para crianças na Primeira Igreja Batista de Maceió e no Colégio 15 de Novembro, em Rio Largo.

Em janeiro de 1932, o pastor Manoel Avelino de Souza, secretário de Missões Nacionais, informado da vocação de Marcolina, procurou-a para convidá-la a ficar dois anos residindo numa pequena vila e abrindo uma escola anexa à igreja. Seria a primeira escola que os batistas manteriam no sertão. Marcolina aceitou, sentindo que Deus lhe abrira a porta que tanto almejava.

Nomeada como missionária para Porto Franco, no Maranhão, a jovem de 23 anos partiu no dia 5 de abril de 1932. De Maceió viajou para Belém do Pará e, após dez dias de viagem, embarcou num pequeno barco para subir o rio Tocantins, numa viagem de vinte longos dias sentada sobre sacos de sal.

Marcolina como missionária em Porto Franco

No dia 3 de maio de 1932, quatro anos após a morte de Noêmia Campêlo, chegou ao vale do Tocantins aquela que, inspirada por sua vida, desejava levar a mensagem de salvação aos sertanejos desprezados.

Dois dias depois de sua chegada, organizou a Sociedade de Senhoras, com dez sócias. Na companhia delas, viajava para os pontos de pregação da igreja e fazia visitas evangelísticas às fazendas vizinhas.

Marcolina logo iniciou a escola, que era a única da vila. Embora houvesse cerca de duzentas crianças em idade escolar, apenas quatorze matricularam-se porque o povo fora ensinado que era melhor deixar os filhos sem instrução do que colocá-los na escola protestante. Outros não iam por serem muito pobres. Porém, todos os dias, a mensagem do evangelho de Cristo era pregada ali.

Durante vinte anos, Marcolina trabalhou em Porto Franco e acompanhou o progresso daquela vila, sempre viajando a lugares vizinhos e, nas férias, às regiões mais distantes. Era aquele trabalho como itinerante evangelista que lhe dava maior prazer: visitava as fazendas, os sítios, as casas dos sertanejos e as aldeias dos índios.

Os apinagés a acolhiam com alegria e ouviam a mensagem de salvação. Porém, ela não via resultados animadores. Mas, anos mais tarde, quando encontrou um índio às portas da morte, ele lhe disse: “Vou para Jesus e lá vou me encontrar com Jesus e Marcolina”.

Suas outras atividades

Convocada a auxiliar no Instituto Teológico, a missionária mudou-se para Carolina, onde durante seis meses ajudava no preparo dos jovens vocacionados, e nos outros seis meses viajava como itinerante, abrindo pontos de pregação e falando de Cristo a centenas de pessoas.

Lá permaneceu de 1946 a 1949, mas não estava satisfeita, pois afirmava ter sido chamada para evangelizar. Partiu então, novamente, para Porto Franco, onde ficou mais um ano.

Depois morou por cinco anos em um município do outro lado do rio Tocantins, chamado Tocantinópolis. Ao iniciar o trabalho de evangelização, foi-lhe ordenado pelos padres que não entrasse nos lares católicos.

Em Araguatins, trabalhou como enfermeira-evangelista, abrindo um ambulatório, que ficou conhecido como o “hospital” e era procurado por pessoas que andavam até mais de 120 km para chegar até lá. Ela atendia mais de vinte doentes por dia, além dos que atendia nas casas e fora do município.

Naquele local, auxiliou a igreja batista, que tinha apenas onze membros, e liderou a construção do templo, situado na praça principal, voltado para o rio Araguaia. Lá permaneceu por cincos anos. Com o trabalho já fortalecido, escreveu à junta pedindo um pastor para o local.

Em 1962, após trinta anos no sertão, foi para Marabá, onde ficou por três anos e deixou mais uma igreja organizada. Sempre compassiva com as pessoas, declarou que não tivera filhos, mas fora chamada de mãe pelos leprosos de Marabá, e por isso dava graças a Deus.

De Marabá, foi para Colinas de Goiás, onde continuou fazendo visitas e pregando. Após quatro anos, foi organizada uma igreja, com um templo e uma escola anexa.

Em 1968, a Câmara Municipal de Goiânia homenageou Marcolina com um diploma de “Honra ao Mérito” por seus 37 anos de serviço ao povo de Goiás com o melhor dos seus talentos.

Após quarenta anos de atividades, Marcolina solicitou à Junta de Missões Nacionais que a transferisse para uma vila da Transamazônica e, em abril de 1973, chegou a São Domingos do Araguaia, no Pará.

Naquele local, a junta comprou uma casa para sua residência que também servia como local da congregação e do dispensário. Todo domingo eram realizados a escola dominical e o culto evangelístico. Às sextas-feiras tinham cultos de oração.

Marcolina demonstrou seu amor ao próximo. Poucos são aqueles cuja compaixão é visível aos olhos das pessoas. Certa vez, ela foi à localidade chamada Mosquito fazer visitas. Ao chegar a uma casa, uma criança, logo que a avistou, chamou sua mãe dizendo: “Mãe, vem cá! A mulher de Deus taí!”. Esses foram os tesouros que a missionária bandeirante foi garimpar. Nem todos as riquezas do mundo são suficientes para comprar esse privilégio de trazer na face a identificação de discípulo de Jesus.

Aquela que foi perseguida e discriminada tornou-se reconhecida como prestadora de serviços relevantes à comunidade, sendo declarada cidadã tocantinopolina, conforme a Lei nº 263, de 27 de outubro de 1977.

Marcolina sofria constantemente de muitas dores nos pés. Quando cuidava de meninas no internato batista, após as visitas evangelísticas, chegava com os pés doendo.

“O que sinto é não poder andar a pé muitas léguas” era a lamentação da jovem missionária. Como fazer o trabalho missionário no sertão nordestino, naquela época, sem caminhar? Mais uma vez ela afirmou: “Deus proverá”.

E realmente ele proveu. As declarações de sua obra missionária revelam quanto ela caminhou, quantas léguas percorreu, quantas localidades que não conheciam o evangelho de Cristo alcançou, quantas igrejas organizou. Só mesmo pela força do Espírito Santo de Deus.

Após algum tempo no campo missionário, Marcolina escreveu à dona Elizabeth, contando-lhe sobre o trabalho e como caminhava quilômetros. No final da carta, declarou: “E os meus pés não têm doído nen um tiquinho! Como o Senhor ouve as nossas mínimas súplicas”.

Em 5 de setembro de 1971, portanto, quase quarenta anos depois daquela carta, O Jornal Batista destacou em sua primeira página o trabalho de Marcolina Magalhães e Beatriz Silva, com o seguinte título: “Correm e não se cansam as duas grandes missionárias ao Sertão”.

A vida de Marcolina comprovou que “até os jovens se cansam e ficam exaustos, e os moços tropeçam e caem; mas aqueles que esperam no Senhor renovam as suas forças. Voam alto como águias; correm e não ficam exaustos, andam e não se cansam” (Is 40.30-31).

Falecimento

Tocantinópolis, no estado de Goiás (hoje no estado de Tocantins), foi a cidade onde Marcolina passou sua velhice. Com seus próprios recursos e a ajuda da JMN e de irmãos da Igreja Batista Memorial de Brasília, adquiriu uma casinha. Como não podia mais andar para fazer visitas, sentava-se à porta de sua casa e falava de Cristo a todos que passavam. Seus pés e pernas voltaram a doer muito, impedindo-a até de se levantar da cama. Mas nunca perdeu seu sorriso feliz ao testemunhar de Cristo.

No dia 14 de janeiro de 1988, a missionária descansou. Seus pés não mais doeriam nem precisariam caminhar nas estradas poeirentas ou ruas enlameadas; agora andariam em ruas de ouro, nos céus.

No culto fúnebre da missionária bandeirante do sertão, compareceram o prefeito da cidade, o vice-prefeito, ex-prefeitos, vereadores, o secretário-executivo da Junta de Missões Nacionais, o presidente da Convenção Batista do Tocantins, missionários e muitos outros obreiros, pastores e irmãos em Cristo, todos participando, com emoção e fervor, do culto de saudades.

Rute Salviano Almeida, mestre em teologia e pós-graduada em história do cristianismo, é autora de Vozes Femininas nos Avivamentos, Vozes Femininas no Início do Cristianismo e Vozes Femininas no Início do Protestantismo Brasileiro, pela Ultimato, além de Uma Voz Feminina Calada pela Inquisição e Uma Voz Feminina na Reforma.

Trecho publicado originalmente no livro Vozes Femininas no Início do Protestantismo Brasileiro – A religiosidade, o papel feminino, as denominações e suas pioneiras. Ultimato. Reproduzido com permissão.

Imagem: O Jornal Batista, 31 de janeiro de 1988, p. 1.

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Junho violeta – “A liberdade não tem prazo de validade”

Campanha internacional incentiva a proteção e divulga como denunciar e combater a violência contra o idoso

Por Xênia Marques Lança de Q. Casséte

O Junho Violeta é um movimento internacional de conscientização e enfrentamento à violência contra a pessoa idosa, com ações realizadas em diversos países. O marco central da campanha é o Dia Mundial de Conscientização sobre a Violência contra a Pessoa Idosa, celebrado em 15 de junho, e instituído em 2011 pela Organização das Nações Unidas (ONU).

O objetivo da campanha é alertar a população sobre a existência de violações dos direitos dos idosos, incentivar a rede de proteção e divulgar formas de denunciar e de combater a violência contra este grupo.

No Brasil, o tema proposto pelo Governo Federal para o Junho Violeta em 2026 é “A liberdade não tem prazo de validade”, e o lema “A experiência ensina. O respeito protege”. A campanha é liderada pelo Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC).

Segundo a Agência Brasil, o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC), registrou 75.701 denúncias de violência contra idosos pelo canal Disque 100 nos primeiros quatro meses de 2026, contra 58.297 no mesmo período do ano passado.

De acordo com o Estatuto do Idoso (Lei 10.741/2003), considera-se violência contra o idoso qualquer ação ou omissão que lhe cause morte, dano ou sofrimento, seja ele físico, psicológico ou financeiro/patrimonial e por negligência. Hoje, há 32 milhões de brasileiros com 60 anos ou mais.

Reflexões sobre o preconceito em razão da idade

Um excelente documento sobre o tema, à disposição de quem se interessar, foi lançado este mês, pelo Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios (TJDFT). Trata-se da Cartilha Quem Nunca?, criada para combater o etarismo, desmistificar mitos sobre a velhice e conscientizar sobre os direitos da pessoa idosa.

O documento alerta para os diversos tipos de violência contra o idoso (física, psicológica, patrimonial e negligência) e destaca a importância da denúncia. Clique aqui para acessar a cartilha gratuitamente.

Conforme a cartilha Quem Nunca?, “Etarismo, ageísmo e idadismo são termos utilizados para expressar a discriminação ou preconceito em razão da idade. Diferentemente das demais formas de discriminação, incluindo o sexismo e o racismo, o etarismo é pouco conhecido e debatido, além de ser socialmente aceito e fortemente institucionalizado, o que demanda uma imediata conscientização da sociedade acerca da sua existência e de seus efeitos prejudiciais para a qualidade de vida e a inclusão social da população idosa”.

Como denunciar

Denúncias de violência contra pessoas idosas podem ser registradas anonimamente pelo Disque 100, que funciona 24 horas por dia.

Também recebem denúncias o telefone 190 da Polícia Militar, o Centro de Referência de Assistência Social e o Centro de Referência Especializado de Assistência Social, além das Delegacias especializadas, centrais judiciais do idoso, em qualquer delegacia de polícia e no Ministério Público e na Defensoria Pública.

O MC60+ e o Junho Violeta

O Movimento Cristão 60+ (MC6+) está engajado nesta campanha Junho Violeta e entende que faz parte do desejo da justiça de Deus para com a pessoa idosa assim como para toda a humanidade. Em Levítico 19.32, a Bíblia ensina: “Fiquem de pé na presença das pessoas idosas e as tratem com todo o respeito; e honrem a mim, o Deus de vocês. Eu sou o Senhor”. E muitos outros textos bíblicos garantem respeito e cuidado ao idoso como sendo a vontade de Deus.

Damos graças a Deus pelo trabalho da Igreja no Brasil que já demonstra preocupação com seus idosos e realiza muitas atividades para garantir bem-estar, segurança e proteção aos 60+. E acreditamos que Igreja também precisa continuar a se engajar, a apoiar as instituições governamentais que trabalham para proteger o envelhecimento da população e para garantir os direitos da pessoa idosa. Entre diversas maneiras de fazer isso, seguem algumas sugestões:

– Criar um grupo específico de trabalho com os 60+ da igreja.

– Fazer palestras sobre esse tema.

– Informar ao idoso sobre seus direitos.

– Informar os telefones de denúncia sobre violência contra o idoso.

– Colocar alguém ou um grupo em contato direto com os idosos com mais de 70 anos para acompanhar sua caminhada e relacionamentos e deixar o idoso seguro e tranquilo sobre este suporte, inclusive sobre poder contar com ajuda para fazer denúncia, se for o caso.

Imagem: Unsplash.

Xênia Marques Lança de Q. Casséte é jornalista, esposa e mãe. Membro da Igreja Batista da Redenção, faz parte da equipe do Coletivo Bereia de informação e checagem de notícias.

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Um caminho para todas as gerações

Por Emiliane Rezende

“Ensina a criança no caminho em que deve andar, e, ainda quando for velho, não se desviará dele” (Pv.22.6)

Toda vez que ouvimos ou lemos este versículo pensamos nos recém-nascidos, nas crianças. Quantas vezes o coloquei em cartão com presente para o bebê que chegava ao seu lar!

No entanto, ele também se refere ao velho, que não se desviou do caminho.

Como mãe e avó minha oração diária é que toda a minha família, incluindo as gerações que eu nem conhecerei sirvam ao Senhor e o confessem como Senhor. Ouvi minha mãe orando assim e tenho certeza de que minha avó um dia também fez essa oração. São muitos os filhos que se perdem pelo caminho…

Um tio, já avançado em idade, distante da igreja há décadas, sempre preocupou minha avó. A oração por ele estava lá. Coisas de mãe, de avó.

Recentemente saí para passear com este tio. Ele fez questão de nos pagar um almoço. Servimos e começamos a comer. Olhei para ele e lá estava aquela cena que me encheu de alegria: ele abaixou a cabeça, fechou os olhos e falava com Deus. Imediatamente lembrei da minha avó e disse em pensamento a ela: “Fique tranquila, seu legado está aqui ainda.”

Lembrei-me de Provérbios imediatamente: “…ainda quando for velho não se desviará…”

Emiliane Rezende, esposa do Ângelo, mãe do Mateus e da Marta e avó de Rebeca, Benício, Elias e Nícolas, reside em Santos, SP. É pedagoga pela Universidade Federal de Viçosa. Trabalhou como coordenadora pedagógica por 22 anos.

Imagem: Unsplash.

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