Antes só que mal acompanhado. Será?

Pessoas que têm relacionamentos significativos e profundos tem maior qualidade de saúde mental e física, impactando também na longevidade

Por Carlos “Catito” e Dagmar Grzybowski

Um ditado muito popular estimula as pessoas a selecionarem seus relacionamentos a fim de não se envolverem com quem possa lhe trazer problemas. Entretanto essa interpretação do referido ditado pode levar ao isolamento social, o que não é nem um pouco saudável.

Na perspectiva da saúde, o Brasil adotou um princípio de associar cores a alguns meses do ano para fazer campanhas acerca de cuidados essenciais com algumas áreas. Assim temos o setembro amarelo – prevenção do suicídio; o outubro rosa – prevenção do câncer de mama; o novembro azul – prevenção do câncer de próstata, etc. O mês de janeiro é dedicado ao cuidado com a saúde mental e é chamado janeiro branco.

A saúde mental passa obrigatoriamente pela qualidade dos relacionamentos que desenvolvemos. Somos seres gregários pois fomos criados para vivermos em relacionamentos. Na perspectiva bíblica da criação a única coisa que não foi boa em toda a criação divina foi a falta de outro ser que correspondesse ao primeiro ser humano criado: “Então o Senhor Deus declarou: ‘Não é bom que o homem esteja só; farei para ele alguém que o auxilie e lhe corresponda’”. (Gn 2.18).

Desta forma, na perspectiva cristã, somos seres criados para vivermos em relacionamentos e a qualidade desses relacionamentos está diretamente associada à qualidade de saúde integral da pessoa.

Infelizmente, vemos as pessoas muito preocupadas como o seu bem-estar físico, fazendo exercícios em academias (às vezes de forma até exagerada) e buscando uma alimentação mais saudável (sempre que a consciência e o orçamento permitem), porém pouco atentas ao desenvolvimento de uma “saúde relacional”.

Um estudo apresentado por Robert Waldinger1, diretor do estudo de Harvard, sobre o desenvolvimento adulto, destaca que, realmente, a qualidade dos relacionamentos é o maior preditor de saúde a longo prazo e é um fator chave para a longevidade e saúde a longo prazo, sendo um fator muitas vezes ignorado e por conseguinte negligenciado.

De acordo com o referido estudo, a qualidade dos relacionamentos é um dos principais indicativos da qualidade de saúde integral ao longo da vida, ou seja, pessoas que têm relacionamentos significativos e profundos têm maior qualidade de saúde mental e física, impactando também na longevidade.

O estudo destaca ainda que pessoas solitárias tendem a ter saúde integral deteriorada e se sentirem mais infelizes que as que possuem bons relacionamentos. Também rejeita a ideia de que o sucesso financeiro é o fator mais associado ao sentimento de felicidade.

Não se trata necessariamente da quantidade de amigos que uma pessoa tem, mas da qualidade dos vínculos. Sentir que é possível contar com os outros em momentos difíceis é fundamental.

Ainda, segundo o estudo apresentado por Waldinger, relacionamentos saudáveis protegem o corpo e o cérebro, ajudando a regular o estresse e a prevenir doenças crônicas como diabetes, artrite e declínio cognitivo. A satisfação nos relacionamentos na meia-idade foi um preditor de saúde melhor do que os níveis de colesterol. Em contrapartida a solidão é considerada tão prejudicial à saúde quanto fumar ou ter consumo de álcool em excesso.

Infelizmente, na nossa sociedade pós-moderna, as pessoas estão cada vez mais isoladas, apesar de estarem sempre conectadas. Essas conexões, tratam-se de uma espécie de ‘pseudo-relacionamentos’ nos quais as trocas acabam sendo apenas de informações: locais agradáveis onde estiveram; viagens fantásticas feitas; momentos felizes ou mesmo tristes (como doenças e mortes) vivenciados, mas todos comunicados com a frieza de um noticiário e mediados pela tecnologia das telas.

A participação em redes sociais, por si só, não substitui a conexão emocional significativa provida por interações face a face de qualidade. O abraço, o aperto de mão, os olhos nos olhos durante a conversação fazem muita diferença na qualidade dos relacionamentos.

Sem mencionar a transitoriedade egocêntrica dos relacionamentos virtuais, os quais o sociólogo Zygmunt Bauman denomina de ‘relações líquidas’2 por serem menos frequentes e menos duradouros, em que as relações amorosas deixam de ter aspecto de união e passam a ser mero acúmulo de experiências e qualquer contrariedade desfaz o relacionamento em apenas um toque na tela.

Como cristãos somos chamados a viver uma dimensão relacional que ultrapassa todas as possibilidades imagináveis do mero convívio humano: “Da multidão dos que creram, uma era a mente e um o coração” (At 4.32). Essa dimensão é reafirmada com uma imagem extremamente forte de interrelação: membros uns dos outros (1Co 12.12-27).

Por isso é muito importante desenvolvermos relacionamentos significativos que nos acompanhem ao longo da vida. Não só os relacionamentos de família, mas de amizades que perdurem e com as quais possamos contar. Isso será fator de fortalecimento de nossa saúde integral.

Notas

1. Harvard Study of Adult Development, a pesquisa longitudinal mais longa do mundo sobre a vida adulta. Iniciado em 1938, o estudo acompanhou centenas de homens (e posteriormente suas famílias, incluindo cônjuges e mais de mil descendentes) por mais de 85 anos para descobrir o que realmente contribui para uma vida longa, saudável e feliz.

2. Zygmunt Bauman. Amor Líquido: Sobre a Fragilidade dos Laços Humanos (Liquid Love: On the Frailty of Human Bonds. Cambridge: Polity). Traduzido por Carlos Alberto Medeiros. Jorge Zahar Editor.

Imagem: Unsplash.

Carlos “Catito” e Dagmar são casados, ambos psicólogos e terapeutas de casais e de família, e membros da Igreja Luterana. São autores de Pais Santos, Filhos Nem Tanto. Acompanhe o blog: ultimato.com.br/sites/casamentoefamilia/.

Dr. Butler: ecos de um legado que não se apaga

Por Elias Bispo

Quarenta e nove anos se passaram desde a primeira vez em que pisei na Igreja Presbiteriana de Canhotinho. Eu era um jovem recém-alcançado pela fé, viajando com outros rapazes da União de Mocidade Presbiteriana. O ônibus de linha avançava lentamente pelos 27 quilômetros que separavam Garanhuns de Canhotinho, serpenteando por São João e Angelim, como se quisesse prolongar a expectativa da chegada.

Ao descer diante do templo, algo me marcou de imediato: no jardim lateral, silencioso e verde, repousavam o Rev. George William Butler, sua esposa Mary Rena Humphrey e o enigmático “Né Vilela”. Aquele túmulo, tão próximo da porta lateral da igreja, parecia guardar não apenas corpos, mas histórias que ainda respiravam.

Anos depois, em 1979, encontrei essas histórias nas páginas da biografia escrita pelo Rev. Edijéce Martins Ferreira. Ali descobri o médico-missionário que unia Bíblia e bisturi, fé e ciência, coragem e ternura. Descobri também o episódio de fevereiro de 1898, quando um fanático tentou tirar-lhe a vida em São Bento do Una. O golpe, porém, encontrou outro peito: o de Manoel Correia Vilela, o Né Vilela, que tombou no lugar do missionário e se tornou o primeiro mártir cristão do Agreste pernambucano. Desde então, aquele nome gravado na lápide nunca mais me soou estranho.

Hoje, 6 de janeiro de 2026, voltando de Garanhuns rumo a Tamandaré, senti o impulso de retornar a Canhotinho. Pedi a um mototaxista que me conduzisse até a igreja. Ao avistar o templo, reconheci-o de imediato – mais imponente, mais vivo, como se o tempo tivesse decidido honrá-lo. O jardim estava cuidado, o túmulo preservado, e a memória, intacta.

Fotografei o lugar. A porta lateral estava entreaberta; bati palmas e entrei. Dois irmãos me receberam com gentileza, entre eles o pastor Welber, capixaba e vascaíno. Havia almoço servido, aroma de comunhão no ar. Aceitei apenas um refrigerante, mas recebi muito mais: acolhimento, conversa, lembranças despertas.

Falamos de Pérola Lins, que já descansa no Senhor, e de Doreide, hoje na Bolívia. Falamos também da expansão do evangelho nas cidades vizinhas – sementes lançadas por Butler, regadas por gerações, florescendo ainda agora.

Saí dali com o coração aquecido. Há algo profundamente belo em testemunhar uma obra que atravessa séculos sem perder vigor. E senti nascer o desejo de levar a Classe 60+ da Escola Bíblica Dominical da IP Madalena para uma visita histórica e cultural àquela comunidade, ainda neste primeiro semestre de 2026. Talvez para que outros também ouçam, no silêncio daquele jardim, os ecos de um legado que não se apaga.

Tamandaré, PE, 6 de janeiro de 2026.

Elias Bispo é contador, atua na área financeira há 44 anos, educador financeiro, servidor público, casado com Mércia (psicóloga) há 42 anos, um casal de filhos, três netos, presbítero na Igreja Presbiteriana Madalena.

Eu com Deus e Deus comigo

Por Wilfried Korber

São, essas duas posições, muito parecidas, mas não são iguais. Tentarei explicar o que penso e como sou consolado em ambos os casos.

“Eu com Deus” significa que eu me disponho a viver de acordo com a sua vontade. Meu contato com ele é através da oração e da prática diária nos meus afazeres, procurando fazer tudo o que ele espera de mim, da melhor forma possível. Procuro melhorar minha comunhão, que como com outros personagens bíblicos, deve ser com real intimidade. Meu exemplo nesse caso é Moisés, como está escrito em Êxodo, nos capítulos 19 e 20.18-21. Depois desses, segue outro encontro no capítulo 24 e ainda no capítulo 33.12-23. Quero destacar nesse último trecho o versículo 21, no qual Deus disse a Moisés: “Eis aqui um lugar junto a mim!”

Agora, com essa palavra de aconchego já estamos chegando à segunda expressão do título: “Deus comigo.” Isso significa que Deus está ao meu lado por iniciativa dele. Como mencionei antes, foi ele que disse a Moisés: “Eis um lugar junto a mim,” convidando-o a se aproximar. Em outras palavras, Deus está dizendo que a mão dele está estendida na direção de Moisés; ou ainda como mencionado em outra ocasião, que ele pode levá-lo sobre as suas asas. Outra figura é quando Deus diz que é possível encontrar abrigo na sombra de suas asas (Salmos 57.1; 63.7). Também no Salmo 91.1, Deus nos fala do abrigo à sua sombra.

Resumindo, quero considerar que uma é a posição quando eu vou em busca de Deus, e outra é quando Deus se coloca à minha disposição. Em ambos os casos estaremos juntos, e isso é maravilhoso.

Wilfried Körber nasceu em Göttingen na Alemanha em 1931 e vive no Brasil desde 1937. Converteu-se aos 16 anos na então Igreja Alemã Batista Zoar, frequentada por sua mãe. Membro fundador da Igreja Batista Filadélfia de São Paulo, envolveu-se com o trabalho de evangelização de crianças e missões, com sua esposa Gisela, de saudosa memória. Há mais de uma década escreve textos para o devocionário Presente Diário. Atualmente vive em Sorocaba, SP. @lampadaparaosmeuspes_.

Imagem: Unsplash.

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Entra na minha casa, por Wilfried Korber

Abençoados para abençoar, por Carlos Munhoz

Abençoados para abençoar

Por Carlos Munhoz

“1- Deus tenha misericórdia de nós e nos abençoe; e faça resplandecer o seu rosto sobre nós. 2- Para que se conheça na terra o teu caminho, e em todas as nações a tua salvação. 3- Louvem-te a ti, ó Deus, os povos; louvem-te os povos todos” (Salmo 67.1-3, ARC)

Em seus três primeiros versos, o Salmo 67 traz três importantes reflexões:

PRIMEIRA: Clamor pela misericórdia, bênção de Deus e presença manifesta do abençoador

“Deus tenha misericórdia de nós e nos abençoe; e faça resplandecer o seu rosto sobre nós” (v. 1/1)

A quem o salmista clama pela misericórdia e bênção?

A Deus.

Agostinho: “Fizeste-nos para Ti, e inquieto está o nosso coração enquanto não repousa em Ti”.

Deus deve ser a nossa primazia. Ele é a fonte de toda boa dádiva, de todo dom perfeito.

O Senhor Jesus recorria sempre a Deus Pai em oração. É a ele quem devemos sempre recorrer.

“Deus tenha misericórdia de nós e nos abençoe; e faça resplandecer o seu rosto sobre nós;” (v. 1/2)

Carecemos da misericórdia de Deus. De um coração arrependido e contrito na presença de Deus. Não é um pedido pessoal, mas coletivo.

“Deus tenha misericórdia de nós e nos abençoe; e faça resplandecer o seu rosto sobre nós;” (v. 1/3)

Pedimos isso para podermos abençoar, precisamos ser bênção, nos enchendo do Espírito Santo.

Bênção de Deus, não para retê-la para si, mas para compartilhá-la entre as nações, com o nosso próximo.

Somos como o mar da Galileia, que, ao receber as águas do Jordão, as distribui para irrigar os campos; nesse sentido, quem só recebe e a retem para si, torna-se sem vida como o mar Morto.

“Deus tenha misericórdia de nós e nos abençoe; e faça resplandecer o seu rosto sobre nós;” (v.1/4)

Precisamos da unção de Deus, da presença manifesta e inequívoca de Deus na nossa vida.

A bênção não é tudo o que o povo de Deus almeja: Ele quer mais, anseia pelo próprio abençoador.

SEGUNDA: Para abençoar vidas, fazendo Deus e o seu plano de salvação conhecido

“Para que se conheça na terra o teu caminho, e em todas as nações a tua salvação.” (v.2)

Abençoados para abençoar. Receber para compartilhar.

A bênção de Deus deve ser estendida a todas as famílias da Terra.

TERCEIRA: Louvá-lo e adorá-lo eternamente

“Louvem-te a ti, ó Deus, os povos; louvem-te os povos todos.” (v. 3)

O maior motivo para as missões e o evangelismo é um zelo apaixonado pelas almas mas, sobretudo, pela glória de Jesus Cristo.

Conclusão

Recebemos muitas bênçãos de Deus, mas não para as retermos para nós, mas para compartilharmos com todos.

Que em tudo na nossa vida e através dela, o Senhor, e tão somente Ele, receba toda honra, glória, louvor e adoração.

Que Deus abençoe muito a todos, cada vez mais, e que muitas vidas sejam abençoadas por meio deste maravilhoso Ministério Cristão 60+. E que o Senhor, tão somente ele, seja glorificado. Amém!

Carlos Munhoz, Carlos Munhoz, 65 anos, casado com Jenusa Munhoz, pai da Priscila e avô de Melissa e Joaquim, é membro da Igreja Bíblica Evangélica da Comunhão e diretor do Espaço de Missões AMEI. Reside em São Paulo e é membro do Grupo Base do MC60+.

Imagem: Rio Jordão próximo ao mar da Galileia. Wikimedia.

A morte que nos toca viver e morrer

Por Ageu Heringer Lisboa

A morte é tão antiga quanto o surgimento da vida. É parte do incessante processo de reciclagem dos elementos da natureza. Positivamente, a biologia e a Bíblia nos lembram que nosso organismo tem prazo de validade estando programado para se desenvolver, cumprir seu desígnio e retornar ao seu nascedouro, a terra: “O pó deve voltar ao pó e o espírito voltar para Deus, que o deu” (Ec 12.7).

Esteticamente a morte está associada ao feio, à desvitalização progressiva, ao definhamento por doenças, originada por ataque de uma fera ou uma víbora, ou a espada do campo de batalha, trazendo febre, delírios, gemidos. E quando completa sua obra, tem-se a putrefação do corpo que precisa ser queimado ou enterrado para espantar outras mortes. Cenas que alimentaram o imaginário sombrio, frio, aterrorizante associado ao morrer em todas as culturas.

A intuição da finitude nos impacta e nos mobiliza, já que está presente em nossa imaginação e no profundo inconsciente pessoal e coletivo. Mas será sempre um assunto mórbido falar da morte? Mesmo quando temos enfermos graves em nossas famílias? O que se evita e interdita chama-se de tabu. Penso que de uma perspectiva da fé cristã, só por superstição, crendice, tabu sociocultural, culpa, medo e má teologia evitamos o assunto. Sim, a morte gera incômodos pois, positivamente, nascemos para viver e queremos viver o máximo de dias possíveis, com saúde e cercado de amizades e amores. E o desejo de eternidade está inscrito em nosso coração (Ec3.12). Mas, chega o dia em que ela se apresenta. Súbita ou lentamente.

Então vivemos, ainda hoje, com questões que acompanham a humanidade desde tempos imemoriais. A morte tem uma importância que se vê retratada nas culturas funerária dos povos, com tumbas, sarcófagos, pinturas, rituais e textos sagrados. Os vivos sempre se interrogam diante dela, símbolo de grande mistério, do desconhecido, com poder de nos assombrar. Impõe reverência. Reflete uma dimensão do sagrado, algo que atrai e aterroriza, que transcende o ordinário. Convida-nos a avaliar o sentido e o propósito da existência.

Encontramos uma fascinante e complexa variedade cultural de modos de vivenciar a morte de um ente querido ou de uma autoridade grupal e religiosa. Em alguns contextos antropológicos, a morte sacrificial de animais ou de humanos serviu de símbolo pactual entre grupos humanos, selando a paz, ou como oferenda a um Deus ou espírito com finalidade expiatória ou para obtenção de benevolência, boas colheitas, vitória em guerras.

Além do meio cultural que nos envolve com referências de como administrar a morte, voltando-nos para a dimensão familiar e pessoal do morrer, temos algumas tarefas a encarar para uma boa transição na última etapa do ciclo vital. Que ela não seja malvista nem fonte de terror. Incômoda, sim, mas…

Um dos pontos centrais de nossa fé bíblica, importa lembrar, é que a morte já foi tratada e resolvida em definitivo, histórica e fisicamente, por meio do sacrifício e ressurreição do Filho do Homem, Jesus, o Cristo de Deus. Este fato garante um novo início, com a biologia da ressurreição, que nos revestirá da incorruptibilidade e da imortalidade (1Co 15.50-54).

Então, garantidos pelo Ressurreto, podemos exercitar uma expectativa serena quanto à nossa terminalidade e a de nossos queridos.  E cuidar de tarefas prévias ao morrer. 

Sim, ninguém sabe quando partirá exatamente. Portanto, que tal estarmos sempre preparados para a chamada rumo à morada eterna? O sábio Coelét exortou jovens para se conectarem ao Criador, antes dos “dias maus e da morte”, desfrutar os prazeres simples da vida, temendo a Deus e guardando seus mandamentos, porque isto é o dever de cada pessoa” (Ec 12.13).

Quem sabe de sua hora?

Tarefas prévias ao morrer

Balanço existencial

Em qualquer idade devemos “contar os dias”, reconsiderar o vivido. Um corajoso e humilde ato de escuta da consciência, onde o Espírito que nos conhece fala, e temos oportunidade de nos enxergamos no íntimo e fazermos acertos com nós mesmos. Tempo e lugar para confissões, reconhecimentos, acordos com Deus e com pessoas. Meio para recebermos leveza de alma e paz de espírito.

Providências documentais

Válidas mesmo para um jovem de vinte anos, não só para um ancião enfermo: não deixe dívidas nem dúvidas sobre patrimônio, contas, partilhas de bens, desejos e acertos de qualquer natureza. Junte, confira e mantenha em local seguro documentação pessoal e familiar, de bens móveis e imóveis, certidões de nascimento, de casamento, de divórcio. Tenha um advogado de sua irrestrita confiança para elaboração de procuração registrada em cartório.

Previdência

Já que estamos sujeitos a adoecimento, acidentes, interrupção forçada de trabalho e movimentos implicando despesa hospitalar, enterro ou cremação, recomenda-se designar pessoa de íntima confiança para acompanhar decisões ou mesmo decidir por você caso fique impossibilitado/a. Compartilhe suas senhas e o mapa da mina!

Testamento vital

Diretivas Antecipadas de Vontade (DAV) é um documento que registra as preferências de uma pessoa em relação a tratamentos e cuidados de saúde em caso de incapacidade de se expressar. Segundo Resolução do Conselho Federal de Medicina, “Poder escolher não ser submetido a tratamentos extraordinários de manutenção da vida na fase final de doenças como demência, insuficiência cardíaca, doença pulmonar obstrutiva crônica ou câncer, quando já não existe possibilidade de reversão do quadro”.

Este é tema importante pois muita gente tem dificuldade de aceitar que o ente querido precisa partir. Insistir em tratamentos que não irão reverter o quadro é infligir sofrimento ao paciente – distanásia ou esperar por milagre nem sempre é ajuizado nem expressão de amor! Mas, ressalte-se que “o cuidado deve continuar até o momento da morte, com ênfase no controle dos sintomas e na resolução de pendências”1.

Funerais – enterro ou cremação

Além do Sistema Único de Saúde (SUS), se possível tenha um plano de saúde, um seguro de vida e auxílio funeral. Sobre funerais, algumas prefeituras doam caixões. Deixe seus familiares orientados para que não sejam vítimas de despesas abusivas. Um caixão modelo standard/social (simples) pode ser encontrado em São Paulo, capital por valores que vão de R$ 147,00 a R$ 695,00. Quem quiser um modelo de luxo faz um PIX de 10 a 50 mil reais. Decida se vale enterrar dinheiro junto! Lembre-se que você já estará no céu!

Cada vez mais a preferência das famílias é por cremação. Simplifica-se o processo. Não há significativas objeções religiosas a não ser entre muçulmanos. E o custo é mais barato do que o do enterro tradicional. Recolhe-se as cinzas num pequeno vaso após dois a cinco dias.

Dimensão espiritual

Morrer costuma ser um processo. Simultâneo ao definhar físico, pode ocorrer uma revitalização espiritual quando a pessoa prestes a morrer se torna mais receptiva para receber afetos, a manifestar gratidão e abrir-se espiritualmente.

Estar na dependência de cuidadores e de aparelhos muda a percepção de si e dos outros. A vivência da absoluta fragilidade e a incerteza quanto ao futuro imediato desperta a consciência de muitos para a última decisão: ressignificar a existência pessoal. Devemos apoiá-los respeitando seu cansaço e limites, nos dispondo a ouvi-los, acolhendo suas queixas, medos e desejos. Podemos perguntar se desejam falar com alguém sobre algo de natureza íntima – uma confissão –, se têm um pedido a fazer, se gostariam de liberar perdão para alguém, se aceitam uma oração. A pessoa enferma tem direito a saber a verdade de sua condição, se perguntar. E os que a acompanham podem e devem dizer que são gratos pelo tempo de sua vida. Que a amam. Que ela siga na companhia de Jesus na travessia para o céu. E até breve!

Nota

1. Testamento vital permitirá às pessoas definirem limites terapêuticos na manutenção da vida. Site do Conselho Federal de Medicina.

Ageu Heringer Lisboa, 75 anos, psicólogo, mora em Campinas, SP. É autor de Sexo: Espiritualidade, Instinto e Cultura e organizador de Bíblia e Psique: Marcas Bíblicas na Psicologia e na Psiquiatria e membro-fundador do Corpo de Psicólogos e Psiquiatras Cristãos (CPPC) e da Associação Internacional de Assessoramento e Pastoral Familiar (EIRENE) no Brasil. Ex-assessor da Aliança Bíblica Universitária (ABU), desde 1974 trabalha em clínica psicoterápica e exerce consultoria a ONGs sociais e equipes ministeriais.

Imagem: A dança da morte. Autor desconhecido, Século 16. Coleção do Museu Metropolitano de Arte.

Leia mais:

>> Saber envelhecer, Oswaldo Luiz Gomes Jacob

>> Não tenho medo da morte, Thomas Hahn

Virada de ano

Por Oseas Heckert

Senhor, ao começar este novo ano, ajuda-me a me aquietar nos Teus braços, e a abrir o meu coração para o que Tu tens preparado para mim no novo ano que vai começar.

CELEBRAÇÃO

Relembre momentos relevantes, conquistas, alegrias dos últimos meses.

Quem me encorajou? Quem me ajudou? Quem me inspirou com palavras e atitudes?

Demonstre sua gratidão a Deus com o Salmo 36.5-9:

O teu amor, Senhor, chega até os céus;

a tua fidelidade até as nuvens.

A tua justiça é firme como as altas montanhas;

as tuas decisões, insondáveis como o grande mar.

Tu, Senhor, preservas tanto os homens quanto os animais.

Como é precioso o teu amor, ó Deus!

Os homens encontram refúgio à sombra das tuas asas.

Eles se banqueteiam na fartura da tua casa;

tu lhes dás de beber do teu rio de delícias.

Pois em ti está a fonte da vida;

graças à tua luz, vemos a luz.

Em que me tornei melhor? Quais foram os aprendizados, novos hábitos adquiridos?

O que eu quero levar para o novo ano?

LAMENTO E ARREPENDIMENTO

Como fui afetado pelas agitações sociais e políticas nos últimos meses?

Quais foram os momentos mais difíceis e doloridos?

Reconheça a presença e o cuidado de Deus em meio a tudo o que passou.

Do que me arrependo de ter pensado, feito, dito, ou de ter me omitido?

Aproprie-se da compaixão e do perdão de Deus, com o Salmo 103.11-14: 

Pois como os céus se elevam acima da terra,

assim é grande o seu amor para com os que o temem;

e como o Oriente está longe do Ocidente,

assim ele afasta para longe de nós as nossas transgressões.

Como um pai tem compaixão de seus filhos,

assim o Senhor tem compaixão dos que o temem;

pois ele sabe do que somos formados;

lembra-se de que somos pó.

Ao entrar no novo ano, quais experiências/sentimentos quero deixar para trás?

Reflita sobre Hebreus 12.1,2:

Portanto, também nós, uma vez que estamos rodeados por tão grande nuvem de testemunhas, livremo-nos de tudo o que nos atrapalha e do pecado que nos envolve e corramos com perseverança a corrida que nos é proposta, tendo os olhos fitos em Jesus, autor e consumador da nossa fé. Ele, pela alegria que lhe fora proposta, suportou a cruz, desprezando a vergonha, e assentou-se à direita do trono de Deus.
 

Em que me considero menos capaz que os outros?

Tenho relutado em pedir ajuda? Por quê?

Senhor, ajuda-me a abandonar as coisas e emoções que atrapalham minha caminhada.

Ajuda-me a me livrar das mágoas e raízes de amargura.

Eu quero seguir livre de tudo isto no novo ano que começa.

Eu quero me livrar do pecado que tenazmente me assedia. 

Eu peço e recebo o Teu perdão. 

Ajuda-me a manter meus olhos fixos em Jesus, para eu seguir com perseverança a jornada que está posta diante de mim.

RECOMEÇO E RESOLUÇÕES

Receba a orientação de Deus. Ore com o Salmo 25.4-6:
Mostra-me, Senhor, os teus caminhos,

ensina-me as tuas veredas;

guia-me com a tua verdade e ensina-me,

pois tu és Deus, meu Salvador,

e a minha esperança está em ti o tempo todo.

Como eu me sinto diante do novo ano? Quais são as minhas expectativas?

Estou ansioso com relação a alguma coisa?

Abra seu coração diante de Deus.

Senhor, o que Tu queres de mim neste novo ano?

Como Tu queres que seja diferente?

Estás me convidando a desenvolver alguma nova disciplina espiritual?

Fala, Senhor, pois o teu servo está ouvindo. (cf 1 Samuel 3.10)

Observe o depoimento de Paulo aos Filipenses 3.12-14:]

Não que eu já tenha obtido tudo isso ou tenha sido aperfeiçoado, mas prossigo para alcançá-lo, pois para isso também fui alcançado por Cristo Jesus. Irmãos, não penso que eu mesmo já o tenha alcançado, mas uma coisa faço: esquecendo-me das coisas que ficaram para trás e avançando para as que estão adiante, prossigo para o alvo, a fim de ganhar o prêmio do chamado celestial de Deus em Cristo Jesus.

Reflita sobre Romanos 8.28: Sabemos que Deus age em todas as coisas para o bem daqueles que o amam, dos que foram chamados de acordo com o seu propósito.

Mesmo quando você não perceber, Deus está trabalhando em sua vida.

Senhor, eu entrego a Ti o novo ano. Tu és o autor e consumador da minha fé. 

Eu me submeto à história que Tu estás escrevendo em mim e através de mim.

(Adaptado de Lectio 365)

Oseas Heckert é consultor de empresas e “aprendiz de poeta, ainda que tarde”. Escreve para www.antropogogia.net.

Leia mais:

“Ensina-nos a contar os nossos dias” , por Lili Yoshimoto

Nada é para sempre? , por Christian Gillis

Acolher o estranho e as nossas estranhezas

O que era estranho, passa a ser um “nosso”

Por Tânia de Medeiros Wutzki

Desde que conheci a realidade das pessoas em situação de refúgio, a causa me mobiliza.

Tenho aprendido com a teologia migrante, a perspectiva bíblica tanto sobre sermos acolhedores como princípios para o acolhimento. Aprendi que somos todos peregrinos, cidadãos de outro reino, e muitos de nós migramos ou nossos antepassados foram migrantes internos ou de fora do país. Como diz o slogan da Missão MAIS “Não são eles, somos nós”. Neste tempo, tenho percebido, também, avanços nas políticas públicas de acolhimento que orientam os serviços, algumas com influência/incidência de organizações cristãs. É bonito ver o que igrejas e organizações têm feito neste segmento.

Entre os conceitos bíblicos que dão base para a nossa prática está o da hospitalidade.

Vou citar apenas um texto: “Pratiquem a hospitalidade” (Rm 12.13b). Paulo inclui a hospitalidade na lista dos aspectos fundamentais para a vida cristã

A hospitalidade bíblica não se refere apenas a uma casa aberta, mas também a outras dimensões como espaço na agenda, tempo para escuta e liberalidade financeira.

Na minha caminhada, aprendi que a palavra hospitalidade no grego é philoxenia – que significa amigo do estranho, do estrangeiro. A Bíblia amplia bem mais o sentido da hospitalidade, que não é receber apenas nossos amigos, irmãos e irmãs, família estendida; é receber o estranho, aquele que desconheço ou que me desafia porque é diferente daqueles com quem convivo.

Acolher o estranho na sociedade, na comunidade, na igreja e na família é o desafio dos seguidores de Jesus.

O objetivo da hospitalidade e do acolhimento é o pertencimento, quando o que era estranho, passa a ser um “nosso”.

O contrário da philoxenia é uma palavra que não gostamos de ouvir, mas está presente em nossa sociedade: xenofobia – medo ou aversão ao estranho. Infelizmente pessoas em situação de refúgio vivenciam a xenofobia com frequência.

Recentemente, li uma reflexão que acrescentou uma outra dimensão na prática cristã da hospitalidade.

A abadessa Christine Valters Paintner nos convida a redescobrir a hospitalidade como um ato radical de pertencimento que começa dentro de nós.

Com base nos ensinos dos monges do deserto, pais da igreja, ela afirma que a prática da hospitalidade não é só com o outro, das relações externas da nossa vida, mas também conosco mesmos, com nossa vida interior, com as estranhezas que surgem ao longo da vida, fraquezas que nos desestruturam, nos tiram do eixo.

Christine nos convida: e “se, quando a vida começasse a desmoronar, eu abrisse meu coração para acolher a dor e o medo que também chegam, e se eu convidasse todos os sentimentos dolorosos de perda e desorientação para um chá com ternura?”

Quando acolhemos os nossos sentimentos estranhos, nos tornamos mais sensíveis para acolher o outro, estranho. A hospitalidade também pode ser uma experiência de dentro para fora, interna e externa.

Esta fase da vida 60+ pode nos trazer algumas estranhezas, sentimento de insegurança, fragilidade e incertezas.

Entre as estranhezas podemos encontrar, talvez, uma agenda que tem mais consultas e exames do que gostaríamos:

Talvez a solidão por não ter mais os relacionamentos do mundo do trabalho e o “ninho vazio”.

Talvez mais reflexão e pensamentos sobre a morte.

Talvez a constatação de que o corpo não está mais tão alinhado com a mente.

Talvez nossa tendência seja reclamar, rejeitar, negar estas estranhezas. Mas podemos ser hospitaleiros, acolhê-las (tomar um chá com elas) e depois, com serenidade, sabedoria e em oração, discernir, tomar decisões e lidar com elas de maneira acertada.

Meu desejo e oração é que nós, a partir da hospitalidade e do acolhimento das nossas estranhezas, estejamos abertos, sensíveis e disponíveis para acolher aqueles que o Senhor colocar em nosso caminho.

Tânia de Medeiros Wutzki foi coordenadora dos projetos sociais da FEPAS na Convenção Batista Independente, é conselheira da Rede Evangélica Nacional de Ação Social/RENAS, integra o grupo gestor do Projeto Retalhos de Esperança e o grupo base do Movimento 60+.

Imagem: Unsplash.

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A saúde como fundamento de uma vida plena

“Eu vim para que tenham vida, e a tenham plenamente.” (João 10.10)

Por Jorge Cruz

Ter uma boa saúde é o desejo de praticamente todas as pessoas, seja qual for o local onde vivem, a sua língua ou cultura. Em 1948, a Organização Mundial de Saúde (OMS) apresentou um conceito de saúde como sendo o “estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não só a ausência de doença ou enfermidade”. Esta definição tem a virtude de reconhecer que não basta o corpo estar bem para se ter saúde. Há outras dimensões que devem ser consideradas, entre as quais a dimensão mental e a social. Contudo, a definição de saúde da OMS parece-me irrealista e mesmo ingênua, pois não é de esperar que cada pessoa esteja a maior parte do tempo neste estado de completo bem-estar físico, mental e social, que mais se assemelha a um estado de êxtase ou de felicidade absoluta. Além disso, há situações em que a pessoa tem uma doença e pode não ter nenhum sinal ou sintoma, como acontece geralmente na hipertensão arterial e em estados iniciais de câncer.

Galeno, um famoso médico grego do século 2 da era cristã, apresentou uma definição de saúde bastante realista e equilibrada. Galeno considera a saúde o “estado em que nos sentimos capazes de fazer as coisas que desejamos fazer, com o mínimo de dor e desconforto”. É uma espécie de meio termo entre a doença incapacitante e uma saúde perfeita de difícil alcance. Nesse sentido, uma pessoa pode considerar-se saudável apesar de alguns condicionalismos de natureza física ou mental, desde que não a impeçam de realizar os seus projetos de vida.

Em 1984, na 37.ª Assembleia-Geral da OMS, foi aprovada a inclusão da dimensão espiritual na definição de saúde desta organização, embora não tenha sido adotada nos documentos oficiais de forma generalizada.

O que a Bíblia diz?

A Palavra de Deus revela o enorme valor da vida humana aos olhos do Criador, desde a concepção até à morte natural (Gn 1.27, Êx 20.13, Sl 139). Encontramos também nas Escrituras Sagradas algumas recomendações para promover a saúde física, mental e espiritual das pessoas.

O conceito hebraico de saúde (shalom) é mais dinâmico e abrangente que a definição da OMS, pois não só considera o ser humano uma entidade biopsicossocial e espiritual, como inclui a noção de plenitude, felicidade, prazer, paz e bem-estar, numa vertente pessoal e comunitária.

Na perspetiva bíblica, a dimensão espiritual é a base de todas as outras, não sendo possível haver saúde integral sem um relacionamento saudável com Deus e com o próximo. Além disso, este estado de saúde (shalom) só será totalmente desfrutado quando o Reino de Deus for finalmente estabelecido para sempre (cf. Fp 3.21, Ap 21.4).

A doença não faz parte dos planos originais do Criador, mas foi uma consequência da desobediência do homem e da mulher no Jardim do Éden (Gênesis 1-3). Parece teologicamente correto afirmar que as doenças estão direta ou indiretamente relacionadas com a atividade do diabo e das hostes demoníacas (cf. Jó 1-2). Como resultado da expulsão do Paraíso, a doença passou a fazer parte da condição humana. O ministério da redenção do Senhor Jesus Cristo também contempla a cura e libertação da doença e de todas as amarras dos poderes das trevas (Lc 4.18-19).

Paulo recorda aos coríntios, e a cada um dos crentes, que o nosso corpo físico, embora temporário, é onde o Espírito Santo habita, e por conseguinte, somos responsáveis perante Deus pelo modo como cuidamos dele. Diz o apóstolo: “Não sabeis que o vosso corpo é o templo do Espírito Santo, que habita em vós, proveniente de Deus, e que não sois de vós mesmos? Porque fostes comprados por bom preço; glorificai, pois, a Deus no vosso corpo, e no vosso espírito, os quais pertencem a Deus” (1Co 6.19-20).

Uma forma de se promover a saúde, e uma das primeiras a ser estabelecidas por Deus, é a necessidade de descansarmos, não apenas durante o sono mas também um dia por semana: “Lembra-te do dia do sábado, para o santificar. Seis dias trabalharás, e farás toda a tua obra. Mas o sétimo dia é o sábado do Senhor teu Deus; não farás nenhuma obra…” (Êx 20.8-10).

Há também inúmeras advertências na Palavra de Deus acerca dos malefícios do consumo de bebidas alcoólicas, como p. ex. Provérbios 23.29-33.

A moderação e autodomínio são virtudes cristãs (cf. Gl 5.22, Fp 3.18-19) que podem ser aplicadas à forma equilibrada como nos devemos alimentar e a todas as áreas da vida. Lemos em Provérbios 25.16: “Achaste mel? Come o que te basta; para que, porventura, não te fartes dele, e o venhas a vomitar”.

Uma atitude de gratidão e contentamento por todas as dádivas que recebemos de Deus (cf. 1Ts 5.18), e a entrega dos problemas e preocupações ao Senhor, em oração, são outras maneiras de desenvolvermos a nossa saúde mental e emocional, e combatermos o estresse. Paulo exortou os Filipenses: “Não estejais inquietos por coisa alguma, antes, as vossas petições sejam em tudo conhecidas, diante de Deus, pela oração e súplicas, com ação de graças. E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará os vossos corações e os vossos pensamentos em Cristo Jesus” (Fp 4.6-7).

Evidências científicas

Contrariamente ao que defendia Freud, que a religião era a causa de neuroses e outras perturbações mentais, é hoje reconhecido o papel altamente positivo da fé para a saúde das pessoas.

O Dr. Harold Koenig, psiquiatra americano, na sua obra autobiográfica The Healing Connection, relata como experimentou a cura de problemas mentais de que padecia desde a adolescência, a partir do momento em que entregou a sua vida a Jesus (p.87). É atualmente um dos principais pesquisadores, a nível mundial, sobre os efeitos da fé e prática religiosas na saúde física e mental, sendo autor e coautor de mais de 35 livros e de centenas de artigos científicos sobre o assunto.

As evidências científicas dos benefícios para a saúde das crenças religiosas, com destaque para a fé cristã, são avassaladoras. Incluem redução da incidência de ansiedade e depressão, consciência do sentido da vida, recuperação mais rápida de estados depressivos e outros problemas de saúde, menor consumo de álcool, tabaco e outras substâncias nocivas, sistema imunitário mais robusto, menor incidência de hipertensão arterial, menores taxas de suicídio, e uma atitude de maior otimismo e esperança em relação ao futuro. Há igualmente uma correlação estatisticamente significativa entre o grau de envolvimento religioso e a mortalidade em geral. As pessoas mais envolvidas nas suas comunidades de fé vivem mais tempo que as que têm uma postura mais passiva e menos participativa na sua igreja local. Um estudo realizado entre afro-americanos revelou que os que participavam nas atividades religiosas mais do que uma vez por semana tinham uma esperança de vida 14 anos superior aos que não frequentavam a igreja (Koenig, p. 133).

O principal problema encontrado entre os cristãos, que se repercute negativamente na saúde, é o excesso de peso, para o que poderá contribuir a participação regular em eventos sociais nas igrejas, envolvendo alimentos ricos em açúcar e gordura e altamente calóricos.

Como melhorar a saúde?

As doenças cardiovasculares e oncológicas, as duas principais causas de morte no mundo, são influenciadas por fatores de risco comportamentais relacionados com o estilo de vida. Cerca de 20% dos vários tipos de câncer estão relacionados com o consumo de tabaco, 10% com o excesso de peso e 8% com o consumo de bebidas alcoólicas. Algumas formas de prevenir estas doenças são uma alimentação saudável, controlar o peso e a tensão arterial, praticar exercício físico, ter bons hábitos de sono, evitar o consumo de álcool, não consumir tabaco, evitar comportamentos de risco (p. ex. na circulação rodoviária) e fazer periodicamente exames de rastreio sob supervisão médica.

A obesidade, considerada uma epidemia dos tempos modernos, é infelizmente cada vez mais frequente entre os cristãos. Alguns dos problemas de saúde relacionados com o excesso de peso são a hipertensão arterial, a doença coronária, o acidente vascular cerebral, a diabetes tipo 2, vários tipos de câncer, lesões osteoarticulares, infertilidade, asma, depressão, doenças renais e hepáticas, e a apneia do sono.

Pequenas mudanças na forma como nos alimentamos poderão fazer uma grande diferença no controle do excesso de peso e na melhoria do estado de saúde. Algumas das mais importantes incluem: fazer uma alimentação variada, aumentar o consumo de vegetais, reduzir o consumo de hidratos de carbono e açúcar, evitar o consumo de alimentos ultraprocessados (refrigerantes, biscoitos, salsichas, etc.), e incluir alimentos fermentados na dieta (kefir, kombucha, etc.). Para quem não é diabético e não tem outras doenças que o impeçam, é aconselhável fazer uma pausa alimentar diária de 12-14h, incluindo o período de sono noturno.

Conclusão

Todos os cristãos nascidos de novo podem estar seguros de que receberão novos corpos quando o Senhor Jesus voltar (1Co 15.40-44), adequados para viverem na Sua presença nos novos céus e nova terra. Mas enquanto vivermos neste mundo, para podermos cumprir cabalmente o nosso chamado e missão, somos responsáveis pela nossas ações, nomeadamente pela forma como cuidamos (ou não) da nossa saúde.

O plano de Deus para cada um dos Seus filhos é que tenham uma vida plena e abundante (Jo 10.10), neste mundo e na eternidade, que se traduz numa boa saúde e bem-estar, a nível físico, mental, social e espiritual. As recomendações milenares que encontramos na Palavra de Deus continuam a ser relevantes para desfrutarmos de boa saúde, na nossa sociedade moderna, tal como têm sido ao longo da história da humanidade. E, como seria de esperar, têm sido corroboradas por inúmeros estudos científicos.

Jorge Cruz é médico especialista em angiologia e cirurgia vascular, doutor em bioética, membro do Comitê de Países de Língua Portuguesa da International Christian Medical & Dental Association (ICMDA), membro honorário da Associação Cristã Evangélica de Profissionais de Saúde (ACEPS-Portugal), membro do Conselho Internacional da PRIME – Partnerships in International Medical Education. Mora em Porto, Portugal.

Bibliografia

Bunn, A. & Randall, D. (2011). Health benefits of Christian faith. CMF Files 44. Christian Medical Fellowship. https://www.cmf.org.uk/resources/publications/content/?context=article&id=25627

Fergusson, A. (1993). Health: The strength to be human. Inter-Varsity Press.

Koenig, H. G. & Lewis, G (2000). The Healing Connection: The story of a physician’s search for link between faith and science. Templeton Foundation Press.

Saunders, P. (2014). The Human Journey: Thinking biblically about health. Christian Medical Fellowship.

Imagem: Unsplash.

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Celebração de 90 anos do Instituto Bíblico Betel Brasileiro inclui lançamento de pedra fundamental do Lar Doris Woodley

Casa de apoio acolherá missionárias idosas e ex-alunas do Betel

Entre as diversas atividades em comemoração aos 90 anos do Instituto Bíblico Betel Brasileiro (IBBB), o lançamento da pedra fundamental do Lar Doris Woodley marcou o evento de maneira especial.

O Lar será uma casa de apoio para missionárias idosas e ex-alunas do Betel Brasileiro, e o nome escolhido é uma homenagem à missionária Doris Woodley que dedicou trinta anos de serviço na formação de obreiras ao lado das missionárias Ernestine Horne e Lídia Almeida, fundadoras do Betel Brasileiro.

O evento de lançamento da pedra fundamental foi organizado pela Dra. Durvalina Barreto Bezerra, diretora do CETEMIBB, com ampla participação da comunidade betelina, incluindo a missionária Eva Rêgo, presidente do Instituto Bíblico Betel Brasileiro, que destacou a importância do projeto para a missão de amparo às missionárias.

O Lar recebeu como doação o projeto da casa feito por uma arquiteta, um engenheiro que assumiu a obra, o acompanhamento da obra pelo tesoureiro do IBBB e investimentos de amigos, ex-alunos.

Instituto Bíblico Betel Brasileiro – uma história que começou com fé e sacrifício
Em 29 de fevereiro de 1934, Nelie Ernestine Horne, missionária canadense, desembarcou no Porto de Recife, PE, trazendo um sonho plantado por Deus em seu coração. No ano seguinte, em 1935, ela fundou o Instituto Bíblico Betel na cidade de Patos, no interior da Paraíba, com o objetivo de preparar mulheres brasileiras para o evangelismo e a educação cristã.

Em 1968, a professora Lídia Almeida de Menezes assumiu a liderança, oficializou o nome “Betel Brasileiro” e transferiu a sede para João Pessoa, PB. Foi sob sua gestão que a primeira turma oficial se formou em 1969, com alunas como Iris Almeida, Dion Fernandes e Duvalina Bezerra.

Atualmente, o Betel possui 27 polos espalhados pelo Brasil, 2 unidades no exterior, 312 professores e mais de 1.432 alunos de centenas de igrejas e denominações. O ensino a distância, oferecido pela plataforma EDBEL, alcança outros quatrocentos alunos no Brasil e em diversos países. Desde sua fundação, a instituição já formou mais de 4 mil alunos, que atuam como pastores, missionários, tradutores bíblicos, professores e líderes em todos os continentes.

Lâmpadas com pouco azeite

Por Wilfried Korber

Das dez virgens que saíram a encontrar-se com o noivo, cinco se descuidaram, e esqueceram de levar azeite suficiente para suas lâmpadas. O encontro seria no meio da noite, e não havia iluminação pública.

Diz, então, a Palavra de Deus em Mateus 25.3-8: “Surpreendidas, porque haviam adormecido, disseram às outras cinco companheiras: Dai-nos do vosso azeite, porque as nossas lâmpadas estão se apagando.” Elas haviam adormecido e não vigiado. O noivo veio no meio da noite e elas estavam despreparadas.

Que lição temos a aprender?

O noivo (Jesus) está chegando (muito em breve). O dia e a hora ninguém sabe. Precisamos estar preparados e vigilantes. As lâmpadas acesas representam nossa vida de fé e ação. Sem luz, ficamos no escuro. Acabamos numa situação comparável aos irmãos de Laodiceia, que se consideravam ricos e suficientes, mas Jesus lhes disse: “… nem sabes que tu és infeliz, sim, miserável, pobre, cego e nu”. Ou então, ainda, como os de Éfeso, aos quais Jesus disse: “Tenho, porém, contra ti que abandonaste o teu primeiro amor. Arrepende-te, e volta à prática das primeiras obras; e, senão, venho a ti e moverei do seu lugar o teu candeeiro, caso não te arrependas”. Nesses dois casos, apesar da situação, vislumbrava-se uma possibilidade de restauração, mas na parábola de Jesus, o noivo declarou às cinco néscias: “Eu em verdade vos digo, que não vos conheço!” E fechou-se a porta. Escrevi esse comentário para lembrar que Jesus está voltando, e precisamos estar preparados. No meio do povo de Deus, infelizmente, encontramos aqueles cujas lâmpadas estão vazias, e não há azeite disponível na chegada do noivo. As prudentes não vão poder ceder do seu azeite, pois poderá faltar para elas. Todo cuidado é pouco. O azeite corresponde a uma vida de comunhão com Deus. É o Seu Espírito em nós.

Wilfried Körber nasceu em Göttingen na Alemanha em 1931 e vive no Brasil desde 1937. Converteu-se aos 16 anos na então Igreja Alemã Batista Zoar, frequentada por sua mãe. Membro fundador da Igreja Batista Filadélfia de São Paulo, envolveu-se com o trabalho de evangelização de crianças e missões, com sua esposa Gisela, de saudosa memória. Há mais de uma década escreve textos para o devocionário Presente Diário. Atualmente vive em Sorocaba, SP. @lampadaparaosmeuspes_.

Imagem: Unsplash.

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