Buscar o Senhor e entregar-nos à sua vontade é um processo de redirecionar nosso coração e transformar nossa alma para toda a vida
Por Mark D. Roberts

Esta é a Parte 2 de uma série de artigos sobre o tema: “Esclarecendo seu propósito na terceira idade”. Na Parte 1, eu disse que estava respondendo a uma pergunta de um amigo que me perguntou: “Se alguém em nossa fase da vida não tem uma noção clara de propósito, existe algum processo pelo qual essa pessoa possa descobri-lo?”
Expliquei na Parte 1 que não acredito que exista um único processo que leve todas as pessoas a entender com clareza qual é o seu propósito. O que tenho aprendido recentemente confirma essa convicção. No boletim eletrônico Third Third Life de junho de 2022, pedi às pessoas que me enviassem suas respostas às seguintes perguntas:
1. Se você tem uma noção relativamente clara de seu propósito na terceira idade, de onde veio essa clareza? Como você discerniu seu propósito para esta fase da vida?
2. Se você não tem muita clareza sobre seu propósito na terceira idade, o que parece estar impedindo essa clareza?
3. Se você fosse sugerir uma única coisa que alguém pudesse fazer para obter maior clareza sobre seu propósito, qual seria essa coisa?
Recebi respostas de pelo menos algumas dezenas de pessoas, às quais sou muito grato. Agradeço pelo que compartilharam comigo. Descobri que, de fato, as pessoas chegam a uma compreensão de seu propósito por caminhos diferentes. Não existe uma abordagem que sirva para todos. Também me chamou a atenção o fato de que muitas pessoas na terceira idade ainda estão desenvolvendo sua noçāo de propósito. Elas já descobriram algumas coisas, enquanto outras ainda precisam ser discernidas. Por exemplo, uma pessoa que me escreveu sente-se chamada a se dedicar de maneira mais constante a seus netos e filhos (não apenas aos netos, diga-se de passagem). Mas ela não tem certeza do que mais Deus tem para ela fazer. Ela sabe que há mais e ainda está em um processo de discernimento.
Embora eu não ache que exista um caminho perfeito para descobrir seu propósito, estou convencido de que há coisas que podemos fazer para obter maior clareza sobre o nosso propósito. Não devemos simplesmente ficar esperando até termos certeza qual é nosso propósito na terceira idade. Um homem que me escreveu enfatizou a importância de agir ativamente, experimentar possibilidades, explorar opções e aprender com a experiência vivida. Seu conselho combina com uma das sugestões que apresentarei mais adiante: “#9 – Experimente para avançar”.
Na Parte 1 desta série, comecei com a primeira de dez sugestões de coisas que você pode fazer para esclarecer seu propósito: #1 – Comprometa-se com o propósito de Deus para todas as coisas, inclusive para sua vida. Os cristãos não começam a discernir seu propósito procurando dentro de si mesmos ou prestando atenção às necessidades do mundo, embora ambas as coisas sejam importantes. Em vez disso, começam a esclarecer seu propósito dando atenção e refletindo sobre o propósito de Deus para todas as coisas, inclusive para si mesmos.
Na Parte 2, gostaria de considerar as sugestões 2 e 3:
Sugestão 2. Busque o Senhor em oração e entregue-se à vontade de Deus
Sugestão 3. Preste atenção à maneira como Deus criou você e aos dons que lhe concedeu
Sugestão 2: Busque o Senhor em oração e entregue-se à vontade de Deus
As Escrituras nos ensinam repetidamente a pedir a Deus, em oração, aquilo que desejamos. Jesus, por exemplo, diz: “Peçam, e será dado; busquem, e encontrarão; batam, e a porta será aberta” (Mt 7.7). Certamente é apropriado pedir ao Senhor coisas específicas relacionadas ao seu propósito na terceira idade. Você pode pedir a Deus que o guie, inspire e capacite.
Mas também o encorajo a se oferecer a Deus enquanto ora, entregando sua vida a Deus e permanecendo aberto ao propósito gracioso que ele tem para você. Jesus nos ensina a dizer ao nosso Pai celestial: “Venha o teu Reino; seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu” (Mt 6.10). Quando oramos “Seja feita a tua vontade”, estamos implicitamente acrescentando: “E não a minha vontade”. Alguns versículos depois, em Mateus, Jesus acrescenta: “Busquem, pois, em primeiro lugar o Reino de Deus” (Mt 6.33, NVI). Quando fazemos isso, estamos escolhendo a vontade de Deus em vez da nossa própria, entregando-nos à soberania graciosa de Deus. De maneira profunda, Jesus nos mostra esse tipo de oração no Getsêmani, quando ora: “Aba, Pai, tudo te é possível. Afasta de mim este cálice; contudo, não seja o que eu quero, mas sim o que tu queres” (Mc 14.36).
Embora buscar o Senhor em oração seja algo que faço com frequência, confesso que acho mais difícil entregar-me a Deus. O fato é que eu realmente quero aquilo que quero. No entanto, à medida que cresço em Cristo, estou aprendendo lentamente a entregar mais de mim a Deus. Fui ajudado nesse processo de crescimento por uma oração de Santo Inácio conhecida como “Suscipe”. Suscipe é uma palavra latina que significa “receber ou tomar” e é a primeira palavra dessa oração de Santo Inácio em latim. A Suscipe diz o seguinte:
Toma, Senhor, e receba toda a minha liberdade, minha memória, meu entendimento e toda a minha vontade. Tudo o que tenho e considero meu. Você me deu tudo. A você, Senhor, eu o devolvo. Tudo é seu; faça com isso o que quiser. Me dê apenas o seu amor e a sua graça. Isso é suficiente para mim.
Faço essa oração todas as manhãs durante meu momento devocional. Eu consigo dizer as palavras, mas tenho dificuldade em entendê-las com todo o coração. Compartilhei essa luta com um amigo de terceira idade que, para minha surpresa, também ora a Suscipe todos os dias e também acha difícil dizê-la sem reservas. Será que o amor e a graça de Deus seriam realmente suficientes para ele?
Fui encorajado pela sinceridade de meu amigo. Sua luta, tão semelhante à minha, lembrou-me de que buscar o Senhor e entregar-nos à sua vontade não é algo que fazemos uma vez e depois seguimos em frente. Pelo contrário, é um processo de redirecionar nosso coração e transformar nossa alma para toda a vida. Esse redirecionamento e essa transformação acontecem como resposta à graça de Deus. Nossa experiência da bondade ilimitada de Deus nos permite orar com mais verdade e plenitude: “Seja feita a tua vontade”.
Sugestão 3: Preste atenção à maneira como Deus criou você e aos dons que lhe concedeu
O Salmo 139.14 contém esta frase memorável e comovente: “Eu te louvo porque me fizeste de modo especial e admirável”. Cada ser humano é uma criação única de Deus. Embora o pecado corrompa a bondade da criação, cada pessoa ainda carrega a imagem de Deus. Cada pessoa é “feita de modo especial e admirável”, inclusive você.
Deus lhe deu talentos, habilidades, pontos fortes, traços de personalidade, valores, percepções e dons espirituais distintos. Você desenvolveu e usou essas características ao longo de sua vida. Ao entrar na terceira idade, poderá usar muitos desses dons, talvez de maneiras novas. Por exemplo, durante sua vida profissional em tempo integral, talvez você fosse supervisor de trabalhadores mais jovens. Agora, se estiver aposentado, poderá usar algumas dessas mesmas habilidades para orientar pessoas mais jovens no ambiente de trabalho, na igreja ou em escolas carentes de sua cidade. Também é bastante possível que você desenvolva novas habilidades à medida que envelhece.
Narrativas negativas comuns sobre o envelhecimento exageram a perda de capacidades à medida que as pessoas envelhecem. Certamente, os adultos mais velhos não conseguem fazer tudo o que um dia foram capazes de fazer. As pesquisas sobre o envelhecimento confirmam o que sabemos por experiência pessoal. Meus joelhos não me permitem mais correr, embora eu ainda adore fazer trilhas. E acho mais difícil lembrar nomes, embora geralmente um nome esquecido volte magicamente à minha mente horas depois de eu ter precisado usá-lo. É verdade que algumas pessoas vivenciam perdas significativas e dolorosas no início da velhice, como a demência de início precoce. Mas a maioria dos adultos mais velhos continua tendo habilidades consideráveis, com alguns se tornando mais fortes com a idade. Pesquisas mostram, por exemplo, que cérebros mais velhos são mais integrados do que cérebros mais jovens. Como escreve o psicólogo geriátrico Gene Cohen: “A complexa arquitetura neural dos cérebros mais velhos, construída ao longo de anos de experiência, prática e vida cotidiana, é uma força fundamental dos adultos mais velhos”.1 As implicações desse desenvolvimento cerebral são profundas. Por exemplo, em From Strength to Strength, Arthur Brooks, professor de liderança em Harvard, observa: “Quando você é jovem, tem inteligência bruta; quando é velho, tem sabedoria. Quando é jovem, consegue gerar muitos fatos; quando é velho, sabe o que eles significam e como usá-los”.2
Se você não tem certeza sobre seus talentos, habilidades, pontos fortes, traços de personalidade, valores e dons espirituais, recomendo que pergunte a pessoas que o conhecem bem. Elas ajudarão você a enxergar aspectos de si mesmo que talvez não consiga perceber sozinho. Além disso, você também poderá encontrar ferramentas úteis que identifiquem seus pontos fortes, suas motivações e sua personalidade.3
Nenhuma dessas ferramentas domina o mercado de identificação de “quem você realmente é”. Na minha experiência, cada uma delas pode ajudá-lo a enxergar coisas sobre si mesmo que talvez nunca tivesse percebido. Além disso, elas podem esclarecer e confirmar aspectos de você que ajudarão a discernir seu propósito na vida. Por exemplo, quando fiz a avaliação CliftonStrengths, ela confirmou que sou uma pessoa bastante “intelectual”. A maioria dos meus principais pontos fortes está no domínio “Pensamento Estratégico”. Não é nenhuma surpresa. Mas meu segundo ponto forte é Realizador (Achiever), o que ajuda a explicar por que não trabalho em tempo integral no meio acadêmico. Tenho uma inclinação natural para construir coisas, e não apenas estudá-las e escrever sobre elas. Eu percebia isso em mim durante a pós-graduação, mas nunca consegui expressá-lo plenamente até fazer o que então se chamava StrengthsFinder.
Ao prestar muita atenção à maneira como Deus criou você e aos dons que lhe concedeu, você será ajudado no esforço de esclarecer seu propósito na terceira idade. Essa sugestão, por si só, não responderá a todas as suas perguntas sobre propósito e vocação. Mas permitirá que você diga com maior confiança: “Qualquer que seja meu propósito no futuro, isso me ajudará a exercer esses dons, pontos fortes etc”.
Conclusão
Até agora, apresentei três das dez sugestões para esclarecer seu propósito na terceira fase da vida:
Sugestão 1: Comprometa-se com o propósito de Deus para todas as coisas, inclusive para sua vida.
Sugestão 2: Busque o Senhor em oração e entregue-se à vontade de Deus.
Sugestão 3: Preste atenção à maneira como Deus criou você e aos dons que lhe concedeu.
Na Parte 3 desta série, passaremos às próximas sugestões. Aqui vai uma pequena prévia. A Sugestão 4 começa como a Sugestão 3: “Preste atenção a…”. Como você completaria essa frase?
Notas
1. Cohen, Gene. The Mature Mind, p. 8.
2. Brooks, Arthur. From Strength to Strength, p. 27.
3. Exemplos de testes de avaliação sāo: CliftonStrengths (anteriormente StrengthsFinder); Enneagram Institute; Myers & Briggs.
Mark D. Roberts, pesquisador sênior do Max De Pree Center da Fuller para liderança, onde foca no desenvolvimento espiritual e no desenvolvimento dos líderes.
Artigo publicado originalmente em Clarifying Your Purpose in the Third Third of Life, Part 2, por Mark D. Roberts. Reproduzido com permissão da Max DePree Center for Leadership, www.depree.org.
Tradução: James Chen
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