Andando com Deus

Por Wilfried Körber

Se examinarmos a Bíblia, vamos encontrar muitos que, pelo seu andar em obediência e justiça, foram considerados íntegros e isso agrada a Deus.

Imagem: Vincent van Gogh, Estrada com cipreste e estrela, 1890. Domínio público

Há alguns dias, escrevi um texto com o título: “Andando dia e noite com o Senhor”. O povo, com Moisés, andava pelo deserto e Deus os guiava, de dia numa nuvem e de noite numa coluna de fogo. Esse episódio é conhecido, e poucos percebem a grande mensagem que contém. Ser guiado por Deus pelos caminhos do deserto, recebendo proteção e direção é uma coisa, e andar com Deus, como Enoque fazia, tem outra profundidade. Enoque, da sétima geração depois de Adão viveu em comunhão com Deus e isso mereceu destaque. Enoque viveu 365 anos, uma vida curta para sua época, e sua biografia é muito reduzida. O versículo 24 do quinto capítulo de Genesis diz: “Andou Enoque com Deus, e já não era, porque Deus o tomou para si”. Outro relato, agora no Novo Testamento, em Hebreus 11.5 diz: “Pela fé Enoque foi trasladado para não ver a morte; não foi achado porque Deus o trasladara. Pois antes da sua trasladação, obteve testemunho de haver agradado a Deus”.

Poderíamos perguntar: “Como é andar com Deus? O que Deus requer?”. A resposta está no próprio texto: “De haver agradado a Deus”. Poderíamos ainda fazer outra pergunta: “Com que podemos agradar a Deus?” Pode haver muitas respostas. Vamos olhar para um detalhe da vida de Salomão.

Em 1 Reis 3 lemos que Deus agradou-se de Salomão. Primeiro, Salomão amava ao Senhor, andando nos preceitos de Davi (3.3). Por conta desse amor, Salomão foi ao lugar mais alto da região, e ofereceu mil holocaustos em um altar. Como consequência, Deus apareceu a Salomão em sonhos, e lhe disse: “Pede-me o que queres que eu te dê”. Diz ainda o texto:

“Respondeu Salomão: De grande benevolência usaste para com teu servo Davi, meu pai, porque ele andou contigo em fidelidade, e em justiça, e em retidão de coração, perante a Tua face; mantiveste-lhe esta grande benevolência e lhe deste um filho que se assentasse no seu trono, como hoje se vê. Agora, pois, ó Senhor meu Deus Tu fizeste reinar este Teu servo em lugar de Davi, meu pai; não passo de uma criança, não sei como conduzir-me. Teu servo está no meio do Teu povo que elegeste, povo grande, tão numeroso que se não pode contar. Dá, pois, ao teu servo coração compreensivo para julgar a este grande povo? Estas palavras agradaram ao Senhor…”

Não sabemos o que Enoque fez, mas em Hebreus11.5 lemos que ele obteve testemunho de haver agradado a Deus. Se continuarmos examinando outros vultos da Bíblia, vamos encontrar muitos que pelo seu andar em obediência e justiça foram considerados íntegros e isso agrada a Deus. Vamos imitá-los?


Wilfried Körber nasceu em Göttingen na Alemanha em 1931 e vive no Brasil desde 1937. Converteu-se aos 16 anos na então Igreja Alemã Batista Zoar, frequentada por sua mãe. Membro fundador da Igreja Batista Filadélfia de São Paulo, envolveu-se com o trabalho de evangelização de crianças e missões, com sua esposa Gisela, de saudosa memória. Há mais de uma década escreve textos para o devocionário Presente Diário. Atualmente vive em Sorocaba, SP. @lampadaparaosmeuspes_.

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O abismo entre gerações é irreconciliável?

O exercício de uma paternidade sábia é uma longa jornada compartilhada, e é no caminho que adquirimos a sabedoria

Por Tiago Pereira

Quando os filhos nascem, nós imediatamente passamos a ocupar essa curiosa (e inédita) posição equidistante entre duas gerações: a dos netos e a dos avós. Um lugar privilegiado que os pais têm para assistir de camarote os extremos agridoces da vida. E quando a distância entre a primeira e a terceira geração envolve pessoas que nasceram em milênios diferentes, parece que se forma um abismo grande demais para ser superado. Ainda mais quando percebemos que o tempo entre gerações parece estar cada vez menor. Se gerações familiares giram em torno de 25 anos, o espaço geracional dentro da sociedade parece não seguir mais esse padrão e agora os intervalos se reduziram a não mais que 10 anos. A geração Z dos nativos digitais nascidos a partir do ano 2000 já deu espaço para a geração Alfa, que se iniciou em 2010, e esta já está dando espaço para a geração C, a geração dos bebês nascidos na pandemia de Covid (ou se preferir, os coronials, como já são chamados). 

A época em que você nasce não precisa moldar exatamente quem você é

Claro que os limites entre as gerações são fluidos e certamente há controvérsias entre os intervalos e as datas. Mas a pergunta que queremos fazer, no entanto, é: esse abismo intergeracional existe de fato? O cientista social Bobby Duffy parece discordar, pelo menos em parte, como afirma o subtítulo de seu livro lançado em 2021, intitulado “O mito geracional: por que quando você nasceu importa menos do que imagina” (The Generation Myth: Why When You”re Born Matters Less Than You Think, sem tradução). O autor do livro vê com preocupação a segregação etária percebida em muitas sociedades ocidentais nos últimos anos, mas atribui o problema a questões sociais mais profundas do que apenas o conflito entre gerações. Para ele, a “tensão” entre diferentes gerações não é apenas natural, mas essencial e benéfica para a sociedade, e tendo a concordar com ele. O ser humano é profundamente relacional e isso sempre deverá extrapolar a barreira geracional. É nisso que reside, por exemplo, a beleza e a dinâmica de uma comunidade cristã saudável. É nesse contato que conseguimos perceber como encontrar pontos de convergência, aprendizado mútuo e cuidado. O exercício de encontrar semelhanças entre gerações, aliás, pode ser um importante antídoto para evitar o problema de criar rótulos geracionais e acabar alimentando mais uma espécie de horóscopo moderno, como muitos que vemos por aí. A época em que você nasce não precisa moldar exatamente quem você é.

Como um típico millennial nascido nos anos 80, nutro certo orgulho de ser parte da última geração que navega com tranquilidade entre dois mundos com tempos e ritmos totalmente opostos: vi o mundo analógico das fitas magnéticas, das televisões de tubo e das fichas de telefone dar espaço para o mundo digital incessantemente conectado dos aparelhos celulares. Hoje tenho um casal de filhos nativos digitais que são geração alfa e que lidarão com robôs melhor do que eu, mas nunca entenderão a expressão “a ficha caiu”. Não sei o quanto o abismo entre mim e eles irá crescer com o passar dos anos e isso, de fato, só o futuro dirá. Mas do meu ponto referencial, quero voltar agora para o abismo que existe entre mim e a geração dos meus pais, os queridos avós, representantes paleolíticos da idealista, conservadora e disciplinada geração de baby boomers (aquela nascida no pós-guerra até o início dos anos 60). 

Dentre tantas diferenças entre nossas gerações, o exercício da criação de filhos parece ser um dos exemplos mais emblemáticos. Ser pai perto dos avós não é tarefa simples, mas talvez nunca tenha sido, apesar de a Bíblia não nos relatar o relacionamento entre Abraão e seus netos gêmeos. Criar filhos perto dos avós é viver tentando conciliar as expectativas de ambos os lados. Filhos que querem ser mimados e avós que querem mimá-los (mas que também reclamam se os mimamos). E uma parte do problema parece estar nas nossas percepções sobre autoridade e disciplina. Nenhuma das gerações despreza esses valores, e um pai millennial está tão preocupado com isso quanto um pai boomer, mas é inegável que a pluralidade de ideias na praça pública traz certa nebulosidade sobre o assunto.

Minha geração foi criada num mundo com visões ainda razoavelmente tradicionais e conservadoras sobre família, masculinidade, feminilidade e papéis do homem e da mulher. Essas visões, no entanto, cada vez mais se dissolvem no mundo contemporâneo. Vale lembrar, por exemplo, que a família típica dos cartazes americanos que vendeu essa ideia para nossos pais não passa no teste da história da humanidade e muito menos é o modelo de família cristã que as Escrituras mostram. Nesse caldeirão, os pais millennials, pertencentes a uma geração mais questionadora e flexível a mudanças que as anteriores, parecem estar numa busca constante por entender o que significa exercer autoridade sem autoritarismo, masculinidade sem opressão, disciplina sem tirania e respeito além dos pronomes de tratamento. Mas se esses valores parecem ser tão fluidos na cultura moderna e se não há limites para a literatura sobre o tema, talvez a melhor opção seja mesmo direcionar essa busca para as Escrituras que reconhecemos, enquanto cristãos, como autoridade divinamente inspirada.

Apontar e ir junto no caminho

Pais cristãos, afinal, irão concordar que a nós é exigido criar os filhos segundo a instrução e o conselho do Senhor (Efésios 6:4). Uma coisa bem diferente, porém, é entender qual é a instrução e qual é o conselho do Senhor. Uma ideia é olhar para a Lei do Senhor e para os Livros de Sabedoria, mas também entender que há um caminho importante a ser trilhado entre eles para não se confundir as coisas. A literatura hebraica de Sabedoria não é normativa – não é lei – mas quer nos mostrar que a busca pela sabedoria deve estar condicionada e submissa ao próprio Deus. Quando Provérbios 22:6 nos diz para ensinarmos “a criança no caminho em que deve andar”, nem sempre nos atentamos suficientemente à ideia de que a sabedoria só será formada durante uma longa jornada com o próprio Deus. Não há sabedoria verdadeira fora desse relacionamento. O salmista afirma que as palavras de Deus são mais doces que o mel (Salmos 119:103), e o livro de Deuteronômio nos ordena a conversar “sobre elas quando estiver sentado em casa, quando estiver andando pelo caminho, quando se deitar e quando se levantar” (Dt 6:7). Não é apenas sobre apontar o caminho, mas antes, sobre ir junto no caminho.

Toda dificuldade para entender aqueles valores universais que aparentemente confundem as gerações, no fim, devem estar submetidos a esta realidade: o exercício de uma paternidade sábia é uma longa jornada compartilhada, e é no caminho que adquirimos a sabedoria. Não é à toa que o Cristo seja ao mesmo tempo a Palavra, o Caminho e a própria Sabedoria encarnada. Uma paternidade submissa a Deus, portanto, é uma paternidade cristocêntrica. Se olhar para Cristo nos revela o que é ser verdadeiramente humano, o que é ser imagem de Deus e o que é viver como parte do Reino, então olhar para Cristo irá nos revelar como devemos ser pais (mesmo que Jesus não tenha tido filhos enquanto viveu entre nós). Por isso, as palavras do profeta a todos os homens também deveriam ser incorporadas pelos pais que querem exercer uma paternidade cristocêntrica: “Ele mostrou a você, ó homem, o que é bom e o que o Senhor exige: Pratique a justiça, ame a fidelidade e ande humildemente com o seu Deus” (Miquéias 6:8). No fim do dia, minha oração é que essa seja a imagem que meus filhos vejam diariamente em mim. A imagem do Cristo que se esvazia, se humilha e que se faz servo. Que eles sejam discípulos nessa caminhada com Jesus e aprendam a amar a esse Deus que tanto os amou.

O ponto fundamental da vida é a caminhadaFinalmente, quero voltar a atenção para os conflitos entre as gerações. Se Deus em Cristo estava reconciliando consigo o mundo e nos confiou a mensagem da reconciliação (2 Coríntios 5:19), então os abismos intergeracionais podem, sim, e devem ser reconciliados. Os recortes geracionais podem nos fazer esquecer que o ponto fundamental da vida é a caminhada, e as características que definem uma geração não são, afinal, escritas em pedra. Olhando para o livro dos Provérbios, é interessante perceber como o autor vai compilando seus ensinos e conselhos ao longo de uma jornada. Salomão vive e participa das gerações de seu tempo, observa e aprende com elas enquanto caminha. Ao olhar para o livro de Eclesiastes, no entanto, o autor parece partir de outra perspectiva, um panorama da vida a partir da janela da velhice. Podemos dizer que ele está vendo que os abismos intergeracionais de sua época – como na nossa – eram pura vaidade. Se o ponto de partida do livro dos Provérbios é o temor do Senhor, esse se torna a conclusão do autor do Eclesiastes, que encontra a Sabedoria ao final de suas reflexões e conclui: “Tema a Deus e guarde os seus mandamentos, pois isso é o essencial para o homem” (Eclesiastes 12:13). 

Tiago Pereira é biólogo formado pela Universidade Federal de Viçosa, mestre e doutor em botânica também pela UFV, com pós-doutorado em Biologia Molecular e Filogeografia. Atualmente, faz parte da equipe de trabalho da Associação Brasileira de Cristãos na Ciência (ABC2) como coordenador nacional dos Grupos de Estudo. É membro da igreja presbiteriana, casado com Eliza e pai de Pedro e Maria Clara.

Artigo publicado originalmente no site Ultimatoonline. Reproduzido com permissão.

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Entre gerações, por Karen Bomilcar

Como honrar os idosos em um mundo que valoriza os jovens, por Ariane Gomes

Vem aí o 1º Encontro Regional do Movimento Cristão 60+ “Tempo de desfrutar e de semear”

A maior tendência global do nosso tempo é o envelhecimento. A igreja não pode ficar alheia a isso.

Com o tema “Tempo de desfrutar e de semear”, o 1º Encontro Regional do Movimento Cristão 60+ (MC 60+) acontecerá no dia 17 de maio de 2025. Será um evento de um dia só em São Paulo, SP, em um lugar de fácil acesso.

A maior tendência global do nosso tempo é o envelhecimento da população. A Divisão de População das Nações Unidas estima que o número de pessoas com 65 anos ou mais deve dobrar nos próximos trinta anos. A igreja não pode ficar alheia a isto.

“Alguns chamam a velhice de bênção. Outros a consideram um castigo. Para alguns, os idosos têm uma missão a cumprir, para outros, é apenas o declínio da vida” (1). Para o MC60+ é perfeitamente possível a vida plena na velhice. O versículo chave do Movimento reflete isso: “Mesmo na velhice darão fruto, permanecerão viçosos e verdejantes, para proclamar que o Senhor é justo” (Sl 92.14).

Ágatha Heap, preletora do Encontro de 2024, escreveu: “Uma vida plena é uma vida em que ainda servimos com os nossos dons, somos gratos e contamos as bênçãos ao longo dos anos, nos comprometemos em amor com as pessoas. Contamos com Deus todo o tempo”.

Durante as palestras, devocionais, workshops, compartilhamento de experiências, momentos de socialização e comunhão os participantes do 1º Encontro Regional terão oportunidade de ouvir e vivenciar assuntos que lhes dizem respeito: sua relação com a igreja, autocuidado, envolvimento na missão, segunda carreira e, não menos importante, o “desfrutar da vida”. – temas que mantêm continuidade com o que já vem sendo tratado nos encontros nacionais.

Conheça alguns dos preletores

Irland Azevedo, 90 anos, casado com Zilá há 67 anos, tem dois filhos, sete netos e quinze bisnetos. É pastor há mais de sessenta anos, foi professor de seminário, conferencista no Brasil e no exterior, mentor de pastores e é autor de quatro livros.

Thomas Hahn
, nasceu em Viena, Áustria, mas é carioca por formação. Casado com Christine há mais de sessenta anos, tem três filhos. É pastor na Igreja Batista da Granja Viana, em Cotia, SP. Escreveu vários artigos publicados no site do MC60+, entre eles “Carta de um velho”. Ele completará 90 anos exatamente no dia do Encontro.

Rosa Hasegawa
 apresentará o projeto Lírios do Campo, que há mais de 15 anos desenvolve atividades para idosos a partir da Igreja Metodista Livre, na Saúde, São Paulo, SP.”


Adriana Saldiba
, nutricionista e doutora em Ciências pela Faculdade de Medicina da USP, é casada com o Rev. André Saldiba, é mãe de três filhos, coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Ciências do Envelhecimento na Universidade São Judas Tadeu. Ela participou da redação do relatório Status Atual da Grande comissão, produzido pelo Movimento Lausanne, no tópico Envelhecimento global da população.

Se você quer aprender a envelhecer, ou compreender melhor o envelhecimento de seus familiares ou membros de sua comunidade, ou se equipar para um ministério profícuo com os 60+, não perca a oportunidade de estar presente neste Encontro. Faça já a sua inscrição [aqui].

Sobre o Movimento Cristão 60+

O MC60+ nasceu no coração de um grupo de amigos nesta fase de idade com o objetivo de despertar as igrejas para esta realidade e, ao mesmo tempo, para encorajar os 60+ a não se aposentarem da carreira cristã, ao autocuidado e a servirem à igreja com seus dons, experiências e rede de contatos.
Uma das principais formas de atingir os seus objetivos é a promoção de eventos. Visite o site do MC 60+ para saber mais sobre o Movimento e ler sobre os encontros já realizados.

Serviço:
I Encontro Regional do Movimento Cristão 60+
Tempo de desfrutar e de semear
Quando: 17 de maio de 2025, sábado, das 8 às 18 horas
Onde: Igreja dos Cristãos de São Paulo, Rua Dr Abelardo Vergueiro César, 682 – Vila Alexandria – São Paulo, SP
Inscrições aqui.

Agradeço por tudo

Por Wilfried Körber

Outro dia escrevi sobre um pensamento incomum que tive: “Agradecer pelas coisas que não tenho”. Normalmente as pessoas pedem a Deus, coisas que eles não têm, mas gostariam de ter. É bem diferente quando agradecemos pelo que não temos. O que acha? Achei numa revista um texto sobre essa questão. Gostei, e por isso vou traduzi-lo aqui. Trata-se de um testemunho contado durante uma conferência realizada com colegiais.

“O dia estava lindo e a natureza num bosque composto por lindas árvores, flores e um riacho, tornava a cena muito agradável. Entre outras, estava ali uma estudante cega, que nada via dessa paisagem. Em seu testemunho, ela disse: “Não posso ver essas belezas pelas quais vocês agradecem, mas de outro lado, também não posso ver as coisas feias que vocês precisam ver. Com sinceridade, posso agradecer a Deus pela minha cegueira. Sou cega desde que nasci. Nunca vi qualquer coisa que existe ao meu redor. Contudo, a primeira coisa que vou ver, é Jesus, quando Ele no céu me dará um novo corpo, um corpo eterno”.

Esse testemunho reforçou o meu pensamento de que também devo agradecer a Deus pelas coisas que não tenho. Felizmente ainda posso ver, e agradeço a Deus por isso. Meus olhos já estão enfraquecendo, mas ainda posso ver. Dos ouvidos, há muitos anos só um funciona, mas com auxílio de um aparelho auditivo ainda ouço perfeitamente. Algumas outras capacidades também estão diminuindo, mas ainda posso participar sem restrições do que é importante. A velhice chegou, a eternidade se aproxima, mas de nada disso me lembrarei, quando, também eu, puder ver o meu Salvador.

Wilfried Körber nasceu em Göttingen na Alemanha em 1931 e vive no Brasil desde 1937. Converteu-se aos 16 anos na então Igreja Alemã Batista Zoar, frequentada por sua mãe. Membro fundador da Igreja Batista Filadélfia de São Paulo, envolveu-se com o trabalho de evangelização de crianças e missões, com sua esposa Gisela, de saudosa memória. Há mais de uma década escreve textos para o devocionário Presente Diário. Atualmente vive em Sorocaba, SP. @lampadaparaosmeuspes_.

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Meu celebrar

Uma 60+ descobrindo uma nova forma de viver

Por Nira Duarte

De manhã, bem cedinho, vou caminhando em direção ao mar para ver o resplendor do nascer do sol, substituindo as luzes da alvorada.

E ali, contemplando extasiada a tela colorida dos átrios de Deus, meu coração se curva em adoração e gratidão.

Mas só olhar o vasto mar não é suficiente.

Subo na prancha e começo a deslizar pelas águas, às vezes calmas e, outras, elas dançam sob a ação dos ventos.

O remo é meu leme, que me direciona para o destino que vejo à frente, porém nem sempre busco um lugar para atracar. O só ficar ali em meio (e sobre) as águas, ouvindo o som das ondas, contemplando a maravilhosa criação de Deus, fitando o céu, morada do Altíssimo, já é um pequeno vislumbre das delícias da eternidade.

É nesse cenário que vejo (e sinto) Deus sorrindo pra mim, mostrando o seu amor e cuidado.

É quando mergulho nas águas desse mar, que me entrego ao batismo de alegria, de sensações cinestésicas e da consciência de que o Espírito que habita em mim é engrandecido pela gratidão que flui do meu corpo todo.

Olhar, contemplar, se conscientizar, desfrutar e festejar – são demonstrações dessa gratidão, que revela na vida abundante, que só é plena em Cristo – o autor e consumador da nossa existência.

A Deus, em Cristo, toda honra, glória e gratidão eterna.

Nira Duarte. A música “Teus altares”, de Vencedores Por Cristo, me ajudou a enxergar a plenitude das maravilhas das obras do nosso Deus, e a desfrutar dessa benção, especialmente quando eu já estava entrando na terceira idade. Ela me fez ter certeza de que para Deus o tempo é apenas um referencial e que a vida plena acontece em todas as idades.

As últimas milhas

Por Wilfried Körber

“Desde agora me está guardada a coroa da justiça, que o SENHOR, reto juiz, me dará naquele Dia; e não somente a mim, mas também a todos os que amam a sua vinda.” (2Tm 4.8)

Nessa vida, todos nós estamos a caminho que algum dia chega ao lar. Os idosos têm maior chance de chegarem ao destino antes. Para o filho de Deus é confortador saber que Ele está conosco. Não precisamos temer surpresas desagradáveis.

Enquanto ando com Ele, falamos a respeito de eventuais preocupações. Eu lhe falo, e Ele me responde. Ele fala comigo, e eu lhe sou agradecido. Nosso relacionamento é de Pai para filho. Se a viagem for cansativa, Ele me ampara. Se a caminhada for muito cansativa, Ele me carrega, mas nunca me sinto abandonado. Perto dele, sinto-me pobre; me faltam os recursos necessários. Nesse caso o Pai me sustenta; nunca me deixa só nas dificuldades.

O caminho dele às vezes é diferente do meu, mas com paciência e amor, me mostra a direção correta. Tenho que vencer subidas e descidas, mas há momentos de descanso e restauração. Há um momento em que Ele me diz: “Estamos chegando!” É nessas últimas milhas que preciso mais de Sua ajuda. Está ainda longe Canaã? Lanço minhas preocupações sobre Ele. Não preciso temer nada, pois Ele conhece muito bem a estrada, e me segura, para não errar a direção. Há momentos em que eu começo a tropeçar, mas seguimos em frente de mãos dadas, e nada tenho a temer. As últimas milhas podem ser cansativas, mas Ele me leva ao lugar de descanso. Estarei eternamente com Ele, e Ele comigo. Sigo alegre a minha estrada, sabendo que o melhor está por vir!

Wilfried Körber nasceu em Göttingen na Alemanha em 1931 e vive no Brasil desde 1937. Converteu-se aos 16 anos na então Igreja Alemã Batista Zoar, frequentada por sua mãe. Membro fundador da Igreja Batista Filadélfia de São Paulo, envolveu-se com o trabalho de evangelização de crianças e missões, com sua esposa Gisela, de saudosa memória. Há mais de uma década escreve textos para o devocionário Presente Diário. Atualmente vive em Sorocaba, SP. @lampadaparaosmeuspes_.

Imagem: KimJaesub. Pixabay.

Leia mais:

>> Quando Deus fala comigo?, por Wilfried Körber

>> A caminho de casa – vida, fé e como terminar bem – Resenha

Bíblia versus Inteligência Artificial – O que é melhor que a vida?

Por Eli Alone

– O que é melhor que a vida?

– Essa é uma pergunta filosófica!

Existem muitas respostas possíveis, dependendo da perspectiva e dos valores de cada pessoa. Aqui estão algumas possibilidades:

Respostas filosóficas

1. Nada: Para alguns, a vida é o maior bem e não há nada melhor do que ela.

2. Felicidade: Outros diriam que a felicidade é o objetivo supremo e o que torna a vida valiosa.

3. Amor: O amor pode ser considerado o que dá sentido e propósito à vida.

Respostas práticas

1. Saúde: Sem saúde, a vida pode ser difícil.

2. Relacionamentos: Conexões significativas com familiares e amigos.

3. Realização pessoal: Alcançar metas e objetivos.

Respostas poéticas

1. Sonhos realizados: Ver os sonhos se tornarem realidade.

2. Paz interior: Encontrar tranquilidade e contentamento.

3. Liberdade: Viver sem limitações.

Respostas espirituais

1. Conexão divina: Para alguns, a conexão com uma força superior é o que dá sentido à vida.

2. Iluminação: Alcançar a sabedoria e compreensão profunda.

3. Transcendência: Ultrapassar as limitações humanas.

– Qual é a sua perspectiva? O que é melhor que a vida para você?

– Segundo a Bíblia, é a Graça.

– Peço desculpas! Você está absolutamente certo! A Bíblia ensina que a graça de Deus é o maior bem que podemos receber (Ef 2.8-9; 2Co 12.9). A graça divina nos oferece:

Aspectos da Graça

1. Salvação: A graça nos salva do pecado e da separação de Deus.

2. Perdão: A graça nos perdoa e nos restaura.

3. Fortalecimento: A graça nos dá força para enfrentar desafios.

4. Transformação: A graça nos transforma para viver uma vida cristã.

Passagens bíblicas

1. “Pois é pela graça que vocês são salvos, por meio da fé; e isso não vem de vocês, mas é dom de Deus.” (Ef 2.8-9)

2. Mas ele me disse: ‘A minha graça é suficiente para você, pois o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza.'” ( 2Co 12.9)

3. “Onde o pecado abundou, a graça superabundou.” (Rm 5.20)

– Muito obrigado por corrigir-me! A graça é, de fato, um presente precioso de Deus.

A Graça é melhor que a vida. O menor dos filhos de Deus desbancaria a IA.

Eli Alone, 72 anos, viúva, mantém desde 2023 o blog Terra do Esquecimento. Ela se define como pentecostal reformada e leva muito a sério o ministério da intercessão.

Artigo publicado originalmente no blog Terra do esquecimento. Reproduzido com permissão.

Imagem: Brian Penny. Pixabay.

Entre gerações

Crescimento vem do cultivo do relacionamento com Deus e da convivência e do cuidado mútuo na comunidade

Por Karen Bomilcar

“Não repreenda asperamente ao homem idoso, mas exorte-o como se ele fosse seu pai; trate os jovens como a irmãos; as mulheres idosas, como a mães; e as moças, como a irmãs, com toda a pureza” (1 Timóteo 5.1-2).

A multiplicação de grupos nas nossas comunidades (crianças, adolescentes, jovens, adultos, casais, solteiros, descasados, idosos) tem benefícios. Mas, se convivemos apenas com “iguais”, deixamos de cultivar um dos presentes mais lindos que a comunidade proporciona: a sabedoria e o crescimento que vêm das relações de intergeracionalidade. É nelas que aprendemos o respeito e a convivência.

Quando os mais novos convivem só com pessoas da sua idade e esperam amadurecer espiritualmente sozinhos e aqueles com mais tempo de caminhada não se sentem responsáveis pelos mais novos, não há crescimento sadio. Crescimento vem do cultivo do relacionamento com Deus e da convivência e do cuidado mútuo na comunidade.

Uma comunidade sábia, que cresce num relacionamento dinâmico com Jesus, amadurece em fé, esperança e amor. Sugiro então que você seja humilde, abra os olhos e os ouvidos e encontre duas ou três pessoas da geração acima da sua para andar com você. Queira repartir a vida de forma transparente, desde as coisas mais simples até as “grandes” questões. Busque amar a Deus amando outros, aprendendo com a experiência do outro.

E se você é dos mais velhos: Não importa a sua idade, você tem muito para contribuir. Conheça os mais novos na sua comunidade, convide-os para a mesa da comunhão e comece a construir vínculos.

Que Deus nos mobilize a dar o primeiro passo na direção do outro e preservar o presente da intergeracionalidade.

Pai, que sejamos atentos ao amadurecimento na fé como algo não apenas pessoal, mas também comunitário.

Karen Bomilcar trabalha como psicóloga hospitalar na área de saúde pública e como professora no Seminário Teológico Servo de Cristo e no Centro Cristão de Estudos. É mobilizadora voluntária da Rede Temática “Saúde para Todas as Nações” do Movimento de Lausanne.

Artigo publicado originalmente no devocionário Refeições Diárias Celebrando a Reconciliação, Ultimato. Reproduzido com permissão.

Imagem: Volzi, Pixabay.

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60+, não deixem de ir ao templo, por Délnia Bastos

Carta de um velho, por Thomas Hahn

Como honrar os idosos num mundo que valoriza os jovens, Por Ariane Gomes

Carta de um velho

Não espere a velhice para ser sábio, para que não se arrependa de uma vida sem alegria, sem vitalidade, sem abundância

Por Thomas Hahn

Meu caro amigo,

Esta sua ideia foi excelente: escrever sobre a velhice do ponto de vista… de um velho! Muito se tem escrito sobre a velhice. Pudera: estamos, de um modo geral, vivendo cada vez mais. O jornal ao qual subscrevo tem, diariamente, um espaço reservado para uma coluna obituária, pinçando a história de uma pessoa, geralmente muito bem escrita – e noto que, não raro, a pessoa em questão morreu aos oitenta ou noventa e poucos anos.

Os livros até aqui publicados sobre a velhice não falam da velhice em si. São dedicados a um público que está chegando lá, e contêm conselhos preciosos sobre como se preparar para esta fase da vida de tal maneira que ela seja desfrutada de uma forma gostosa, em todos os sentidos: financeiro, saúde física e mental, atitude, interesses etc.

Para uns, é possível seguir à risca os conselhos dados. Para outros, no entanto, a realidade é outra. Nem sempre é possível construir nossas finanças de maneira a continuar a viver como se vivia até, por exemplo, a aposentadoria. Tenho amigos que perdem seus empregos aos cinquenta e tantos anos, e não conseguem uma recolocação. Outros têm empresas que não dão muito certo e os deixam na mão no fim de suas vidas produtivas. E um grande número nunca desfrutou de uma situação que lhes permitisse desenvolver interesses variados, como viajar pelo mundo, enfim, levar aquela vida gostosa que deve (segundo os livros publicados) continuar ad eternum.

Os títulos dos livros me incomodam. Ninguém usa o termo “velho”. Ou é “terceira idade”, ou é “melhor idade”. Terceira dá a entender que existe uma quarta. Não tem. E “melhor idade” não diz respeito ao idoso. Acho que tem mais a ver com a indústria da saúde: médicos, hospitais e indústrias farmacêuticas. Vivemos a era dos eufemismos.

A verdade nua e crua é esta: a velhice é a última idade. E o mais interessante é que ninguém escreve sobre o que vem depois: a morte.

Por fim, ainda não li algo sobre a velhice escrita do ponto de vista cristão. Então é isto: vou colocar meus poucos neurônios sobreviventes para funcionar, e tentar dizer algo sobre o como é ser um velho cristão. Será, forçosamente, pessoal; mas, quem sabe, será de alguma serventia, não só para outros anciãos, mas para quem está no caminho de sê-lo.

O velho e a sabedoria

Você me pergunta se me sinto mais sábio nesta fase da vida. A resposta é: “Não!” O máximo que posso dizer é que, quem sabe, sou sábio há mais tempo. Só isso.

Digo isso porque a sabedoria, como lemos em Provérbios 1.7, começa pelo temor do Senhor. Ora, isto está ao alcance de todo aquele que busca a Deus; não existe, aí, nenhuma correlação etária.

Aliás, quanto ao quesito “sabedoria”, aplica-se o “quanto mais cedo, melhor”. Há um livro na Bíblia que nunca me trouxe prazer ler: Eclesiastes. Nele, o autor – possivelmente, Salomão – termina sua narrativa dizendo: não façam o que eu fiz, façam o que digo. E isto, no fim da sua vida. Ou seja, não esperem a velhice para serem sábios, para que não se arrependam de uma vida vivida sem alegria, sem vitalidade, sem abundância.

A aposentadoria

Claro, meu amigo, chegou a hora em que tive que me aposentar de vez. Já tinha, fazia tempo, idade para tanto. Mas quando minhas limitações físicas crescentes se aliaram à minha perda de relevância no meu metier profissional, pendurei as chuteiras de vez. No meu caso, deixei de trabalhar numa pequena empresa de serviços da qual era um dos sócios.

Graças a Deus, existe uma área de nossa vida na qual podemos continuar na ativa. É o trabalho que fazemos para o reino de Deus. Uma das histórias (reais) de que mais gosto é de uma senhora cujo ministério era escrever cartas a jovens detentos de uma penitenciária, ministério este que gerou muitos frutos de conversão. Eventualmente sua condição física a levou, de forma definitiva, à cama, sem possibilidade de continuar escrevendo. Perguntada se isto significava o fim de seu ministério, ela respondeu, indignada: “De jeito nenhum! Ainda posso orar!”.

Hoje tenho imensa satisfação naquilo que Deus me deu para fazer: um grupo de homens que se reúne semanalmente para conversar, livremente, sobre as coisas de Deus; discipulado para alguns incautos que acham que posso ajudá-los em suas caminhadas com Cristo; falar aos jovens da igreja (para minha enorme surpresa e deleite, insistem em convidar-me); pregar ocasionalmente nos cultos; e, finalmente, tocar meu pianinho enquanto a artrose não acaba, de vez, com esta farra.

Conheci, certa vez, um grupo de idosos numa igreja (de bom tamanho) que resolveu se juntar para ser uma espécie de “grupo com interesses especiais”. Reuniam-se para comer pizza, fazer viagens, ouvir palestras, e assim por diante. Perguntei-lhes o que se propunham a fazer como atividade na igreja, ao que responderam, indignados, que já haviam feito muito em suas vidas, dedicado horas ao serviço de Deus, sido presbíteros ou diáconos, e que agora era a hora do desfrute, da aposentadoria! Logo agora que, aposentados, tinham mais tempo disponível para se dedicar às coisas de Deus!

O grupo não teve sobrevida longa. Desfez-se em pouco tempo.

Quanto a mim, tenho em mente que existe alguma correlação entre eu continuar vivo e o poder servir a Deus. Minha esperança é que quando eu não puder mais continuar a seu serviço aqui (sempre tem o “alemão” espreitando por perto) Ele me leve para si.

Morte, eternidade e outras coisas…

É bem verdade, meu amigo, que a velhice é a derradeira oportunidade que temos para compreender o sentido da vida, da morte, da eternidade e do plano de Deus. Novamente, tenho que dizer que não é bom deixar isto para o fim da vida; é jogar fora a própria vida. A verdade é que aquilo que pensamos sobre a morte – e o que vem depois – tem tudo a ver com a maneira que vivemos.

Por exemplo: se minha teologia é “fim do mundista”, isto é, se creio que a História caminha para a destruição do mundo por um Deus irado, meu cristianismo será totalmente individualista, centrado no eixo Eu-Deus, sem espaço ou perspectiva para o mundo que me cerca. Aceitarei, de bom grado, minha salvação, sabendo que ela me livra da morte e me leva para a eternidade com Deus, embora não consiga vislumbrar o que significa uma eternidade no céu (e como tem hinos sobre o céu!). Mas como o tal céu é totalmente separado da terra, esta teologia não cria nenhuma ligação entre a eternidade e a maneira que posso, ou devo, viver aqui e agora.

Já se eu vislumbro a Nova Jerusalém, descendo do céu para a terra, na qual habitarei para sempre em um corpo material cujas peças trazem uma garantia perpétua de bom funcionamento, consigo ver o Deus da criação, que achou que sua obra merecia elogios (bom, muito bom), que prometeu a Noé que não destruiria o mundo, que iniciou a história da recriação em Jesus, partindo do homem, e que há de completá-la recriando o universo – bem, vislumbro, então, um Deus que ama a matéria que criou, o que inclui o homem e a natureza. Pergunto: Se Deus ama sua criação, mesmo que atualmente esteja corrompida, posso eu ignorá-la, ou mesmo odiá-la? Posso ceder aos encantos da filosofia de Platão, afirmando que a matéria não presta, e o que vale é o espírito?

Desculpe, meu amigo, minhas investidas amadoras na teologia. É que eu, como membro de igreja há algumas décadas, noto que pouco, ou nada, se prega sobre a morte e sua derrota em Cristo, sobre a vida eterna material (e não espiritual), sobre a condenação e sim, sobre o inferno, sobre nossa participação ativa desde já no plano divino de recriação da terra, na pregação da justiça social, da não-corrupção, da proteção e ajuda aos fracos e oprimidos, da visão de um mundo mais parecido com aquele que Deus tem em mente, mesmo sabendo que não alcançaremos este objetivo até que Cristo volte. E que, por falta de pregação, nossas igrejas se tornarão, eventualmente, irrelevantes.

Em resumo, amigo, dá para ver que o tema “eternidade” vem sendo matutado por este escriba já faz tempo. Para ser exato, desde minha conversão, pois ela se fundamentou na ressurreição de Jesus, e esta, por sua vez, me levou por uma longa jornada até chegar às conclusões que expus. Agora, o que não pode acontecer a um velho é o que vivenciei há alguns anos. Estava liderando uma discussão de um grupo de “terceira idade”, e pedi para que respondessem, anonimamente, num pedaço de papel sem assinatura, à seguinte pergunta: “Você tem medo da morte?”. Das quinze pessoas presentes, só uma disse que não; os outros se pelavam de medo. Isto não é sabedoria para ninguém, muito menos para um velho.

Permita que este velho que lhe escreve tenha um momento de tristeza. Sinto-me solitário na minha busca por encorajamento nesta fase em que preciso ter minha fé reforçada, antecipando com alegria o Banquete para qual fui convidado. Quando abordo este assunto com irmãos da igreja, recebo como resposta algumas frases que preferia não ouvir, como “Vira esta boca pra lá” (movimento facial difícil de ser executado), “Você ainda vai viver por muitos anos” (como tem profetas nas igrejas!) ou, ainda, o famoso “O importante é que você tem saúde” (não tenho).

Minha sabedoria diz que seria bom que a igreja voltasse a falar sobre a eternidade, tanto para sua edificação e vida, como para ajudar seus idosos na etapa final de suas caminhadas.

Simplificando

Bem, meu amigo, vamos voltar a falar de coisas boas da velhice. Uma delas é a simplificação.

Passamos nossas vidas acumulando. A velhice é quando podemos, finalmente, desbastar nossa existência, livrando-nos do supérfluo, ficando com o essencial.

Veja, por exemplo, o caso de nossas moradias. No começo, não precisamos de muito espaço. Depois, casamos, temos filhos, ganhamos algum dinheiro, aumentamos o tamanho do lar, adquirimos uma casa de praia ou campo (aquela que nos traz duas alegrias, quando compramos e quando vendemos), roupas que não precisamos, mas que são bonitas, móveis idem, e por aí vai. Ah, sim, consideremos as coisas herdadas de nossos pais, tios, avós, e que são verdadeiras tranqueiras lá em casa.

A velhice é uma boa (e a última) oportunidade para fazer uma faxina, livrando-nos das coisas que acumulamos, mas cuja posse nos traz mais despesas que alegrias. A proposta chinesa, de jogar fora tudo que não foi usado nos últimos doze meses, é realmente boa – sem pensar no bem que podemos fazer para outras pessoas que precisam do que, para nós, já não é mais necessário. E, indo direto para o fígado, simplificar enquanto estamos vivos reduz o estresse de um inventário complicado. Poupemos, à medida do possível, nossos herdeiros. É para isto que existem advogados.

Observo que simplifiquei não só minha vida material, mas, da mesma forma, a espiritual. Tenho cada vez menos certezas, mas as que restam são cada vez mais firmes. Tem muita coisa que, em certo momento, parecia ser importante como doutrina de fé. Já hoje, aprofundo-me mais na doutrina básica dos apóstolos, que é rica o suficiente para ocupar minha mente por vários séculos, e perco o interesse em discutir sub-doutrinas que separam os cristãos em várias igrejas e denominações. Tenho, sendo evangélico, imenso prazer em ler declarações do papa quando coincidem com as Escrituras! E perdi, completamente, o medo de dizer “Não sei” quando, realmente, não sei. Tenho uma boa lista de perguntas que pretendo fazer quando estiver com Jesus, mas desconfio que muitas delas não serão mais relevantes.

O importante, na simplificação, é não ter medo – e o maior medo que temos é perder status. Quando vendemos nossa última casa, e mudamos para um apartamento de 68,2 metros quadrados, fui, por vezes, criticado, e por outras, confrontado: “Como é que você teve coragem?”. Mas não era questão de mais ou menos coragem. Era, simplesmente, necessário, financeiramente (as despesas de manter uma casa com jardim aumentavam, a renda diminuía) e física (uma área menor para minha esposa, com pouquíssima ajuda minha, cuidar). E, que maravilha, estamos felicíssimos em nosso ninho. Simplificação é sabedoria.

Dependência

Você me pergunta se tenho problemas com a eventual perspectiva de me tornar dependente de outros. Sei que para muitos, esta questão assusta, e bastante. A reação que mais encontro é que tornar-se dependente é uma desonra, uma confissão pública de fracasso na vida, um atestado de incompetência e fraqueza de vida.

É normal que a última fase da vida acarrete uma fragilidade financeira. Nossa receita diminui, nossas despesas médico-hospitalares aumentam, e a equação não fecha mais. Mesmo aqueles que vinham bem em sua carreira profissional tornam-se vulneráveis aos cinquenta – conheço vários que perdem seus empregos ou empresas nesta idade, e não tem mais como consertar a situação a tempo de usufruir de uma velhice amena e gostosa. Sua receita fica, eventualmente, restrita à aposentadoria — o que não garante as contas normais, que dirá das viagens, jantares fora, idas ao teatro, etc. O destino final pode ser a dependência financeira de outros, começando pelos filhos.

Igualmente assustadora é a dependência física advinda da doença. Não preciso mencionar quais podem ser – a lista é conhecida de todos. Existe, é claro, o lado lúdico da coisa (desde que se tenha um senso de humor razoável). Um exemplo é a rivalidade entre minha esposa e eu para ver quem tem mais remédios na mesa do café da manhã. Por enquanto, vou ganhando – minha xícara fica escondida por trás de uma falange de potes e vidros. Falando sério: depois da minha última cirurgia de coluna, estava tão fraco, e sentia tanta dor, que não conseguia tomar banho sozinho, precisando do auxílio de enfermeiros. Minhas pernas, mesmo com a cirurgia, não funcionam a contento, pouco posso fazer para ajudar minha esposa em casa, e, não raro, preciso de uma mãozinha para atravessar a rua.

A moeda, no entanto, tem outra face. Ao vivenciar minhas dependências, verifiquei que Deus abençoava as pessoas que me ajudavam, enchendo-as de um espírito amoroso de serviço. Verifico, na minha velhice, que quando deixo de ser o centro de minhas preocupações e consigo olhar para fora, posso me deleitar com a maneira como o Senhor age. E, neste processo, aprendo novamente o como é bom, importante e vital depender dele, embora tenhamos todos aprendido a sermos autossuficientes em nossas vidas.

Novamente, meu amigo, esta é uma lição que deve ser aprendida o mais cedo possível. Não precisa esperar ser velho.

Perdas

Sou forçado, meu amigo, a falar de uma constante inescapável da última idade. Refiro-me a perdas: financeiras, físicas e pessoais. Financeiras – bem sobre elas já falamos bastante e, de um modo geral, creio que se estivermos conscientes de que elas são, se não uma regra absoluta, pelo menos frequentes, podemos agradecer a Deus pelo que tivemos, encarar a nova situação e agradecer, novamente, pelo que temos. Isto é sabedoria em qualquer idade.

As perdas físicas são inescapáveis, em algum momento. São, também, imprevisíveis. Por mais que uma pessoa tenha se cuidado, e continue a se cuidar, observando tudo que se recomenda e consultando o médico regularmente, vem a hora em que nosso corpo falseia, tropeça e cai. Perde-se uma mobilidade, um prazer, um órgão importante, e não existe dinheiro que reponha o que se perdeu. Nosso corpo emite um aviso: a última idade está chegando ao fim! Não foi, portanto, por acaso que recomendei, no começo desta carta, que um ancião tivesse sua teologia em ordem, sua fé viva e definida. Caso contrário, estas perdas significarão pânico e angústia.

Finalmente, falemos de outro assunto que incomoda nossos irmãos: falar sobre a perda de pessoas queridas. Cada perda é um pedaço de minha vida que se vai – estou me sentindo um verdadeiro queijo suíço, de tantos buracos. Um dos choques absurdos da vida é quando uma pessoa vive o suficiente para enterrar um filho, uma pessoa mais jovem – nossa biologia se revolta contra esta inversão da lógica. E, por fim, a incerteza de saber quem irá falecer primeiro: o marido ou a esposa. Pensar em deixar o cônjuge só traz um sentimento de culpa; pensar o oposto produz medo da solidão, do abandono. Não pensar sobre o assunto? Impossível.

Sim, meu amigo, é verdade que verei algumas destas pessoas no eterno porvir, verdade esta que deveria me trazer consolo. Noto, no entanto, que este consolo não ameniza a dor da perda. Nesta hora cabe, unicamente, a certeza absoluta de que nada nos pertence; tudo é de Deus. Se o Senhor deu, e o Senhor tirou – bem, bendito seja o nome do Senhor! Aceitar a dor, aceitar o consolo que Deus nos envia – isto é sabedoria que se adquire com o tempo.

Antes de concluir estes comentários sobre perdas, permita-me falar de uma que pode desencadear a velhice – em qualquer idade! Falo da perda de relevância. Quando sua opinião já não é mais importante, principalmente no âmbito profissional, comunitário, associativo ou político. Quando mal se disfarça o tédio de ter que ouvi-lo, tamanha sua insistência. Quando decisões são tomadas sem que você seja ouvido, que dirá consultado. Quando você constata que o mundo não precisa de você para continuar girando. Quando seu filho, para quem você era herói, exemplo e âncora, toma seu rumo sozinho e, no máximo, oferece conselhos a você. Aí, só vejo uma saída: faça o que você quer fazer, gosta de fazer, sabe fazer, do jeito que puder, sem a presunção de estar colaborando para o bem maior da humanidade. Humildade nunca fez mal a ninguém

Menos pode ser mais

A esta altura do campeonato, você, meu amigo, já entendeu que o velho pode fazer cada vez menos. Tem menos saúde, menos dinheiro, menos tudo. Mas isto está longe de ser necessariamente mau. Nós, os velhos, temos uma posição privilegiada, pois, ao invés de vermos nós fazendo isto ou aquilo, assistimos, de camarote, Deus realizando. É um privilégio. E, para dizer a verdade, deveria ser sempre assim; perdemos muito tempo pensando que é nosso esforço, mental ou físico, que define rumos, modifica vidas, traz resultados.

Um exemplo recente serve de exemplo. Tive a ideia de formar um grupo de homens na minha igreja, que se reúne semanalmente para bater um papo solto, embora voltado, de alguma forma, para as coisas de Deus. Não existe a figura do preletor. Pois bem, tenho tido a benção de ver este grupo se transformar em pessoas ativas da igreja, buscando a vontade de Deus em suas vidas, crescendo em interesse nas Escrituras. Minha participação foi, apenas, este embrião de projeto, já que não tinha a menor noção do que dele resultaria. Tem, sem dúvida, sido uma benção em suas vidas – mas, garanto, tem sido maior na minha. Quando somos menos, Deus é mais.

Aprendendo uma nova linguagem

Minha vida cristã começou aos 38 anos. Leitor assíduo, devorei, além da própria Bíblia, livros e mais livros. Andei, por longos anos, de mãos dadas com teólogos, pastores e, lamento dizer, vários picaretas. Por pouco não fiquei preso à prosa da lógica. Quem me abriu os olhos – quando eu já tinha ultrapassado os sessenta – foi o pastor Osmar Ludovico. Descobri que a prosa racional é necessária para o conhecimento de Deus (melhor dito: daquilo que nos é possível conhecer), mas não suficiente. Quando o apóstolo Paulo, mestre da doutrina, acaba de expor parte da doutrina, e se aproxima da majestade de Deus, ele joga a prosa ao mar e sucumbe à poesia, ao lirismo.

Se Deus não cabe na prosa, muito menos cabe nos chavões. Estes, quando usados constantemente, tornam-se herméticos. Ao invés de aproximarem o ouvinte de um Deus majestoso, reduzem-no a um deus nanico, interessado apenas em nos ensinar a sermos doutrinariamente corretos (o que, se possível, é pior que ser politicamente correto). Usar toda a riqueza da linguagem é, sem dúvida, arriscado; no entanto, é através deste processo que a doutrina, que é santa e boa, torna-se mais real, tanto para quem nela medita, como para quem a ouve.

Não estou dizendo, meu amigo, que você deve abandonar a prosa; apenas, adicione a poesia – mesmo que sem rimas.

Finalmente

Oscar Wilde disse que conseguia resistir a tudo – menos à tentação. Eu, também. Tenho, no entanto, uma justificativa: você me pediu para dar alguns conselhos quanto à velhice, que é o que ora faço, com a ressalva de que, se fossem bons, seriam pagos.

. Escreva suas memórias. Você pensa que sua família (principalmente seus filhos) conhece sua vida. Não é verdade. Ponha tudo no papel, para que eles saibam quem era, na verdade, seu pai/avô/tio/amigo, quais os ambientes e circunstâncias que moldaram sua personalidade, como eram os seus pais, etc. Aproveite para revisitar sua vida. É gostoso, e escrever no computador facilita as coisas.

. No embalo, aproveite este tempo para fazer duas coisas. Primeiro, busque uma ocasião (em tempo ou fora de tempo) para dizer às pessoas que você ama – que você os ama! Para filhos adultos, é uma benção; para seu cônjuge, vital. Não deixe de fazê-lo enquanto pode – depois pode ser tarde demais.

. Conserte relacionamentos que ficaram esgarçados pelo caminho.

. Ponha sua vida em ordem – dê o menor trabalho possível aos herdeiros.

. Admoeste a quem precisa de admoestação. Peça perdão a quem se sente ofendido por você. Perdoe quem lhe tiver ofendido.

. Se possível, mantenha contato com pessoas de todas as faixas etárias, principalmente na sua igreja. Mostre – e desenvolva – interesse em suas vidas. Evite ficar preso a pessoas de sua idade. Fuja da tentação de conversar sobre sua saúde, médicos, tratamentos e remédios (pelo menos, policie-se para ficar no mínimo exigível).

. Mantenha seu senso de humor. Exercite a risada.

. Dê seu testemunho de fé.

. Leia. Escreva cartas para os jornais (mas não espere que publiquem).

. Não lute contra a velhice com as armas que o marketing propõe. Melhor é: abrace e aceite sua última idade.

Thomas Hahn, nasceu em Viena, Áustria, mas é carioca por formação, casado com Christine com quem tem três filhos. Congrega na Igreja Batista da Granja Viana, em Cotia, SP.

Leia mais:

>> Pequenas grandes coisas que nós, idosos, devemos fazer, por Thomas Hahn

>> Novos papéis na igreja, por Daniel Yashimoto

>> A visão bíblica sobre a velhice, por Erni Seibert

Crédito da imagem: Rachel Strong, Unsplash.

60+, não deixem de ir ao templo

“Quero contemplar-te no santuário e avistar o teu poder e a tua glória”

Ana, uma 60+ do Primeiro Natal

Por Délnia Bastos

Meu testemunho será breve.

Meu nome é Ana. Sou viúva e tenho 84 anos. Estive casada por apenas sete anos, quando meu marido morreu. Sou do grupo de judeus piedosos que aguardavam com fé a era messiânica. Gosto muito de adorar a Deus no templo, com jejuns e orações. Uma das minhas passagens favoritas das Escrituras é um Salmo do Rei Davi. Tem uma parte que diz: “Quero contemplar-te no santuário e avistar o teu poder e a tua glória”. Por isso, estou sempre no templo, principalmente no pátio e arredores.

Já vivi bastante e muitas coisas marcantes me aconteceram. Mas nada foi tão sublime quanto ao que vi na semana passada no templo: o próprio Messias, em carne e osso! Deus cumpriu sua promessa na minha geração. Fui ao templo contemplar o Senhor e de fato vi o seu poder e a sua glória, como bem falou o Rei Davi. Vi o bebê prometido no colo do velho Simeão, outro judeu piedoso. Tanto ele quanto eu não tivemos nenhuma dúvida de que aquele bebê era o Salvador do mundo, ansiosamente aguardado por nós. Que dia glorioso!

A partir dali, não parei de falar do menino a todos os que passavam pelo templo e também aguardavam a preciosa promessa da redenção.

Na nossa cultura, pessoas da minha idade são muito respeitadas. Por isso, todos aceitam a minha palavra e ouvem com atenção quando eu conto essa experiência.

Bom, vocês já ouviram bons conselhos dos meus colegas. Só gostaria de acrescentar um: não deixem de ir ao templo sempre. Quantas oportunidades temos ali e como Deus pode nos usar para sua adoração, mas também para abençoar outros. Disseram-me que hoje muitos templos ficam fechados durante a semana. Que pena! Mas soube também que existem salas adicionais, onde é possível reunir pequenos grupos ou receber alguém para orar – talvez o equivalente ao nosso pátio. Por que não organizar uma escala entre vocês para estarem ali numa sala, disponíveis para receber e ouvir pessoas, e depois orar por elas? Que grande passo já seria este!

Que Deus os abençoe.

Délnia Bastos é casada, mãe de três filhos e avó de cinco netos, e serve na área de governança em algumas iniciativas de missão.

Leia mais:

>> Isabel – “Minha segunda carreira foi ser mãe”, por Délnia Bastos

>> Zacarias – um testemunho que fala por si mesmo, por Délnia Bastos

>> Conselhos de Simeão – um 60+ do primeiro Natal, por Délnia Bastos