O caminho é unir a sabedoria e a experiência das pessoas idosas à energia e aos novos conhecimentos dos jovens.
Por Kléos Magalhães Lenz César
A desigualdade entre gerações é um fato real. Jovens e idosos têm opiniões, prioridades e estilos de vida diferentes. Essas desigualdades podem produzir os “conflitos de gerações”.
Há valores inquestionáveis na sabedoria da velhice, os quais devem ser considerados pela juventude. Os mais velhos, contudo, não devem ignorar o fato de que grande parte de nossos jovens também conhece valores igualmente indiscutíveis. Às vezes, esses valores, de jovens e de velhos, são os mesmos, porém vistos de maneiras diversas e expressos em ângulos e palavras diferentes. Cabe a cada grupo não se julgar dono absoluto da verdade, que pode estar com uns ou com outros, ou com ambos. O respeito, o diálogo e a tolerância mútua, sustentados pelo vínculo do amor, são as virtudes que possibilitam esse entendimento.
No livro de Esdras, há um interessante relacionamento entre jovens e idosos, com suas igualdades e desigualdades.
Ambos os grupos, igualmente alegres, comemoravam o lançamento dos alicerces do novo templo. Ambos cantavam com vozes altas. Ambos rendiam graças ao Senhor com um
mesmo refrão: “Ele é bom, porque a sua misericórdia dura para sempre sobre Israel” (Ed 3.11).
Mas, nos dois versículos seguintes, há uma aparente desigualdade: “Porém muitos dos sacerdotes e levitas e cabeças de famílias já idosos, que viram a primeira casa, choraram em alta voz quando à sua vista foram lançados os alicerces desta casa; muitos, no entanto, levantaram as vozes com gritos de alegria. De maneira que não se podiam discernir as vozes de alegria das vozes de choro do povo.” (Ed 3.12-13).
Os idosos choravam enquanto os jovens jubilavam. Em face dos acontecimentos do dia, quem estava com a razão? Naturalmente que ambos, e cada um tinha o seu motivo.
Os idosos, presos ao passado, choravam porque haviam visto o primeiro e belíssimo templo, construído por Salomão e brutalmente destruído por seus inimigos. Agora, as obras de reconstrução começavam. Os jovens, que não haviam conhecido a primeira casa e, por isso, não sofriam influências saudosistas, emocionavam-se com os fatos presentes e
as perspectivas futuras. As lágrimas dos idosos voltavam-se mais para um passado glorioso, enquanto que o riso dos jovens antevia um futuro igualmente glorioso. Mas ambos, vertendo lágrimas ou abrindo-se em risos esfuziantes, estavam igualmente felizes e louvavam ao Senhor pela grande vitória alcançada. Eram manifestações desiguais com intenções iguais.
Entretanto, imaginemos aqueles idosos e jovens se repreendendo mutuamente por suas reações num dia memorável! Os velhos querendo que os novos chorassem com eles, e
os novos desejando que os velhos abrissem um riso festivo. Essa intolerância mútua certamente ofuscaria todo o brilho da festa. Mas eis que, mãos dadas e esquecidas as desigualdades, todos, unidos por uma só alegria, louvavam ao Senhor, Deus de idosos e de jovens.
Isso é possível em nossos dias. Só que os jovens precisam entender os idosos, e os idosos, os jovens. Tal convívio tornaria bem mais agradável a vida de uns e outros.
A psicóloga Maria Luíza M. Bisinotto alerta:
No futuro, com a extensão do período de vida, os casais terão, talvez, 30 ou 40 anos pela frente, depois da saída dos filhos de casa. Serão comuns famílias de quatro ou cinco gerações. Carece, então, que, urgentemente, comecemos a mudar os modelos de papel para as relações familiares no estágio tardio da vida. Carece, ainda, que alteremos a natureza dos relacionamentos pais-filhos, os
quais mudam no estágio posterior da vida. O caminho é unir a sabedoria e a experiência das pessoas idosas à energia e aos novos conhecimentos dos jovens. A base do novo relacionamento será o rico intercâmbio entre as gerações. É importante nutrir um sentimento de orgulho pela idade, pela própria história e experiência de vida e pela capacidade de lidar com a mudança. O livro dos Provérbios ensina-nos que “adquirir sabedoria vale mais que o ouro” (Pv 16.16).
Nota
1. Maria Luíza M. Bisinotto. Edições Kolbe, julho de 1998, p. 16.
Artigo publicado originalmente no livro Fui Moço, Agora Sou Velho. E Daí?, Kléos Magalhães Lenz César. Ultimato.
Enquanto vivemos continuamos a aprender, e enquanto aprendemos, continuamos a viver
Elben César (1930-2016), pastor, fundador e diretor-redator da revista Ultimato, apreciava anotar frases de livros lidos e tinha vários arquivos impressos delas.
Algumas frases eram usadas em palestras ou exposições bíblicas, outras em artigos da Ultimato ou em livros, e várias delas eram compartilhadas com familiares e amigos.
Revendo seus arquivos há algumas semanas, uma das filhas encontrou as frases a seguir, do livro O outro lado da montanha, de Howard G. Hendricks, professor, conferencista e escritor.
Para Hendricks, é possível chegar à velhice com dignidade e disposição, e o segredo está no compromisso com valores que, ao contrário do corpo, não sofrem os efeitos do tempo. O livro foi escrito a partir de conversas sobre o envelhecimento, partindo de princípios bíblicos para mostrar que, nas Escrituras, idoso não é sinônimo de incapaz ou descartável – pelo contrário, a Palavra de Deus reserva grande honra e responsabilidade para os 60+.
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A pessoa tem a idade da sua postura mental, e não das suas artérias. A atitude é o volante da vida; uma pequena curva a leva a um destino radicalmente diferente. (p.12)
A velhice deve ser tempo de expectativa, e não de escape; de senescência, e não de senilidade. A senescência (um sinônimo para envelhecimento) é uma fase natural; acontece com todos nós. Senilidade, pelo contrário, é uma perda antinatural de nossas faculdades durante essa fase. (p.13)
Pode-se sempre predizer a queda de uma cultura pelo modo como trata suas crianças e seus idosos, e nós estamos maltratando ambos. (p.17)
A velhice é uma parte tão importante e significativa da vontade perfeita de Deus para nós quanto a juventude. Ele está interessado tanto no florescer quanto no fenecer da vida. (p. 20)
Os anos podem enrugar a pele, mas a perda das esperanças e da admiração pela vida traz rugas à alma. (p. 25)
Pessoas que nunca sofreram dor, desapontamento ou perda, tendem a exibir um tipo superficial de cristianismo. A dor forja uma estrutura para nos proporcionar perspectiva. (p.37)
Há duas linhas na vida de uma pessoa: a linha da vida e a linha do propósito. Quando a linha do propósito evapora, é apenas uma questão de tempo antes que a linha da vida cesse. (p. 44)
Se uma pessoa é resmungona e apática, ela provavelmente resmungará mais e mais à medida que seu corpo envelhecido falhar. (p. 53)
O método de Deus é sempre pegar uma pessoa honesta e colocá-la no meio de uma sociedade corrupta para demonstrar o poder da sua graça. Cristãos vivem num mundo que muda a todo momento, mas eles confiam naquele que nunca muda. (p. 58)
Devíamos nos aposentar para alguma coisa, não apenas de alguma coisa. Para os cristãos não existe aposentadoria em relação aos propósitos de Deus. É possível aposentar-se do emprego, mas nunca da vida, nunca do ministério. Só diversão e nada de trabalho – ou só trabalho e nada de diversão – são igualmente enfadonhos. (p. 66)
Enquanto vivemos continuamos a aprender, e enquanto aprendemos, continuamos a viver. (p. 85)
Se as pessoas falam apenas sobre seus problemas e preocupações, a possibilidade de terem amizades duradouras é nula. (p. 93)
Os idosos não deveriam ser párias sociais, mas uma ponte viva entre as gerações; não deveriam ser becos sem saída, mas avenidas bem iluminadas que conduzam os mais jovens às riquezas de uma fase empolgante da vida. (p. 94)
O crescimento espiritual não é uma opção, é uma necessidade. (p. 96)
O conceito cristão da morte não é escuridão, mas amanhecer, o começo da vida na presença da luz. (p. 101)
Todo mundo tem um armário cheio de mágoas, pois nosso mundo é pródigo em distribuir decepções. (p. 109)
Nas Escrituras a idade avançada é consistentemente tratada não como um problema, mas como uma bênção – uma bênção para a família. (p.114)
Mais que nunca nossas igrejas precisam soltar o cabresto dos membros mais velhos e deixá-los perambular livres com o objetivo claramente fixado de plantar sementes de justiça (Is 61.3). (p. 126)
Sem Jesus Cristo nosso fim é sem esperança, mas com ele, nossa esperança não tem fim.
Ser avó é muito melhor do que tudo o que dizem. Netos são iguais a filhos, só que com açúcar em cima
Por Cássia Sakiyama
Porque o Senhor é bom, a sua misericórdia dura para sempre e, de geração em geração, a sua fidelidade. Salmo 100.5, ARA
Deus tem sido bondoso e misericordioso comigo de uma maneira maravilhosa. Entre as muitas bênçãos recebidas ao longo dos meus 64 anos, quero destacar duas. A primeira bênção é, na verdade, uma série de livramentos e milagres. A segunda, é que sou avó de cinco lindos netinhos.
Em setembro de 2024, tive uma meningite bacteriana. Durante 27 dias de internação, dos quais 12 no CTI, tive septicemia, parada cardíaca, AVC, tetraparesia (fraqueza muscular dos membros), infecção hospitalar e perda parcial de audição. Mas, o Senhor preservou a minha vida, atendendo as orações dos familiares, amigos e irmãos em Cristo. A Ele seja dada toda honra e toda glória.
Antes da meningite, eu já era uma avó muito coruja do Pedro, do Lucas e do João. No dia que saí do CTI, fui abençoada com o nascimento do quarto netinho, o Samuel. Ainda no hospital, recebi também a notícia de que o quinto neto que esperávamos seria, na verdade, uma menina, a Clara.
Ao saber do nascimento do Samuel, orei para que o Senhor me permitisse conhecê-lo pessoalmente. Quando ele tinha quase dois meses, minha filha o colocou no meu colo! Aí, tive coragem de orar pedindo para conhecer a netinha que nasceria quatro meses depois. O nosso bom Deus me concedeu a graça de pegar a Clara no colo ainda na maternidade.
Após a meningite, eu fiquei quase dois meses sem conseguir andar. Para a minha reabilitação, a presença dos meus netinhos tem sido decisiva. O Lucas era o único netinho que morava na mesma cidade que eu, quando tive a alta hospitalar. Ele me visitava todos os dias e chegava devagarinho, estranhando a cadeira de rodas. Mas, sempre me perguntava: “Você está bem?”, e me olhava diretamente nos olhos. Como isso me fez bem!
Pedro e João logo vieram me visitar. Os dois netinhos mais velhos, Pedro e Lucas, sempre me pediam para brincar com eles. E logo entenderam que precisavam trazer os brinquedos até mim. As minhas pernas e os meus braços viraram pistas para os carrinhos e bases para as construções de blocos. Eles acompanhavam de perto cada progresso meu e até imitavam os meus exercícios de fisioterapia. Depois, minha bengala virou o brinquedo predileto e bastante disputado.
Recentemente, pude participar da festinha de 1 aninho do João, conseguindo até ajudar nos preparativos. Foi uma grande alegria ver o João batendo palminhas, enquanto toda a nossa família cantava “Parabéns” para ele.
Atualmente, ando bem sem apoio, a audição de um dos ouvidos melhorou muito, estou conseguindo pegar os netinhos no colo, brincar com eles e até fazer um bolo juntos. Quando me perguntam “como é ser avó” eu respondo: “É muito melhor do que tudo o que dizem!”. E meu marido completa: “Netos são iguais a filhos, só que com açúcar em cima”. Ou seja, sou uma avó muito feliz.
Cássia Sakiyama, esposa, mãe de três filhos e vovó de cinco netinhos. Membro da Igreja Presbiteriana de Viçosa, em Viçosa, MG.
Permanecer em Cristo – Eis o segredo. Agarre-se nele, disso depende sua vida e frutificação
Por Eli Alone
Viticultura – Pâmpano é o ramo da videira que só dá folhas.
Se fui enxertado na videira que é Cristo e não estou frutificando para sua glória, que resta a Deus fazer?
O fruto que Ele procura é proveniente da seiva que ele produz em nós, que permanecermos nele.
Sei que a explicação não está na botânica ou em qualquer outra ciência ligada ao reino vegetal. Isto procede do Senhor e é maravilhoso demais para nós.
“Eu sou a videira, e vocês, os ramos. Se alguém permanecer em mim, e eu permanecer nele, esse dará muito fruto, pois sem mim vocês não podem fazer nada. Se alguém não permanecer em mim, será como o ramo que é jogado fora e seca” (Jo 15.5, 6, NVI). Olha a despampa.
Permanecer em Cristo – Eis o segredo. Agarre-se nele, disso depende sua vida e frutificação.
Despampa não é poda, é julgamento. A frase “O julgamento começa pela casa de Deus” é uma referência bíblica encontrada em 1 Pedro 4.17, e significa que o julgamento divino terá início com aqueles que se dizem cristãos ou pertencem à igreja, antes de atingir o mundo em geral. Essa ideia sugere que os crentes serão os primeiros a enfrentar o julgamento, servindo como um exemplo para aqueles. (IA).
Eli Alone, 72 anos, viúva, mantém desde 2023 o blog Terra do Esquecimento. Ela se define como pentecostal reformada e leva muito a sério o ministério da intercessão.
Artigo publicado originalmente no blog Terra do esquecimento. Reproduzido com permissão.
Paradigmas missiológicos clássicos para líderes mais velhos num contexto da narrativa de ódio entre gerações onipresente na internet
Por Justin Schell
O conflito entre gerações é algo tão velho quanto a própria Bíblia. Nela, vemos um sogro ganancioso se aproveitar de seu genro (Gn 29-31). Vemos gerações mais velhas falhando completamente em investir nas mais jovens (Juízes 2.10-15). Vemos um jovem rei escutar à insensatez de seus amigos, ao invés de um conselho sábio de anciãos (1 Reis 12.1-15). Vemos adultos afastando crianças, como se o Messias não tivesse tempo para elas (Mateus 19.13-15). Vemos um profeta, mais velho, desistir de um homem jovem, que, anteriormente, havia falhado em cumprir seus compromissos. (Atos 13.13; 15.36-41).
Não há nada de novo sob o sol. A juventude, pelo mundo e através do tempo, lutou para receber a sabedoria das gerações de seus pais e avós. E esses mesmos pais e avós se preocuparam ao extremo com as escolhas de seus filhos, seja em moda e música ou em questões mais significativas, como as escolhas de trabalho ou namoro e casamento. Afinal, os pais de Julieta simplesmente não conseguiam entender seu amor por Romeu.
A velocidade com a qual a informação chega até nós hoje e a extensa narrativa sobre o ódio entre gerações, que é onipresente na mídia e na internet, fazem parecer que estamos entrando em um novo território. Mas, não estamos.
Aquela sensação de desconforto que você sente ao se tratar de outras gerações é normal. Eu espero que esse artigo te ajude a responder a ele de uma forma que honre ao Senhor e fortaleça a igreja. Eu estou escrevendo, primariamente, para as gerações mais velhas, mas eu acredito que o que eu compartilho também vá ser instrutivo para os leitores millennial e Gen-Z. Mais especificamente, estou escrevendo para líderes de missões mais velhos.
Na verdade, o que eu vou argumentar é que você já tem as ferramentas necessárias para amar, encorajar e fazer parceria com líderes de missões mais novos. Seu treinamento de missão preparou você para isso. Deixe-me relembrá-lo de dois dos mais importantes estudiosos de missões dos últimos 50 anos e como seus trabalhos informam a conversa entre gerações.
Andrew Walls (1928-2021) Andrew Walls foi um historiador de missões britânico que teve um impacto tremendo nos estudos de missões ao longo das últimas décadas. Uma das contribuições mais úteis que Walls fez foi ao articular os princípios indigenizantes e peregrinos do evangelho.1
O princípio indiginezante do evangelho significa que o evangelho está em casa em todas as culturas. Poderíamos até dizer que o evangelho chega em uma cultura e encontra coisas lá que, pela graça de Deus, ele afirma como bom e bonito.
O princípio do peregrino, por outro lado, diz que o evangelho se porta como juiz de toda cultura. O evangelho está em casa no contexto árabe, mas chama todos os árabes a se arrependerem daquelas expressões culturais que vão contra Deus e seus caminhos. Ele diz ‘Você pode permanecer em sua cultura, mas você é um cidadão do céu antes de qualquer outra coisa’.
O que isso tem a ver com gerações? Bem, o que são as gerações além de culturas limitadas ao tempo? Por exemplo, gerações irão, frequentemente, ter sua própria e única linguagem (e.g. gírias). Especialmente ao longo do último século, e de forma crescente nessas gerações nativas do digital, gerações mais jovens se vestem diferentemente de seus pais. Como mencionado acima, eles podem escutar a músicas completamente diferentes e seguir vocações totalmente opostas. Na verdade, a definição de uma vida bem-sucedida oscila dependendo de onde você nasceu. A definição de “a que pessoas ou grupos elas pertencem” até está em debate.
Então, o que o líder mais velho deve fazer? Alguns podem chamar isso de pesquisa etnográfica. Alguns dos líderes foram os primeiros estrangeiros a visitar uma tribo remota. Você aprendeu, algumas vezes, duas ou três novas línguas, simplesmente, para ser capaz de se comunicar com um grupo de pessoas inalcançado. Você trocou suas vestimentas, culinária, confortos e cultura, com o objetivo de se tornar tudo para todos. Você sabe como exercer, compartilhar e se livrar completamente do poder, para que os líderes da sua cultura adotiva possam pegar o bastão e correr com ele. Sua inteligência cultural é sem igual. Na verdade, você era tão bom nisso que, quando você voltou ao seu “lar”, você não se sentia mais em casa. Você, agora, é um estranho e alienígena em sua terra natal.
É por isso que eu acredito em você. Você tem as habilidades e o coração para entender a cultura, linguajar, forças, hábitos e vícios da próxima geração. Enquanto você explora a “cultura” deles, você terá a oportunidade de afirmar tudo de bom que você encontrar lá. O Evangelho vai estar em casa nas culturas dos millennial e dos Gen-Z. O anseio deles por comunidade, o altruísmo e o senso de justiça. Ao mesmo tempo, eles vão precisar que você os ajude, amavelmente, a ver as formas que a cultura deles entra em conflito com a cultura do céu, como, às vezes, até suas características boas tornam-se ídolos, ou seja, suas tendências sincretistas.
Paul Hiebert (1932-2007) Quando você busca ajudar gerações mais novas a se desenraizarem do sincretismo, você precisa confiar em outra ferramenta que você, provavelmente, tem de seu treinamento de missão. Em 1987, Paul Hiebert publicou um artigo intitulado Contextualização Crítica (Critical Contextualization)2. Como um lembrete, aqui estão os passos na abordagem de Hiebert.
Exegese da Cultura – Esse é um estudo não-crítico da cultura local fenomenologicamente, simplesmente tentando entender quais são as práticas e as razões para eles na cultura atualmente. No nosso caso: O que a geração mais jovem faz e o por que o fazem? Explore isso como se você estivesse cruzando para um novo povo etno-linguístico.
Exegese da Escritura e a Ponte Hermenêutica – Agora, vamos à Escritura, com esses jovens líderes, para discernir o que ela tem a dizer sobre esses comportamentos e as crenças que dão suporte a eles. Claro, nós devemos tomar cuidado para não forçar as práticas da nossa cultura dentro da Escritura e, assim, impor um Cristianismo de Boomer ou Gen-X sobre a próxima geração.
Resposta Crítica – Hiebert escreve “O terceiro passo é que as pessoas, coletivamente, avaliem criticamente os próprios costumes do passado à luz de seus novos entendimentos bíblicos e tomem decisões quanto à sua resposta às suas recém-descobertas verdades”. Você confia nas gerações mais jovens para lutar, com a Escritura, fielmente, em oração e comunidade? Fique à vontade para fornecer informações e sabedoria, mas, no fim, eles devem tomar suas próprias decisões.
Como em qualquer cultura, os jovens líderes Gen-Z no nosso meio podem manter algumas práticas e ideias porque eles não são contrários à Escritura (alguns podem até ser louvados pela Escritura, como vimos anteriormente). Por outro lado, eles podem rejeitar algumas coisas que eles acreditavam e praticavam anteriormente. Finalmente, eles podem modificar algumas crenças e práticas para alinhar, de forma mais completa, com a Escritura. No final, eles ainda serão quem Deus os criou para ser nessa geração, mas, por causa da sua paciência e sua amizade, eles têm a chance de viver, ensinar e liderar mais como Jesus.
Melhores juntos Estamos todos cientes de que, às vezes, somos cegos aos pecados e vieses de nossa própria cultura. Líderes mais jovens sabem que eles não sabem tudo. Aqueles com quem eu trabalho já demonstraram humildade e ensinabilidade incríveis. Eles têm fome de crescimento. Eles querem ser mais como Cristo. Eles leram e escutaram o máximo que puderam. Eles não querem uma plataforma… eles querem, apenas, fazer a diferença. À luz disso, deixe-me lhe oferecer um desafio a mais.
Você permitirá que os jovens líderes falem para os seus pecados e vieses geracionais também? Você os convidará para um processo de contextualização crítica, onde eles estudem a sua cultura, onde vocês leem a Escritura juntos, e então você considerará como o Evangelho os chama a responder e viver, de forma mais completa, a cultura do céu ao invés de sua própria cultura geracional? Pode ser assustador, humilhante e intimidador, mas, a alternativa – sentar e esperar que os líderes de missões mais jovens pensem, falem e comportem-se como você – não é algo que você quer.
Por causa de Cristo, os líderes de missões mais velhos que eu conheço querem se doar para a próxima geração. Eles também mostraram uma humildade incrível através de horas de mentoria e de oração; intencionalmente, abrindo portas para oportunidades de crescimento; provendo com livros e conferências, sem contar com refeições, dinheiro e quartos de hóspedes; compartilhando ou cedendo totalmente a autoridade; convidando, escutando e fornecendo informações. É muito lindo.
Notas 1 Andrew Walls. O Movimento Missionário na História Cristã: Estudos sobre a Transmissão da Fé. Maryknoll, NY: Orbis Books, 1996. 2 Paul G. Hiebert. “Contextualização Crítica”. International Bulletin of Missionary Research, 11(3), 104-112.
Justin Schell, diretor de projetos executivos para o Movimento Lausanne.
Artigo publicado originalmente no site Lausanne. Reproduzido com permissão.
Com o tema “Morrer jovem o mais velho possível!” o encontro acontecerá em Recife, em setembro
O Movimento Cristão 60+ está preparando mais um encontro regional e, desta vez, os anfitriões são do Nordeste do Brasil.
À semelhança do 1º Encontro Regional – que aconteceu em São Paulo, no dia 17 de maio – o objetivo do 2º Encontro é facilitar a participação do maior número possível de pessoas da região interessadas no que tem sido dito e feito por e para pessoas com mais de sessenta anos de idade.
Com o tema “Morrer jovem o mais velho possível!”, o Segundo Encontro acontecerá no dia 20 de setembro de 2025, das 8 às 18 horas na Igreja Presbiteriana da Madalena, em Recife, PE. Os anfitriões, participantes do ministério Águias de Cristo, estão preparando uma programação que inclui plenárias, momentos de café e de almoço com tempo de qualidade para comunhão, oração e um momento especial de louvor nordestino.
Conheça os assuntos das plenárias
Desafios da pastoral do idoso ante o rápido envelhecimento da população, Pr. Robert Koo
Envelhecimento – alegrias e constrangimentos, com o Dr. Ageu Lisboa
De que forma os cristãos podem atuar de forma colaborativa para evangelizar a população que está envelhecendo?, Pr. Mariano Júnior
Levantem as mãos cansadas e fortaleçam os seus joelhos enfraquecidos, Pr. Lutero Teixeira da Rocha
Se você quer aprender a envelhecer, ou compreender melhor o envelhecimento de seus familiares ou membros de sua comunidade, ou se equipar para um ministério profícuo com os 60+, não perca a oportunidade de estar presente neste Encontro. Clique aqui e faça sua inscrição.
O Movimento Cristão 60+ nasceu no coração de um grupo de amigos nesta fase de idade com o objetivo de despertar as igrejas para esta realidade e, ao mesmo tempo, para encorajar os 60+ a não se aposentarem da carreira cristã, ao autocuidado e a servirem à igreja com seus dons, experiências e rede de contatos.
Uma das principais formas de atingir os seus objetivos é a promoção de eventos. Visite o site do MC 60+ para saber mais sobre o Movimento e ler sobre os encontros já realizados.
Informações:
2º Encontro Regional do Movimento Cristão 60+
Tema: Morrer jovem o mais velho possível
Quando: 20 de setembro de 2025, das 8 às 18 horas
Onde: Igreja Presbiteriana Madalena em Recife, Rua Real da Torre, 374 – Madalena, Recife, PE
O maior desafio para o profissional de saúde cristão é trabalhar de forma integral com o idoso. Conhecê-lo é importante
Entrevista
Haniel Passos Eller, especialista em clínica médica e geriatria em Goiânia, GO, foi presidente do Médicos de Cristo (MDC) de 2014 a 2017 e continua ativo na associação, facilitando cursos e orientando novos líderes. Atualmente, é diretor executivo associado no International Christian Medical and Dental Association (ICMDA), atuando no apoio e desenvolvimento de médicos cristãos nas Américas e África de Língua Portuguesa.
Na entrevista a seguir, vamos conhecer mais de sua trajetória trabalhando com o envelhecimento.
MDC Revista: Conte o que o levou a especializar-se em geriatria.
Haniel: A geriatria nunca tinha sido uma opção para mim. Eu digo que ela me escolheu, ao invés de eu tê-la escolhido. Fiz clínica médica pensando em ir para a cardiologia – o mesmo campo onde meu pai atua. Porém, durante a residência de clínica, descobri um mundo bem diferente daquilo que eu imaginava e muitas coisas das quais eu não fazia ideia, principalmente na área de cuidados paliativos. Isso me motivou a sonhar um pouco mais alto e sair um pouco fora do comum. A geriatria era uma coisa meio distantepara mim. Não conhecia muito da especialidade. Mas, durante a residência de clínica, resolvi fazer um optativo dentro dessa área. E me encantei pelo dia a dia. E, apesar de ver as dificuldades que um geriatra enfrenta no cuidado do paciente idoso, percebi que poucos médicos faziam aquilo. Não havia muitos médicos para o cuidado do idoso. Daí, eu pensei que essa era a área em que eu precisava atuar, justamente porque havia pouca gente fazendo. Vários colegas falavam: “Você tem todo o perfil de geriatria”. E como eu gosto muito da clínica médica e gosto muito da abordagem integral do paciente, de desafios diagnósticos, de reabilitação e de cuidados integrais, tudo isso me cativou. Tudo aquilo que eu acreditava para a medicina conseguiu se resumir na geriatria.
MDC Revista: Qual é o panorama do envelhecimento da população brasileira?
Haniel: O Brasil vive uma transição demográfica muito rápida: o que diversos países europeus levaram mais de cem anos para conquistar, o Brasil o fez em menos de vinte. Hoje temos mais idosos acima de 60 anos do que jovens até 14 anos. Aquela pirâmide já não pode mais se chamar de pirâmide. A base dela está mais curta, porque tem menos crianças nascendo, o meio dela está um pouco mais alargado e o ápice cada vez maior. Temos uma grande população de idosos acima de 60 que ultrapassa 30 milhões. Não deu tempo de prepararmos para isso. Já conseguimos perceber um gargalo em tudo isso.
MDC Revista: Quais os desafios que o país vai enfrentar com o aumento da população idosa?
Haniel: O Brasil já enfrenta os desafios de ter uma população envelhecida. Podemos ver um reflexo disso sem nem precisar olhar para os dados. Uma população idosa mais engajada, mais ativa no campo da política, da economia, idosos retornando ao mercado de trabalho mesmo depois de aposentados. O idoso de 70 anos de hoje em dia, não é mais aquele idoso de vinte anos atrás. Percebe-se uma mudança de paradigma gigantesca e inúmeras áreas precisam ser adaptadas frente a isso. Os idosos estão aí para ocupar espaços e devemos nos preparar para uma geração mais ativa e engajada na igreja, na política, em todos os campos. Precisamos incluí-los sem etarismo. Creio que esse é o maior desafio atual.
MDC Revista: Qual é o papel da igreja frente a esses desafios?
Haniel: A igreja sempre foi um espaço muito plural e devemos respeitar isso. A existência de diversos momentos dentro da comunidade, como momento para o jovem, momento para o idoso, culto para o idoso, culto para o jovem, culto para o bebê, culto para o adolescente, isso não existe. A nossa forma de cultuar a Deus e a nossa vivência como corpo de Cristo deve incluir gente de todos os tipos, jeitos e idades, principalmente. Então, acolher o idoso, aprender com ele e não segregá-lo. O papel da igreja é, principalmente, dar o apoio, como a Bíblia diz, ao órfão e à viúva, mas acolhê-los não no sentido de “venham aqui e fiquem nesse cantinho que eu não quero saber de vocês”, mas acolhê-los no sentido de incluí-los em tudo que é feito, tendo a paciência necessária para que eles se sintam bem nesse lugar. Não estou dizendo que isso é fácil, tanto que é um desafio para todos nós. Entender isso é compreender o envelhecimento como uma parte da vida, uma parte da jornada, uma parte da caminhada, e não algo a ser evitado ou que é pesaroso.
MDC Revista: Como profissionais de saúde cristãos podem fazer a diferença ao lidar com idosos?
Haniel: O desafio do cuidado integral é mais complexo ainda no idoso. O sistema de saúde caminha para consultas mais rápidas e com menos recursos. O desafio de um cuidado completo é cada vez maior, porque com idosos não dá para basear-se números. Importa mais a qualidade do que a quantidade. Claro que queremos ajudar o maior número de pessoas, e claro que queremos oferecer um cuidado de excelência, mas nem sempre temos essa disponibilidade. O maior desafio para o profissional de saúde cristão é esse: trabalhar de forma integral com o idoso. Isso pode ser minimizado principalmente conhecendo as particularidades do idoso, formas e métodos de comunicação rápidos e resolutivos. A geriatria não existiria se todas as especialidades conseguissem fazer a diferenciação necessária no cuidado do idoso. Claro que existem casos multicomplexos, mas cada profissional tem que saber fazer a sua parte com o idoso.
MDC Revista: Um braço da geriatria é a medicina paliativa. Essa lacuna parece ainda não estar preenchida no Brasil. Por quê? Como avançar nesse segmento?
Haniel: A medicina paliativa sempre foi muito conectada à geriatria. Durante o tempo de residência, nós passávamos por muitos estágios de medicina paliativa, onde abordávamos pacientes não geriátricos justamente porque essa área sempre foi ligada a geriatria. No entanto, nos últimos quinze anos, a medicina paliativa vem se desvinculando da geriatria e cresceu enormemente. Muitas especialidades começaram a entrar nesse ramo, e hoje ela não está mais restrita à geriatria. Ela está mais livre e disseminada, com residências e pós-graduações. Isso tem feito com que tenha essa maior penetração, especialmente em hospitais privados. A chave para o crescimento da medicina paliativa é a disseminação do conhecimento entre as diversas especialidades. O conhecimento só é conhecimento quando é compartilhado, e essa troca tem ajudado a aumentar a visibilidade da área. Hoje, vemos pediatras, cirurgiões e outros especialistas atuando em medicina paliativa, e isso tem sido muito positivo.
MDC Revista: Deixe uma mensagem final àqueles que trabalham ou gostariam de trabalhar com idosos.
Haniel: É fácil fazer aquilo que amamos. Difícil é amar aquilo que fazemos. A geriatria não é algo fácil. Trabalhar com idosos é desafiador. O contato com familiares que não aceitam o processo de envelhecimento ou a finitude da vida pode ser desgastante. No entanto, é importante entender que Deus nos chama para fazer algo relevante, que é ressignificar a vida das pessoas e trazê-las para uma nova esperança. A geriatria é uma área com uma grande necessidade, e quem enxerga essa necessidade tem o chamado para atuar nela. Quando conseguimos ver o valor da vida de um idoso e o impacto que podemos causar, sabemos que estamos no caminho certo. Se você enxerga esse valor, você é necessário nesse campo. E, se você se sente chamado, o espero como colega para trabalhar e impactar vidas no processo do envelhecer.
Entrevista publicada originalmente na edição 006 da revista virtual Médicos de Cristo. Para ler a edição, clique aqui.
“Seja você mesmo um exemplo de boas obras. No ensino, mostre integridade, reverência, linguagem sadia e irrepreensível!” (Tito 2.7,8)
Por Wilfried Korber
Devocional
O ministério do apóstolo Paulo foi muito mais abrangente do que parece à primeira vista. Se sua primeira tarefa foi testemunhar o que Deus tinha feito em sua própria vida, a seguir sua tarefa era pregar o Evangelho para um público muito diversificado de judeus, gregos e romanos. Cada povo tinha seus próprios costumes e em todos os casos o choque cultural em relação ao cristianismo era muito grande.
Em cada cidade por onde passava, surgiam as novas igrejas cristãs, muito carentes de doutrinas e novas condutas no viver diário. Foi muito difícil. Paulo conseguiu vários auxiliares, também pastores, aos quais ele encarregava a organização das igrejas locais. Um desses auxiliares foi Tito. A respeito dele lemos, que sendo um crente fiel, Paulo lhe deixou as seguintes instruções:
“Foi por esta causa que deixei você em Creta: para que pusesses em ordem as coisas restantes, bem como, em cada cidade, constituísse presbíteros, conforme prescrevi a você: alguém que seja irrepreensível, marido de uma só mulher, que tenha filhos crentes que não são acusados de devassidão, nem são insubordinados. Porque é indispensável que o bispo, por ser encarregado das coisas de Deus, seja irrepreensível, não arrogante, alguém que não se irrita facilmente, não apegado ao vinho, nem ganancioso. Pelo contrário, o bispo deve ser hospitaleiro, amigo do bem, sensato, justo, piedoso, deve ter domínio de si, ser apegado à palavra fiel, que está de acordo com a doutrina, para que possa exortar pelo reto ensino e convencer os que contradizem este ensino” (Tito 1.6-9).
Vejam quantas qualidades excepcionais Tito teve que encontrar para colocar na direção das novas igrejas homens que fossem aprovados. O problema não parou por aí. Paulo fez recomendações a homens idosos, às mulheres idosas, aos jovens casais e aos outros ainda mais jovens. Prestem atenção, porque essas recomendações valem também para os nossos tempos:
“Quanto aos homens idosos, que sejam moderados, respeitáveis, sensatos, sadios na fé, no amor e na perseverança. Do mesmo modo, quanto às mulheres idosas, que tenham conduta reverente, não sejam caluniadoras, nem escravizadas a muito vinho, a fim de instruírem as recém-casadas a amar o marido e os filhos, a serem sensatas, puras, boas donas de casa, bondosas, sujeitas ao marido, para que a palavra de Deus não seja difamada. Do mesmo modo, quanto aos mais jovens, exorte-os para que, em todas as coisas, sejam moderados. Quanto aos servos, que sejam em tudo, obedientes ao seu senhor, dando-lhe motivo de satisfação. Que não sejam respondões, nem furtem, mas que deem prova de toda a fidelidade, a fim de que, em todas as coisas, manifestem a beleza da doutrina de Deus, nosso Salvador” (Tito 2.2-9).
Por tudo isso vemos que os novos crentes não eram melhores ou piores do que as pessoas com quem nós também precisamos lidar. Termino com o versículo 7, porque nele está a recomendação dirigida a você e a mim: “Seja você mesmo um exemplo de boas obras. No ensino, mostre integridade, reverência, linguagem sadia e irrepreensível!”.
Wilfried Körber nasceu em Göttingen na Alemanha em 1931 e vive no Brasil desde 1937. Converteu-se aos 16 anos na então Igreja Alemã Batista Zoar, frequentada por sua mãe. Membro fundador da Igreja Batista Filadélfia de São Paulo, envolveu-se com o trabalho de evangelização de crianças e missões, com sua esposa Gisela, de saudosa memória. Há mais de uma década escreve textos para o devocionário Presente Diário. Atualmente vive em Sorocaba, SP. @lampadaparaosmeuspes_.
Imagem: Marcia Foizer. @marciafoizer. Usada com permissão.
Ser forte é uma missão. Deus quer que você e eu sejamos fortes, que não andemos apenas perplexos com os acontecimentos, mas que confiemos nele e em sua palavra
Por Elisa Maria Ferraz Arruda
Os justos florescerão como a palmeira, crescerão altaneiros como o cedro do Líbano; plantados na Casa do Senhor, florescerão nos átrios do nosso Deus. (Salmo 92.12-13)
Desde o ano de 2009, o Senhor havia falado ao meu coração para escrever sobre o tema” Ser forte e corajoso”, e comecei a fazê-lo, mas não imaginava quantas experiências vivenciaria e ouviria de várias pessoas para entender o significado desse tema.
O versículo 12 do livro de Salmos no capítulo 92: “O justo florescerá como a palmeira, crescerá como o cedro do Líbano”, começou a falar muito forte ao meu coração. O que este versículo teria a ver com ser forte e corajoso? Escrever sobre o assunto, foi um crescimento interior inigualável.
Muitas coisas aconteceram, uma delas durante uma viagem a Israel, no mês de outubro de 2010 com um grupo de irmãos e amigos. Durante a viagem vimos muitas palmeiras viçosas em pleno deserto, e uma de nossas irmãs mostrou-nos o cedro do Líbano – duas árvores presentes no versículo que falava tanto a mim.
Comecei a procurar o significado da referência à palmeira e ao cedro no versículo e encontrei alguns dados muito importantes, com os quais faremos algumas comparações para termos um melhor entendimento.
Palmeira é uma árvore forte, que não pode ser arrancada com facilidade, poque suas raízes se aprofundam na terra e se tornam muito fortes, por isso ela não é destruída por ventos e tempestades. Segundo o site Ikisan Agricultural Information of India, a quantidade de raízes depende do ambiente e da idade da planta. Sendo possível existir mais de três mil e seiscentas raízes em uma só árvore com idade de sessenta e setenta anos, sendo que, a maioria dessas raízes fica próxima à superfície da terra, apenas algumas se aprofundam no solo em busca de água e de estabilidade à palmeira. Mesmo no deserto ela floresce e não morre por causa das raízes.
Quando retiramos a casca ou ferimos uma árvore, ela começa a morrer, mas com a palmeira é diferente. Se retiramos sua casca ou se a ferimos, ela não morre, porque ela é nutrida de dentro para fora. Com essas informações, comecei a entender o significado do versículo. O justo também é nutrido pela palavra de Deus de dentro para fora e, muitas vezes, ele é atingindo e ferido, mas jamais será morto pelas mãos do inimigo.
Outra coisa fabulosa que acontece com a palmeira é que ela resiste a ventos que chegam a cento e cinquenta quilômetros por hora, curvando-se várias vezes até o chão, tocando a terra sem quebrar, e quando o vento acalma, ela volta à posição normal e se torna mais forte do que era antes. Um vento de cinquenta quilômetros por hora pode quebrar e arrancar uma árvore do chão, porém, a palmeira sobrevive a ventos mais fortes. Deus quer que fiquemos firmes, que floresçamos como a palmeira, que fiquemos estáveis. Estáveis no nosso relacionamento com ele, estáveis nas nossas emoções, estáveis na nossa vida financeira.
O Senhor quer que finquemos nossas raízes dentro da sua palavra para sermos nutridos de dentro para fora, e assim nossa vida não será cheia de altos e baixos, mas estável.
O mesmo acontece com o justo quando enfrenta as tempestades da vida, elas podem até curvá-lo, mas não têm autorização, nem poder para quebrá-lo. Nossa vida firmada no Senhor será como a palmeira que nada pode quebrar!
Já o cedro do Líbano possui folhagem perene, e é uma árvore de grande longevidade, podendo viver durante séculos. Ele cresce devagar, mas chega a atingir quarenta metros de altura. Nos primeiros três anos de vida, enquanto a planta tem cerca de cinco centímetros, suas raízes crescem até um metro e meio de profundidade. Somente a partir quarto ano é que a árvore começa a crescer.
O versículo do Salmo 92 diz que o justo crescerá como o cedro do Líbano, então o cristão cresce, e a promessa é que mesmo que esse crescimento seja lento ele acontecerá e tornará o justo visível para todos, suas raízes serão profundas, ele continuará crescendo e se aprofundando na palavra de Deus.
Portanto, a preocupação de filho de Deus, principalmente nos primeiros anos da vida cristã, não deve estar no crescimento em si, mas em lançar as suas raízes na profundidade da Palavra. Lembre-se que nos três primeiros anos o cedro possui raízes de um metro e meio de profundidade, enquanto a planta apresenta apenas cinco centímetros.
A primeira aparição das pinhas (estróbilos) – onde ficam as sementes – ocorre quando a planta tem entre vinte e quarenta anos. Geralmente, as pinhas são produzidas de dois em dois anos, amadurecendo doze meses após a polinização. Quando se tornam maduras no mês de outubro, elas se abrem para dispersar as sementes aladas ao longo do inverno. Suas sementes medem mais ou menos quinze milímetros de comprimento e seis milímetros de diâmetro, com uma asa triangular de vinte e cinco centímetros de comprimento. Como o cedro, o justo crescerá devagar e sempre, se tornando, forte e seguro através da fé na palavra de Deus, alcançando longevidade.
Uma outra curiosidade aprendida com a botânica e que a raiz de toda árvore quando cresce muito e atinge uma rocha para de crescer, mas com o cedro do Líbano acontece o contrário: ao encontrar uma rocha sua raiz a abraça e continua a crescer ficando mais firme. O mesmo acontece com o justo que ao encontrar-se com a Rocha, que é Crist, a abraça, firmando suas raízes, envolvendo-a e tornando-se cada vez mais firme.
Apesar de todas as qualidades que a palmeira tem, ela não resiste ao frio. Ela floresce apenas em climas quentes, vindo o frio ela morre. Deus quer que durante os invernos da nossa vida, sejamos como o cedro, que não morre, mas sejamos perenes, revivendo assim que passa a estação gelada, e que durante os invernos da vida esparramemos a semente de sua palavra guardada no nosso coração e praticada em nossas ações.
Se você está esfriando no seu relacionamento com Deus o alerta é: cuidado pois você está começando a morrer como a palmeira. Se está frio espiritualmente, sua responsabilidade é a de ser como o cedro, e cultivar um ambiente espiritual propício, a fim de se manter quente no fogo do Espírito Santo.
Precisamos estar com nossas raízes firmadas na Palavra: “Plantados na Casa do Senhor, florescerão nos átrios do nosso Deus” (Sl 92.13). Ao tomar posse das promessas de Deus presenciamos as maravilhas que ele fez, faz e fará em nossas vidas.
Ser forte é uma missão. Deus quer que você e eu sejamos fortes, que não andemos apenas perplexos com os acontecimentos, mas que confiemos nele e em sua palavra. Ela nos fala que não devemos ter medo, mas ousadia, pois toda nossa fraqueza deve estar debaixo da Rocha, da nossa Fortaleza que é o Senhor. Nós não fomos concebidos para ter medo, mas sim para sobreviver às tempestades, com nossas raízes firmadas na Rocha que é Cristo, plantados na Casa do Senhor, produzindo e semeando as sementes da Palavra nas terras férteis dos corações.
“Ora, não te ordenei: Se forte e corajoso Não temas e não te apavores, porquanto Yahweh o SENHOR teu Deus, está contigo por onde quer que andes.” (Josué 1.9)
Elisa Maria Ferraz Arruda, 80 anos, membro da 1ª Igreja Presbiteriana Independente de Londrina, PR.
Premiado pela Câmara Municipal de São Paulo pelo trabalho de prover um descanso para o cuidador de idosos
Por Luciana Mitsue Sakano Niwa e Emília Naomi Todo Liem
Aniversário de 17 anos do Projeto Lírios do Campo (05/2025)
“Vejam como crescem os lírios do campo. Eles não trabalham nem tecem. Contudo, eu lhes digo que nem Salomão, em todo seu esplendor, vestiu-se como um deles. (…) Busquem pois em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas lhes serão acrescentadas”. (Mateus 6.28, 29, 33)
Em 1996, o desejo de servir a Deus cuidando de pessoas idosas com limitações, floresceu no coração de uma mulher. Ela orou por aproximadamente dez anos e após a aposentadoria do marido, nascia o Projeto Lírios do Campo, criado oficialmente em 2007.
Com objetivo de proporcionar um dia de folga para o cuidador de idosos portadores de comprometimento cognitivo e físico leve e moderado, o Lírios do Campo recebe idosos para passar o dia na primeira, segunda e terceira sexta-feira de cada mês.
O projeto começou com um convite aos interessados em trabalhar com pessoas idosas. A ideia era que o projeto funcionasse com base em princípios bíblicos. Os interessados se reuniram por um ano para planejar, estruturar, desenvolver, capacitar e estagiar, com vistas a atender da melhor maneira possível os idosos que ficariam sob seus cuidados.
Lírios do Campo é ligado à Igreja Metodista Livre da Saúde, em São Paulo, SP. Do ponto de vista financeiro, o projeto sem fins lucrativos é autossustentável. Para cobrir os gastos com materiais lúdicos e de cuidados é cobrada uma mensalidade, e para subsidiar as refeições é paga uma taxa.
No projeto, são chamados usuários as pessoas idosas que desfrutam do projeto. O cuidador é o familiar responsável pelo cuidado do idoso e o/a voluntário/a é a pessoa de maneira direta no projeto.
Os critérios para participação do usuário no projeto são: presença de cuidador, vontade da pessoa em participar e competência do grupo em cuidar. Desse modo, a pessoa idosa e o cuidador participam de dois encontros e decidem se querem envolver-se com o projeto. Se decidem participar, Lírios do Campo entrevista o cuidador para conhecer as características sociodemográficas, hábitos alimentares e vesico-intestinais, atividades de vida diária, problemas de saúde, medicações em uso, convênio médico e o contato do cuidador.
O projeto tem capacidade para atender dezoito idosos. Atualmente, todas as vagas estão preenchidas e existe uma fila de espera. A maioria dos usuários tem ascendência japonesa e alguma limitação física e/ou cognitiva. Há predomínio de mulheres e a mais idosa tem 103 anos. Os cuidadores são familiares e nem todos frequentavam a igreja quando começaram a participar do projeto.
Atividades adaptadas.
As atividades acontecem entre 9 e 14 horas e incluem: aferição de pressão arterial e frequência cardíaca; músicas e louvores entoados acompanhados ao som do teclado; meditação rápida sobre uma passagem da Bíblia, com a ajuda do pastor; ginástica corporal sentada e com os dedos; exercícios orofaciais, atividades lúdicas adaptadas; origami que são dirigidas e acompanhadas pelos voluntários.
As refeições são feitas ao estilo da culinária japonesa, adaptadas com consistências macias, tamanhos diferentes de cortes e temperos para atender as necessidades dos usuários. Ao todo, são três refeições: lanche de boas-vindas, almoço e café de despedida.
Cada usuário recebe uma agenda do projeto onde constam o calendário com as datas dos encontros e uma anotação referente ao dia com informações de todas as atividades desenvolvidas para conhecimento da família. A agenda é o meio de comunicação entre os cuidadores e o projeto e é preenchida próximo ao final das atividades do dia no projeto.
Além dos encontros semanais, o Lírios do Campo oferece um passeio fora da cidade de São Paulo para maior integração entre os usuários, familiares e voluntários. Também são realizadas palestras de interesse do cuidador, como por exemplo o envelhecimento ativo e a doença de Alzheimer, geralmente em um sábado no segundo semestre.
Os critérios de aceitação para os que desejam ser voluntários são: preferencialmente terem vínculo com a igreja, serem indicados por outros voluntários e terem disposição para planejar e participar das atividades junto aos usuários. Da mesma forma que o usuário, o candidato a voluntário, também, participa de dois encontros antes de sua inserção no projeto, e pode escolher envolver-se com as atividades junto aos usuários ou na preparação das refeições. Hoje o projeto conta com 28 voluntários divididos entre o cuidado com os idosos limitados e as atividades da refeição.
Ginástica dos dedos.
Ao término das atividades do dia, os voluntários se reúnem para avaliação das atividades, refeições oferecidas no dia, percepções sobre facilidades e dificuldades dos usuários. A partir dessa avaliação o próximo encontro é planejado e são feitos planos de comemorações, visitas e passeios. Tudo é documentado e arquivado na igreja.
Em 2011, o Lírios do Campo foi premiado pela Câmara Municipal de São Paulo, no dia do voluntário, pelo trabalho de prover um descanso para o cuidador de idosos.
Ao longo dos dezessete anos de existência o projeto, Deus tem sido maravilhoso e apesar de três voluntários estarem na morada celestial, podemos acompanhar conversões e batismos de pessoas idosas em idades avançadas.
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Aposentada do trabalho, na ativa como voluntária
Por Emília Naomi Todo Liem
Meu nome é Emília Naomi Todo Liem. Sou formada em fonoaudiologia pela PUC-SP e atuei por mais de vinte no atendimento a crianças e a adolescentes.
Aposentei-me em 2020 e me apresentei como voluntária no Projeto Lírios do Campo em 2022 quando as reuniões voltaram a ser presenciais.
Soube pela senhora Rosa Hasegawa que nas casas de idosos do Japão eram realizados exercícios orofaciais a fim de prevenir a disfagia. E por causa de minha formação, ela pediu que eu dirigisse o momento de exercícios orofaciais com usuários.
A disfagia apresenta diversos sintomas que mostram a dificuldade para mastigar e deglutir. Um exemplo de sintoma é o engasgo, com risco da saliva, líquido, e alimento irem para o pulmão, provocando a pneumonia aspirativa.
Esse não é um distúrbio exclusivo da velhice, ele pode surgir em estados avançados de doenças como o Alzheimer e Parkinson, em sequela de doenças neurológicas, de câncer e de AVC.
Para diagnosticar e tratar a disfagia são necessários a avaliação fonoaudiológica, exames e exercícios específicos.
Os exercícios com as estruturas orofaciais ajudam a manter o tônus muscular e a mobilidade para a respiração, fala, voz, mastigação e deglutição.
As estruturas orofaciais trabalhadas com os exercícios são as arcadas dentárias, a articulação temporomandibular, as bochechas, a língua, os lábios, a úvula e as pregas vocais. Cada estrutura é trabalhada individualmente, e depois coordenadamente.
Na fala, mastigação e deglutição há diversos movimentos sincronizados das estruturas orofaciais.
Os usuários do Lírios do Campo não apresentam os problemas de saúde citados acima. Alguns deles apresentavam apenas engasgos na fala e na alimentação e, depois de participarem dos exercícios do projeto, melhoraram significativamente.
Todos participam dos exercícios orofaciais de forma muito descontraída e divertida.
Luciana Mitsue Sakano Niwa é enfermeira com especialização em enfermagem geronto-geriátrica modalidade residência na UNIFESP. Mestrado em ciências do cuidado pela USP, Doutorado em saúde coletiva pela USP. Participa da Igreja Metodista Livre, no bairro Saúde, São Paulo, SP. Atua como voluntária nos projetos Lírios do Campo e Cérebro Ativo.
Emília Naomi Todo Liem, formada em Fonoaudiologia pela PUC – SP, é voluntária no Projeto Lírios do Campo da Igreja Metodista Livre no bairro Saúde, em São Paulo, SP.