Valores e histórias são transmitidos de uma geração à outra por meio de relacionamentos

Por Robert Koo
Por que a integeracionalidade é importante? Porque este é o desejo de Deus desde o princípio, ao criar a humanidade, Deus é Deus de história. A história de Israel é descrita através de genealogia, de geração a geração. Cada geração não é estanque em si, ela recebe algo da geração anterior e passa para próxima. Cada geração não precisa descobrir novamente os princípios de Deus, mas transmitir o testemunho, a história da salvação, os valores, à geração seguinte.
“No futuro, seus filhos lhes perguntarão: ‘O que significam estes preceitos, decretos e estatutos que o Senhor, nosso Deus, lhes deu?’. Então vocês lhes dirão: ‘Éramos escravos do faraó no Egito, mas o Senhor nos tirou de lá com sua mão forte. O Senhor realizou sinais e maravilhas diante de nossos olhos e enviou castigos terríveis sobre o Egito, o faraó e todo o seu povo. Ele nos tirou do Egito para nos dar esta terra que ele havia prometido sob juramento a nossos antepassados. E o Senhor ordenou que cumpramos todos estes decretos e temamos o Senhor, nosso Deus, para que ele sempre nos abençoe e preserve nossa vida, como tem feito até hoje. Pois a nossa justiça estará em obedecermos cuidadosamente aos mandamentos que o Senhor, nosso Deus, nos ordenou’” (Dt 6.20-25).
Nosso mundo é especialista em dividir as gerações, geração X, Y, Z, Milenium, cada uma com sua identidade e linguagem. E assim também faz a igreja ao separar em faixas etárias.
De que forma valores e histórias são transmitidos de uma geração à outra? Não é por meio da apresentação de fatos ou de argumentos, que podem até ser registrados em livros, gravados em áudios, mas por meio de relacionamento. É semelhante ao discipulado, não se faz um discípulo dando um curso, aulas de teologia ou mandando-o ler um monte de livros, mas através de relacionamento. Em 2 Timóteo, Paulo não só oferecia conselhos para Timóteo, mas abria seu coração, compartilhava suas tristezas, frustrações, anseios. Não era um mestre que ensinava, mas alguém que andava junto na jornada da vida.
O exemplo de Paulo e Timóteo mostra o nosso erro ao querer transmitir legado falando e não através de relacionamento.
Intergeracionalidade é uma rede de relacionamentos. Eu com meus filhos, dos meus filhos com a sua família e, depois, o meu relacionamento com meus netos e deles com os primos.
Mas relacionamentos são complicados. Podemos constatar isso não na relação de pais e filhos, que é regida por protocolos, e instruções sobre como os filhos devem honrar os pais e como os pais não devem irritar seus filhos para que eles não desanimem. Mas não existem instruções explicitas quanto ao relacionamento dos irmãos. São bem conhecidas as causas de conflitos entre irmãos: disputa de atenção, aprovação, principalmente se um deles é competitivo, aliados à diferença de temperamento, e se um é mais bem-sucedido que outro, a rivalidade pode gerar inimizade. Saber o que é o certo e o errado, que Deus é bom e salvador, pode não mudar nada, o que demonstra que muitas etapas do ensino foram feitas de modo teórico, formal e distante, e não incorporadas ao relacionamento. Assim como na igreja, o maior problema não é entre nós e Deus, mas entre nós e os filhos ou entre os irmãos, e o problema com os irmãos afeta nossa relação com Deus, o Pai celestial.
Os problemas intergeracionais e o conflito entre os irmãos são bem conhecidos das histórias da Bíblia: os filhos de Eli e os de Samuel, e o desentendimento entre Caim e Abel, Ismael e Isaque, Esaú e Jacó, José e seus irmão. O ódio entre os filhos de Davi é uma tragédia a parte, que trouxe muita tristeza, envolvendo até derramamento de sangue.
Uma constatação: pais piedosos que conhecem a Deus não garantem o bom relacionamento intergeracional. Vemos que muitos pais dos filhos mencionados acima ficaram tristes ou não fizeram nada para remediar a situação. Isaque e Rebeca estimularam a rivalidade entre os filhos, como consequência, Jacó foi impedido de voltar para acompanhar a morte da sua mãe querida e, assim também morreu Isaque sem ver Jacó. Ou seja, a briga entre irmãos, trouxe dias infelizes para os pais. O mesmo aconteceu com Jacó, pensando que seu filho José já tinha morrido, sem saber da traição cometida pelos irmãos.
O desentendimento entre irmãos, pode gerar conflito ainda maior, como: Quem oferecerá suporte aos pais na sua velhice? Quem cuidará deles quando tiverem limitações e falta de autonomia? Quem decidirá por eles? Depois, virão questões sobre a divisão da herança deixada pelos pais.
Num ambiente de competição e com certa dose de hostilidade, é difícil falar.
Para nós que somos 60+ ou 70+ ainda há tempo para remediar e ajudar a reconstruir vínculos mais em sólidos entre nossos filhos e principalmente no cultivo de relacionamento entre eles.
Como? A primeira maneira para fortalecer vínculos é criar um ambiente com a participação de todos, onde haja amor e diálogo. Podemos viajar e comer juntos, mas isso não significa necessariamente aprofundar os vínculos, são apenas ocasiões festivas. Precisamos aproveitar essas oportunidades, para expressar de modo explícito, o amor que temos por cada filho. Jesus tinha 30 anos em seu batismo, e quando ele saiu da água, o céu se abriu e Deus falou “Esse é meu filho em quem tenho prazer”. Esta palavra foi como um encorajamento para Jesus, mas também serviu para que todos os outros soubessem que o Pai ama o seu Filho. Em sua segunda carta a Timóteo, sempre que menciona o nome de Timóteo, Paulo acrescenta, “meu filho amado”. Temos costume de expressar amor aos nossos filhos com palavra e gestos, mesmo tendo eles 40 ou 50 anos? Isso reforça nosso vínculo e também o vínculo entre eles, exatamente como nosso Pai celestial faz conosco.
A segunda forma de fortalecer o vínculo com os filhos é a bênção. Paulo diz a Timóteo que ele não apenas é seu filho amado, mas que seu amor por ele vem acompanhado de encorajamento por parte de Deus. Paulo que é apóstolo pela vontade de Deus para anunciar as boas novas aos gentios, com a autoridade que tem como pai, abençoa Timóteo com graça, misericórdia e paz da parte de “Deus, o Pai, e Cristo Jesus, nosso Senhor”.
Infelizmente temos perdido o costume de abençoar nossos filhos. Não apenas quando são pequenos, mas também quando adultos, eles precisam das bênçãos dos pais. Deus nos constituiu como autoridade e canal de bênçãos para os nossos descendentes. Quando tomamos refeições juntos, temos aproveitado oportunidades para expressar sem constrangimento o nosso amor para com os nossos filhos e abençoá-los em nome do nosso Pai Celestial? Os vínculos são reforçados através das bênçãos.
A terceira maneira de cuidar dos vínculos com os filhos é ser transparente, mostrar a nossa vulnerabilidade. Paulo disse a Timóteo: “Como você sabe, todos os da província da Ásia me abandonaram, incluindo Fígelo e Hermógenes” (2Tm 1.15). Ao lembrar dos irmãos que, em vão, prometeram nunca abandoná-lo, não importassem as circunstâncias, Paulo se sente traído e muito triste. Por que o apóstolo conta isso para Timóteo? Timóteo não pode fazer nada, mas Paulo não esconde sua dor; ele compartilha com Timóteo o que sente no íntimo, ele não é um herói inabalável, ele sente dor e decepção, e precisa contar isso para seu filho.
Nós, os 60+, não queremos incomodar nossos filhos, dizemos que estamos bem, que não precisamos de ninguém, o que é um erro. Deus quer que mostremos a nossa vulnerabilidade para fortalecer os vínculos.
A quarta forma de fortalecer os vínculos é oferecer conselhos com afeto. Paulo não só instruía seu amado filho Timóteo na sã doutrina, mas o aconselhava nos relacionamentos, na Palavra. Quantas vezes confundimos a familiaridade com a falta de respeito, no procedimento, mesmo quando os filhos já estão na idade adulta.
Por fim, quero falar de mais um aspecto na intergeracionalidade: o relacionamento entre os avós e os netos.
O relacionamento com netos é bem diferente do relacionamento com os filhos. Primeiro, avós não educam os netos – esse papel é dos pais, não dos avós. É um erro os avós quererem fazê-lo. Não tente ensinar, educar ou corrigir seus netos pois eles não são seus filhos e isso estragaria seu relacionamento com os seus filhos.
Os netos são um reconhecimento para os idosos (Pv 17.6). Os avós são referência para os netos. Não convém contar-lhes seus problemas, suas fragilidades. Isso apavora os netos. É uma carga muito grande com a qual eles não sabem lidar.
Você sempre será a referência para seus netos, então deve contar-lhes a sua história, experiências e valores. Através do relacionamento, estabelecer um vínculo de amor e de confiança com eles.
Robert Liang Koo é casado com Elizabeth e eles têm três filhos e nove netos. É Ph.D. em engenharia elétrica e computação. Foi professor, empresário e pastor por mais de quarenta anos. Atuou na Aliança Bíblica Universitária nas décadas de 1960 e 1970. Aposentado, dedica-se às obras do reino de Deus e é um dos integrantes do núcleo facilitador do Movimento 60+. É membro da Igreja Evangélica dos Cristãos de São Paulo. É autor de Carta a Um Discípulo Muito Amado, O Cultivo da Vida Cristã e Encorajamento Que Vem do Alto.
Imagem: Unsplash.
Leia mais:
>> Mais avós do que netos!, por Klênia Fassoni
>> Entre gerações, por Karen Bomilcar
>> O abismo entre gerações é irreconciliável?, por Tiago Pereira
Add a Comment