Não importa quão densas sejam as trevas do momento em que vivemos ou quão profundo seja o vale pelo qual estejamos passando, Deus age de forma serena
Por Ricardo Agreste

Creio ser consenso entre a maioria de nós que os últimos dois anos foram grandemente marcados pela adversidade e pelo sofrimento, gerando um clima de insegurança e confusão. Na minha caminhada pessoal, sem sombra de dúvida, eu apontaria este período recente como o mais difícil e complexo de toda a minha existência. Nas dimensões pessoal, familiar e ministerial, vivi o que muitos chamariam de “tempestade perfeita”. Uma sobreposição de problemas e crises como nunca havia experimentado em minha vida.
Na dimensão pessoal, conheci de perto o que significa a experiência da depressão. Se não bastasse as tensões e dificuldades decorrentes da própria pandemia, situações inesperadas emergiram no contexto da minha família e igreja local, testando meus limites emocionais como nunca. Ainda, para tornar o momento mais complexo, fui diagnosticado com um tumor altamente agressivo no rim, tendo que ser submetido a uma cirurgia de quase cinco horas de duração e, ao longo do processo de recuperação, enfrentar uma pneumonia.
No contexto familiar, vi minha querida esposa dedicando-se intensamente na tentativa de salvar vidas numa UTI respiratória durante a primeira e a segunda ondas da pandemia. No entanto, a partir de um determinado momento, ela não conseguia mais lidar com tudo o que acontecia, sendo diagnosticada com síndrome pós-traumática, enfermidade emocional típica de soldados que enfrentam as atrocidades de um fronte de guerra. Diante disso, todo o nosso ritmo e rotina de vida tiveram de ser radicalmente alterados.
No contexto ministerial, num dos momentos mais críticos da pandemia, quando a igreja mais necessitava de cuidado e segurança, perdi metade de minha equipe pastoral. A decisão tomada por jovens pastores gerou um clima de grande tensão e instabilidade nas relações. Minha liderança passou a ser questionada e pessoas queridas, com quem caminhávamos há muitos anos, decidiram deixar a igreja. Tudo isso num momento em que não se fazia possível encontros pessoais para se tratar com afetividade os conflitos interpessoais.
Foi neste período de muita adversidade e sofrimento que Deus me ofereceu uma nova perspectiva do tão conhecido Salmo 23. Por um lado, o vale de trevas e morte foi uma experiência muito real em minha jornada. Em alguns momentos, a escuridão não me permitia enxergar saída alguma para os problemas enfrentados. A consciência de minha impotência diante de determinadas situações era também uma constante. Ao longo de semanas minha alma oscilou entre sentimentos de desânimo, incerteza, tristeza, medo e ansiedade.
Por outro lado, descobri também uma faceta de Deus para a qual nunca havia atentado. Não importa quão densas sejam as trevas do momento em que vivemos ou quão profundo seja o vale pelo qual estejamos passando, Deus age de forma serena. Ele nos faz repousar em pastagens verdes, ele nos conduz a águas tranquilas, ele restaura o nosso vigor, mas tudo isso de forma graciosa, segura e serena. Ele é o Deus todo-poderoso e, por isso, não se deixa perturbar pelo caos que envolve nossa vida.
Assim, descobri também quão importante é a serenidade para aqueles que afirmam confiar em Deus. O salmista faz uma declaração categórica logo no início do Salmo 23: “O Senhor é o meu pastor, de nada terei falta”. Ou seja, sua confiança no caráter, no amor e no cuidado de Deus movia seu coração do medo e ansiedade para a serenidade. Mesmo estando diante de problemas para os quais não existem soluções concretas e visíveis, sabemos que a bondade e a fidelidade de Deus nos acompanharão todos os dias de nossa vida.
Em meio à tempestade perfeita, descobri que Deus age de forma serena. Mais do que isso: na minha caminhada com o Pai, descobri que existem problemas e crises para as quais não terei soluções prontas e instantâneas. Por isso, praticar a serenidade implica confiar na bondade e fidelidade de Deus, mesmo quando ainda estou caminhando por um vale e ainda cercado por trevas. A serenidade que vem da confiança no amor e no cuidado de Deus para com a minha vida me possibilita caminhar na certeza de que ele me conduzirá para pastos verdejantes e águas tranquilas.
Mas toda esta experiência me desafiou também como pastor, pregador e líder. Como alguém que estava no meio de um vale de morte e cercado de sombras, pude perceber quão importante e necessário é ter pessoas que estejam ao redor, orientando e guiando, com atitudes e palavras que transmitam serenidade. Se existe algo dispensável em tempos de adversidade são atitudes e palavras que intensificam a tensão, o conflito, a polarização e a confusão. Precisa-se, essencialmente, de um exercício de empatia.
Por isso, deixando de lado os dois últimos anos da minha vida pessoal, tenho colocado os olhos na vida em sociedade nos próximos meses. Bem possivelmente, viveremos ainda um período difícil com muitas tensões políticas e agravamento da crise econômica. Muitas de nossas igrejas já estão saindo do período da pandemia enfraquecidas e divididas por fatores ideológicos. Precisamos que Deus nos dê pastores e líderes que façam uso da serenidade para guiar as ovelhas de Deus através deste vale de sombras.
Precisamos, sim, como discípulos de Jesus, participar deste momento histórico de nossa nação, contribuindo para que valores do reino de Deus tornem-se uma realidade mais presente em nossa sociedade. No entanto, não podemos fazê-lo com instrumentos que não nos tornam identificados com o bom pastor do Salmo 23 e de João 10. Como ovelhas guiadas por um Pai sereno, precisamos fazer da serenidade uma marca também em nossa vida. Ela é de grande importância quando atravessamos vales de morte e sombras, mas também imprescindível quando guiamos pessoas que caminham por estes vales.
Artigo publicado originalmente na edição 395 de Ultimato. Reproduzido com permissão.
Ricardo Agreste é um dos preletores do 5º Encontro do Ministério Cristão 60+. Pastor da Comunidade Presbiteriana Chácara Primavera, em Campinas, SP. É formado em teologia pelo Seminário Presbiteriano do Sul e em filosofia pela Faculdade Interativa de São Paulo. Atualmente cursa doutorado em ministério no Missional Training Center, em Phoenix, Estados Unidos, e é diretor-presidente do Centro de Treinamento para Plantadores de Igreja (CTPI). É casado com Sônia, com quem tem três filhos, Luiza, Levi e Ligia, e dois netos, Gabriel e João.
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