Marcolina nasceu em 27 de março de 1909 e descansou em 14 de janeiro de 1988. Sua vida é um testemunho de serviço amoroso a Jesus e de anúncio perseverante do Evangelho
Por Rute Salviano Almeida

Marcolina Figueira de Magalhães nasceu em Palmeira dos Índios, Alagoas, no dia 27 de março de 1909. Seus pais, José e Francisca Figueira de Magalhães, eram católicos praticantes e passaram por dificuldades para criar e educar os oito filhos. Três faleceram na infância, e Marcolina tinha apenas 8 anos de idade quando o pai se foi.
Sua família foi morar com amigos, em Maceió, e a menina, que era muito religiosa, tinha medo dos crentes e evitava andar na calçada da igreja evangélica, pois havia sido ensinada a não se aproximar deles.
Marcolina tinha um vizinho protestante, do qual fugia para não ouvir suas “heresias”. O homem, conhecedor da fé profunda nas imagens que ela possuía, disse-lhe para testar se a sua Nossa Senhora dos Navegantes tinha mesmo poder. Sugeriu que acendesse um fósforo na imagem, e se a santa fosse poderosa resistiria ao fogo.
A ingênua menina resolveu fazer o teste e saiu queimando suas imagens. Decepcionada, admitiu que o homem tinha razão. Como aqueles santos, que não conseguiam defender-se do fogo, protegeriam alguém?
Marcolina também comparou um bispo local com Jesus. Aquele bispo brigava, amaldiçoava, rogava pragas e mandava para o inferno. Jesus, com certeza, jamais agiria assim, pensou ela, ficando cada vez mais confusa.
Seu vizinho continuava a lhe ensinar o evangelho, e a filha mais velha da família com a qual morava a aconselhava a aceitar a Jesus, até que ela o fez. Porém, foi impedida de frequentar a igreja por sua mãe de criação, que, escandalizada com sua conversão, passou a persegui-la.
Só aos 13 anos Marcolina pôde ser batizada, com a licença de sua mãe. A perseguição amadureceu sua fé e a aproximou mais de Cristo. Ela cursou a 4ª e 5ª séries no Colégio Batista Alagoano. Em 1928, sentiu-se chamada para a obra missionária, e o doutor John Mein, que era o diretor do colégio, facilitou seu ingresso na Escola de Trabalhadoras Cristãs.
Ao ouvir o pastor Zacarias Campêlo falando sobre seu trabalho entre os índios e sobre Noêmia, a jovem sentia o Senhor lhe falando: “A quem enviarei, e quem irá por nós?” (Is 6.8). Então, orava, em lágrimas, para que pudesse chegar ao interior, onde aquela heroína trabalhara e vivera por pouco tempo.
Enquanto estudava, Marcolina trabalhou na Igreja Batista da Rua Imperial, pastoreada pelo doutor Antonio Neves de Mesquita. Em 1931, formou-se e voltou para Alagoas, onde lecionou para crianças na Primeira Igreja Batista de Maceió e no Colégio 15 de Novembro, em Rio Largo.
Em janeiro de 1932, o pastor Manoel Avelino de Souza, secretário de Missões Nacionais, informado da vocação de Marcolina, procurou-a para convidá-la a ficar dois anos residindo numa pequena vila e abrindo uma escola anexa à igreja. Seria a primeira escola que os batistas manteriam no sertão. Marcolina aceitou, sentindo que Deus lhe abrira a porta que tanto almejava.
Nomeada como missionária para Porto Franco, no Maranhão, a jovem de 23 anos partiu no dia 5 de abril de 1932. De Maceió viajou para Belém do Pará e, após dez dias de viagem, embarcou num pequeno barco para subir o rio Tocantins, numa viagem de vinte longos dias sentada sobre sacos de sal.
Marcolina como missionária em Porto Franco
No dia 3 de maio de 1932, quatro anos após a morte de Noêmia Campêlo, chegou ao vale do Tocantins aquela que, inspirada por sua vida, desejava levar a mensagem de salvação aos sertanejos desprezados.
Dois dias depois de sua chegada, organizou a Sociedade de Senhoras, com dez sócias. Na companhia delas, viajava para os pontos de pregação da igreja e fazia visitas evangelísticas às fazendas vizinhas.
Marcolina logo iniciou a escola, que era a única da vila. Embora houvesse cerca de duzentas crianças em idade escolar, apenas quatorze matricularam-se porque o povo fora ensinado que era melhor deixar os filhos sem instrução do que colocá-los na escola protestante. Outros não iam por serem muito pobres. Porém, todos os dias, a mensagem do evangelho de Cristo era pregada ali.
Durante vinte anos, Marcolina trabalhou em Porto Franco e acompanhou o progresso daquela vila, sempre viajando a lugares vizinhos e, nas férias, às regiões mais distantes. Era aquele trabalho como itinerante evangelista que lhe dava maior prazer: visitava as fazendas, os sítios, as casas dos sertanejos e as aldeias dos índios.
Os apinagés a acolhiam com alegria e ouviam a mensagem de salvação. Porém, ela não via resultados animadores. Mas, anos mais tarde, quando encontrou um índio às portas da morte, ele lhe disse: “Vou para Jesus e lá vou me encontrar com Jesus e Marcolina”.
Suas outras atividades
Convocada a auxiliar no Instituto Teológico, a missionária mudou-se para Carolina, onde durante seis meses ajudava no preparo dos jovens vocacionados, e nos outros seis meses viajava como itinerante, abrindo pontos de pregação e falando de Cristo a centenas de pessoas.
Lá permaneceu de 1946 a 1949, mas não estava satisfeita, pois afirmava ter sido chamada para evangelizar. Partiu então, novamente, para Porto Franco, onde ficou mais um ano.
Depois morou por cinco anos em um município do outro lado do rio Tocantins, chamado Tocantinópolis. Ao iniciar o trabalho de evangelização, foi-lhe ordenado pelos padres que não entrasse nos lares católicos.
Em Araguatins, trabalhou como enfermeira-evangelista, abrindo um ambulatório, que ficou conhecido como o “hospital” e era procurado por pessoas que andavam até mais de 120 km para chegar até lá. Ela atendia mais de vinte doentes por dia, além dos que atendia nas casas e fora do município.
Naquele local, auxiliou a igreja batista, que tinha apenas onze membros, e liderou a construção do templo, situado na praça principal, voltado para o rio Araguaia. Lá permaneceu por cincos anos. Com o trabalho já fortalecido, escreveu à junta pedindo um pastor para o local.
Em 1962, após trinta anos no sertão, foi para Marabá, onde ficou por três anos e deixou mais uma igreja organizada. Sempre compassiva com as pessoas, declarou que não tivera filhos, mas fora chamada de mãe pelos leprosos de Marabá, e por isso dava graças a Deus.
De Marabá, foi para Colinas de Goiás, onde continuou fazendo visitas e pregando. Após quatro anos, foi organizada uma igreja, com um templo e uma escola anexa.
Em 1968, a Câmara Municipal de Goiânia homenageou Marcolina com um diploma de “Honra ao Mérito” por seus 37 anos de serviço ao povo de Goiás com o melhor dos seus talentos.
Após quarenta anos de atividades, Marcolina solicitou à Junta de Missões Nacionais que a transferisse para uma vila da Transamazônica e, em abril de 1973, chegou a São Domingos do Araguaia, no Pará.
Naquele local, a junta comprou uma casa para sua residência que também servia como local da congregação e do dispensário. Todo domingo eram realizados a escola dominical e o culto evangelístico. Às sextas-feiras tinham cultos de oração.
Marcolina demonstrou seu amor ao próximo. Poucos são aqueles cuja compaixão é visível aos olhos das pessoas. Certa vez, ela foi à localidade chamada Mosquito fazer visitas. Ao chegar a uma casa, uma criança, logo que a avistou, chamou sua mãe dizendo: “Mãe, vem cá! A mulher de Deus taí!”. Esses foram os tesouros que a missionária bandeirante foi garimpar. Nem todos as riquezas do mundo são suficientes para comprar esse privilégio de trazer na face a identificação de discípulo de Jesus.
Aquela que foi perseguida e discriminada tornou-se reconhecida como prestadora de serviços relevantes à comunidade, sendo declarada cidadã tocantinopolina, conforme a Lei nº 263, de 27 de outubro de 1977.
Marcolina sofria constantemente de muitas dores nos pés. Quando cuidava de meninas no internato batista, após as visitas evangelísticas, chegava com os pés doendo.
“O que sinto é não poder andar a pé muitas léguas” era a lamentação da jovem missionária. Como fazer o trabalho missionário no sertão nordestino, naquela época, sem caminhar? Mais uma vez ela afirmou: “Deus proverá”.
E realmente ele proveu. As declarações de sua obra missionária revelam quanto ela caminhou, quantas léguas percorreu, quantas localidades que não conheciam o evangelho de Cristo alcançou, quantas igrejas organizou. Só mesmo pela força do Espírito Santo de Deus.
Após algum tempo no campo missionário, Marcolina escreveu à dona Elizabeth, contando-lhe sobre o trabalho e como caminhava quilômetros. No final da carta, declarou: “E os meus pés não têm doído nen um tiquinho! Como o Senhor ouve as nossas mínimas súplicas”.
Em 5 de setembro de 1971, portanto, quase quarenta anos depois daquela carta, O Jornal Batista destacou em sua primeira página o trabalho de Marcolina Magalhães e Beatriz Silva, com o seguinte título: “Correm e não se cansam as duas grandes missionárias ao Sertão”.
A vida de Marcolina comprovou que “até os jovens se cansam e ficam exaustos, e os moços tropeçam e caem; mas aqueles que esperam no Senhor renovam as suas forças. Voam alto como águias; correm e não ficam exaustos, andam e não se cansam” (Is 40.30-31).
Falecimento
Tocantinópolis, no estado de Goiás (hoje no estado de Tocantins), foi a cidade onde Marcolina passou sua velhice. Com seus próprios recursos e a ajuda da JMN e de irmãos da Igreja Batista Memorial de Brasília, adquiriu uma casinha. Como não podia mais andar para fazer visitas, sentava-se à porta de sua casa e falava de Cristo a todos que passavam. Seus pés e pernas voltaram a doer muito, impedindo-a até de se levantar da cama. Mas nunca perdeu seu sorriso feliz ao testemunhar de Cristo.
No dia 14 de janeiro de 1988, a missionária descansou. Seus pés não mais doeriam nem precisariam caminhar nas estradas poeirentas ou ruas enlameadas; agora andariam em ruas de ouro, nos céus.
No culto fúnebre da missionária bandeirante do sertão, compareceram o prefeito da cidade, o vice-prefeito, ex-prefeitos, vereadores, o secretário-executivo da Junta de Missões Nacionais, o presidente da Convenção Batista do Tocantins, missionários e muitos outros obreiros, pastores e irmãos em Cristo, todos participando, com emoção e fervor, do culto de saudades.
Rute Salviano Almeida, mestre em teologia e pós-graduada em história do cristianismo, é autora de Vozes Femininas nos Avivamentos, Vozes Femininas no Início do Cristianismo e Vozes Femininas no Início do Protestantismo Brasileiro, pela Ultimato, além de Uma Voz Feminina Calada pela Inquisição e Uma Voz Feminina na Reforma.
Trecho publicado originalmente no livro Vozes Femininas no Início do Protestantismo Brasileiro – A religiosidade, o papel feminino, as denominações e suas pioneiras. Ultimato. Reproduzido com permissão.
Imagem: O Jornal Batista, 31 de janeiro de 1988, p. 1.
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