Por Ageu Heringer Lisboa

A morte é tão antiga quanto o surgimento da vida. É parte do incessante processo de reciclagem dos elementos da natureza. Positivamente, a biologia e a Bíblia nos lembram que nosso organismo tem prazo de validade estando programado para se desenvolver, cumprir seu desígnio e retornar ao seu nascedouro, a terra: “O pó deve voltar ao pó e o espírito voltar para Deus, que o deu” (Ec 12.7).
Esteticamente a morte está associada ao feio, à desvitalização progressiva, ao definhamento por doenças, originada por ataque de uma fera ou uma víbora, ou a espada do campo de batalha, trazendo febre, delírios, gemidos. E quando completa sua obra, tem-se a putrefação do corpo que precisa ser queimado ou enterrado para espantar outras mortes. Cenas que alimentaram o imaginário sombrio, frio, aterrorizante associado ao morrer em todas as culturas.
A intuição da finitude nos impacta e nos mobiliza, já que está presente em nossa imaginação e no profundo inconsciente pessoal e coletivo. Mas será sempre um assunto mórbido falar da morte? Mesmo quando temos enfermos graves em nossas famílias? O que se evita e interdita chama-se de tabu. Penso que de uma perspectiva da fé cristã, só por superstição, crendice, tabu sociocultural, culpa, medo e má teologia evitamos o assunto. Sim, a morte gera incômodos pois, positivamente, nascemos para viver e queremos viver o máximo de dias possíveis, com saúde e cercado de amizades e amores. E o desejo de eternidade está inscrito em nosso coração (Ec3.12). Mas, chega o dia em que ela se apresenta. Súbita ou lentamente.
Então vivemos, ainda hoje, com questões que acompanham a humanidade desde tempos imemoriais. A morte tem uma importância que se vê retratada nas culturas funerária dos povos, com tumbas, sarcófagos, pinturas, rituais e textos sagrados. Os vivos sempre se interrogam diante dela, símbolo de grande mistério, do desconhecido, com poder de nos assombrar. Impõe reverência. Reflete uma dimensão do sagrado, algo que atrai e aterroriza, que transcende o ordinário. Convida-nos a avaliar o sentido e o propósito da existência.
Encontramos uma fascinante e complexa variedade cultural de modos de vivenciar a morte de um ente querido ou de uma autoridade grupal e religiosa. Em alguns contextos antropológicos, a morte sacrificial de animais ou de humanos serviu de símbolo pactual entre grupos humanos, selando a paz, ou como oferenda a um Deus ou espírito com finalidade expiatória ou para obtenção de benevolência, boas colheitas, vitória em guerras.
Além do meio cultural que nos envolve com referências de como administrar a morte, voltando-nos para a dimensão familiar e pessoal do morrer, temos algumas tarefas a encarar para uma boa transição na última etapa do ciclo vital. Que ela não seja malvista nem fonte de terror. Incômoda, sim, mas…
Um dos pontos centrais de nossa fé bíblica, importa lembrar, é que a morte já foi tratada e resolvida em definitivo, histórica e fisicamente, por meio do sacrifício e ressurreição do Filho do Homem, Jesus, o Cristo de Deus. Este fato garante um novo início, com a biologia da ressurreição, que nos revestirá da incorruptibilidade e da imortalidade (1Co 15.50-54).
Então, garantidos pelo Ressurreto, podemos exercitar uma expectativa serena quanto à nossa terminalidade e a de nossos queridos. E cuidar de tarefas prévias ao morrer.
Sim, ninguém sabe quando partirá exatamente. Portanto, que tal estarmos sempre preparados para a chamada rumo à morada eterna? O sábio Coelét exortou jovens para se conectarem ao Criador, antes dos “dias maus e da morte”, desfrutar os prazeres simples da vida, temendo a Deus e guardando seus mandamentos, porque isto é o dever de cada pessoa” (Ec 12.13).
Quem sabe de sua hora?
Tarefas prévias ao morrer
Balanço existencial
Em qualquer idade devemos “contar os dias”, reconsiderar o vivido. Um corajoso e humilde ato de escuta da consciência, onde o Espírito que nos conhece fala, e temos oportunidade de nos enxergamos no íntimo e fazermos acertos com nós mesmos. Tempo e lugar para confissões, reconhecimentos, acordos com Deus e com pessoas. Meio para recebermos leveza de alma e paz de espírito.
Providências documentais
Válidas mesmo para um jovem de vinte anos, não só para um ancião enfermo: não deixe dívidas nem dúvidas sobre patrimônio, contas, partilhas de bens, desejos e acertos de qualquer natureza. Junte, confira e mantenha em local seguro documentação pessoal e familiar, de bens móveis e imóveis, certidões de nascimento, de casamento, de divórcio. Tenha um advogado de sua irrestrita confiança para elaboração de procuração registrada em cartório.
Previdência
Já que estamos sujeitos a adoecimento, acidentes, interrupção forçada de trabalho e movimentos implicando despesa hospitalar, enterro ou cremação, recomenda-se designar pessoa de íntima confiança para acompanhar decisões ou mesmo decidir por você caso fique impossibilitado/a. Compartilhe suas senhas e o mapa da mina!
Testamento vital
Diretivas Antecipadas de Vontade (DAV) é um documento que registra as preferências de uma pessoa em relação a tratamentos e cuidados de saúde em caso de incapacidade de se expressar. Segundo Resolução do Conselho Federal de Medicina, “Poder escolher não ser submetido a tratamentos extraordinários de manutenção da vida na fase final de doenças como demência, insuficiência cardíaca, doença pulmonar obstrutiva crônica ou câncer, quando já não existe possibilidade de reversão do quadro”.
Este é tema importante pois muita gente tem dificuldade de aceitar que o ente querido precisa partir. Insistir em tratamentos que não irão reverter o quadro é infligir sofrimento ao paciente – distanásia ou esperar por milagre nem sempre é ajuizado nem expressão de amor! Mas, ressalte-se que “o cuidado deve continuar até o momento da morte, com ênfase no controle dos sintomas e na resolução de pendências”1.
Funerais – enterro ou cremação
Além do Sistema Único de Saúde (SUS), se possível tenha um plano de saúde, um seguro de vida e auxílio funeral. Sobre funerais, algumas prefeituras doam caixões. Deixe seus familiares orientados para que não sejam vítimas de despesas abusivas. Um caixão modelo standard/social (simples) pode ser encontrado em São Paulo, capital por valores que vão de R$ 147,00 a R$ 695,00. Quem quiser um modelo de luxo faz um PIX de 10 a 50 mil reais. Decida se vale enterrar dinheiro junto! Lembre-se que você já estará no céu!
Cada vez mais a preferência das famílias é por cremação. Simplifica-se o processo. Não há significativas objeções religiosas a não ser entre muçulmanos. E o custo é mais barato do que o do enterro tradicional. Recolhe-se as cinzas num pequeno vaso após dois a cinco dias.
Dimensão espiritual
Morrer costuma ser um processo. Simultâneo ao definhar físico, pode ocorrer uma revitalização espiritual quando a pessoa prestes a morrer se torna mais receptiva para receber afetos, a manifestar gratidão e abrir-se espiritualmente.
Estar na dependência de cuidadores e de aparelhos muda a percepção de si e dos outros. A vivência da absoluta fragilidade e a incerteza quanto ao futuro imediato desperta a consciência de muitos para a última decisão: ressignificar a existência pessoal. Devemos apoiá-los respeitando seu cansaço e limites, nos dispondo a ouvi-los, acolhendo suas queixas, medos e desejos. Podemos perguntar se desejam falar com alguém sobre algo de natureza íntima – uma confissão –, se têm um pedido a fazer, se gostariam de liberar perdão para alguém, se aceitam uma oração. A pessoa enferma tem direito a saber a verdade de sua condição, se perguntar. E os que a acompanham podem e devem dizer que são gratos pelo tempo de sua vida. Que a amam. Que ela siga na companhia de Jesus na travessia para o céu. E até breve!
Nota
1. Testamento vital permitirá às pessoas definirem limites terapêuticos na manutenção da vida. Site do Conselho Federal de Medicina.
Ageu Heringer Lisboa, 75 anos, psicólogo, mora em Campinas, SP. É autor de Sexo: Espiritualidade, Instinto e Cultura e organizador de Bíblia e Psique: Marcas Bíblicas na Psicologia e na Psiquiatria e membro-fundador do Corpo de Psicólogos e Psiquiatras Cristãos (CPPC) e da Associação Internacional de Assessoramento e Pastoral Familiar (EIRENE) no Brasil. Ex-assessor da Aliança Bíblica Universitária (ABU), desde 1974 trabalha em clínica psicoterápica e exerce consultoria a ONGs sociais e equipes ministeriais.
Imagem: A dança da morte. Autor desconhecido, Século 16. Coleção do Museu Metropolitano de Arte.
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