Rastros de bênção

A graça de Deus não faz barulho. Ela simplesmente muda tudo

Por Hannes Fischer

Minha vó Gertrud nasceu em 12 de abril de 1918, em Blumenau, SC, numa família de imigrantes alemães. Seu pai construiu casas de enxaimel – inclusive o hospital de Vila Itoupava, o mesmo onde eu vim ao mundo décadas depois. Deus tem dessas ironias que só ele sabe tecer.

Ela casou jovem, trabalhou muito, criou quatro filhos numa colônia em Itoupava Central. Era religiosa, frequentava a igreja luterana – mas ainda sem conhecer pessoalmente o Dono da religião. Isso mudou quando missionários trouxeram o Evangelho vivo até sua família. Meu avô, já no leito de morte por um derrame, entregou a vida a Jesus. Minha vó abriu a porta – primeiro do coração, depois da casa. A casa virou sala de estudos bíblicos, que cresceu até precisar de um galpão, que um dia virou um salão. É assim que o Reino cresce: silencioso, invisível, irresistível.

Em 1977, ela foi trabalhar como cozinheira no Lar Filadélfia, em São Bento do Sul, onde meus pais serviam no ministério. Ela viu aquilo como chamado, não como emprego. Cuidava da cozinha, de uma horta gigante e de três canteiros de flores – um para cada neto. O meu estava sempre me esperando.

Na casa dela havia uma Bíblia grande, em alemão, com letras góticas e ilustrações fascinantes. Aprendi a ler nela. Havia algo sagrado naquelas páginas antigas – não só pelas palavras, mas porque eu via minha vó viver cada uma delas.

À noite, ela se ajoelhava diante da cama e orava por quase uma hora. Chamava cada filho, cada neto pelo nome, um por um, diante de Jesus. Quando eu dormia lá, ficava ao lado dela ouvindo. Com quatorze anos disse à minha mãe: “Quero aprender a orar assim – trazer cada pessoa pelo nome diante de Jesus”.

Não foi minha vó que me ensinou isso. Foi Deus, usando minha vó.

Ela nunca reclamou. Nunca disse uma palavra torpe. Meus pais também foram assim – sempre os via com a Bíblia nas mãos, não por obrigação, mas por fome. A mesma graça passando de geração em geração, sem pedir licença.

Nas últimas semanas de vida, visitei ela. Pediu um copo de água. Quando alguém o trouxe, agradeceu como se fosse o presente mais extraordinário do mundo. Poucos dias depois, minha tia fez uma cuca de carambola para ela. Ela comeu, sorriu, e disse que sempre fez assim também. Dois gestos simples. Uma gratidão enorme. Uma vida inteira resumida em dois momentos.

Três dias antes de morrer, disse simplesmente: “Em três dias, Jesus vem me buscar”. Quando perguntaram se queria nos deixar, respondeu: “Não quero. Mas Jesus me quer”. Tinha setenta e um anos. Eu tinha treze, e chorei muito. Mas sabia que ela havia ido para os braços de Alguém que a amava ainda mais do que eu.

Desde menino, eu sabia: queria uma esposa assim. Com aquela doçura, aquela fé, aquela oração de joelhos. Deus ouviu – e me deu Danielle, que me lembra demais a minha vó. São oito filhos. O mesmo número de irmãos que ela teve. Deus tem dessas precisões que parecem acaso, mas são assinatura.

Toda a glória é Dele. Sempre foi.

Hannes Fischer é filho de Hans e Iracema Fischer e neto de Gertrud Loth Lippel. Nasceu no hospital construído pelo avô em Vila Itoupava, em Blumenau, SC. Vive com sua esposa Danielle e seus oito filhos, tentando, a seu modo, deixar os mesmos rastros de bênção.

Leia mais:

>> A bênção de ter – e de ser avós, por Esther Carrenho

>> O papel dos avós na família, Gilson Bifano

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