Dedicar-nos a Jesus é graça e gratidão: o evangelho que nos alcançou na juventude ainda arde em nosso coração
Por Heidi Ferreira A. S. de Oliveira
Testemunho
Ouvi a frase que dá título a este artigo numa canção da banda Rebanhão. Ela me fez revisitar minha história.

Conheci Jesus na adolescência, por meio de uma história no antigo flanelógrafo. Fui impactada pela pergunta: “Quer Jesus como seu Salvador?”. Saí contrariada por me sentir exposta, mas a frase ecoou. Em casa, disse a Deus que, se ele pudesse me salvar das angústias de uma vida sem sentido, que assim fizesse. Minha vida mudou.
Cresci nas Escrituras e passei a frequentar uma pequena igreja. Foi tempo de alicerçar a fé: evangelismo nas ruas e na Fundação Estadual para o Bem-Estar do Menor (FEBEM). Aprendi a caminhar com o Mestre Jesus e a tocar violão. Participei de um acampamento cristão; jovens expressavam Cristo. Desde então, atuei como QG no Jovens da Verdade (JV).
Nossa estrutura era simples, mas o compromisso com o evangelho, intenso. Já casada com Silas Soares de Oliveira, realizamos viagens missionárias, visitamos igrejas e promovemos retiros. E o evangelho se expandia pelo país.
Nos anos 1990, Deus nos enviou a morar no acampamento do JV. Abri mão de uma carreira promissora em São Paulo. Em Arujá, além das atividades no acampamento e no seminário, ingressei na educação, primeiro como professora, depois na gestão. Entendi a escola como ministério. Mantivemos a banda JV ativa e, mesmo com filhos, seguíamos pregando o evangelho.
Com o tempo, já mais velhos, achamos que nosso papel seria apenas apoio e oração aos jovens do JV. Embora necessário, isso não supria o desejo que ardia em nosso coração. Voltamos a visitar igrejas com um pequeno grupo de veteranos, cantando e pregando o amor de Deus. Sentíamo-nos constrangidos por usar o nome Jovens da Verdade; assim nasceu o Dinossauros da Verdade – irreverente e bem-humorado.
Com a pandemia da Covid-19, o grupo cresceu. Pelo WhatsApp, promovemos oração e comunhão durante o isolamento. De oito, chegamos a cerca de setenta “dinos”, com testemunhos de restauração. Seguimos visitando igrejas.
Voltamos às viagens missionárias pelo interior e litoral, agora na nossa realidade idosa. Com um violão, canções antigas, contrabalde1 e pinturas, vimos como Deus usa nossas limitações. Neste novo tempo, entendemos que dedicar-nos a Jesus é graça e gratidão: o evangelho que nos alcançou na juventude ainda arde em nosso coração. Deus caminha conosco por gerações, trazendo alegria e esperança.
Tivemos três filhos e acompanhamos a luta da caçula, Gabriela, contra o diabetes tipo 1. Em meio a provações, ela permaneceu firme no Senhor. Após dois transplantes, hoje está curada. Reconhecemos a graça e a misericórdia de Deus.
Para obedecer ao Ide, criamos o Acampadinos, para reintegração, comunhão e senso de missão a idosos, em ambiente adaptado. Muitos foram impactados ao perceber que continuam úteis no reino, apesar da idade.

O Movimento Cristão MC 60+ intensificou nossa convicção: é possível servir ao reino em qualquer fase da vida, até com uma “segunda carreira” ministerial. Por isso, volto à frase que me marcou: “Para iluminar, a gente tem que derreter”. A luz de Cristo está na vela que somos nós. Quando nos dispomos a ser instrumentos dele, os anos passam, o corpo se desgasta, mas a luz permanece até a eternidade (Mt 5.16).
Nota
1. Contrabalde é um instrumento musical rústico feito com uma lixeira de alumínio, fieira de pião e cabo de vassoura. O som da fieira esticada amarrada à lixeira e ao cabo de vassoura é semelhante ao do contrabaixo. Daí o nome “contrabalde”.
Heidi Ferreira A. S. de Oliveira é casada com Silas, mãe de Flávia, Silas e Gabriela e avó de Benjamin. Tem formação em pedagogia, psicopedagogia e artes, e é gestora educacional e membro da Missão Jovens da Verdade.
Artigo publicado originalmente na edição 418 de Ultimato. Reproduzido com permissão.
Imagem: Unsplash.

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