Por Elias Bispo

História que vale a pena lembrar
Quarenta e nove anos se passaram desde a primeira vez em que pisei na Igreja Presbiteriana de Canhotinho. Eu era um jovem recém-alcançado pela fé, viajando com outros rapazes da União de Mocidade Presbiteriana. O ônibus de linha avançava lentamente pelos 27 quilômetros que separavam Garanhuns de Canhotinho, serpenteando por São João e Angelim, como se quisesse prolongar a expectativa da chegada.

Ao descer diante do templo, algo me marcou de imediato: no jardim lateral, silencioso e verde, repousavam o Rev. George William Butler, sua esposa Mary Rena Humphrey e o enigmático “Né Vilela”. Aquele túmulo, tão próximo da porta lateral da igreja, parecia guardar não apenas corpos, mas histórias que ainda respiravam.
Anos depois, em 1979, encontrei essas histórias nas páginas da biografia escrita pelo Rev. Edijéce Martins Ferreira. Ali descobri o médico-missionário que unia Bíblia e bisturi, fé e ciência, coragem e ternura. Descobri também o episódio de fevereiro de 1898, quando um fanático tentou tirar-lhe a vida em São Bento do Una. O golpe, porém, encontrou outro peito: o de Manoel Correia Vilela, o Né Vilela, que tombou no lugar do missionário e se tornou o primeiro mártir cristão do Agreste pernambucano. Desde então, aquele nome gravado na lápide nunca mais me soou estranho.
Hoje, 6 de janeiro de 2026, voltando de Garanhuns rumo a Tamandaré, senti o impulso de retornar a Canhotinho. Pedi a um mototaxista que me conduzisse até a igreja. Ao avistar o templo, reconheci-o de imediato – mais imponente, mais vivo, como se o tempo tivesse decidido honrá-lo. O jardim estava cuidado, o túmulo preservado, e a memória, intacta.

Fotografei o lugar. A porta lateral estava entreaberta; bati palmas e entrei. Dois irmãos me receberam com gentileza, entre eles o pastor Welber, capixaba e vascaíno. Havia almoço servido, aroma de comunhão no ar. Aceitei apenas um refrigerante, mas recebi muito mais: acolhimento, conversa, lembranças despertas.
Falamos de Pérola Lins, que já descansa no Senhor, e de Doreide, hoje na Bolívia. Falamos também da expansão do evangelho nas cidades vizinhas – sementes lançadas por Butler, regadas por gerações, florescendo ainda agora.
Saí dali com o coração aquecido. Há algo profundamente belo em testemunhar uma obra que atravessa séculos sem perder vigor. E senti nascer o desejo de levar a Classe 60+ da Escola Bíblica Dominical da IP Madalena para uma visita histórica e cultural àquela comunidade, ainda neste primeiro semestre de 2026. Talvez para que outros também ouçam, no silêncio daquele jardim, os ecos de um legado que não se apaga.
Tamandaré, PE, 6 de janeiro de 2026.
Elias Bispo é contador, atua na área financeira há 44 anos, educador financeiro, servidor público, casado com Mércia (psicóloga) há 42 anos, um casal de filhos, três netos, presbítero na Igreja Presbiteriana Madalena.
Muito bonita história que merece ser preservada. Ao escritor meu parabéns.