O que era estranho, passa a ser um “nosso”
Por Tânia de Medeiros Wutzki

Desde que conheci a realidade das pessoas em situação de refúgio, a causa me mobiliza.
Tenho aprendido com a teologia migrante, a perspectiva bíblica tanto sobre sermos acolhedores como princípios para o acolhimento. Aprendi que somos todos peregrinos, cidadãos de outro reino, e muitos de nós migramos ou nossos antepassados foram migrantes internos ou de fora do país. Como diz o slogan da Missão MAIS “Não são eles, somos nós”. Neste tempo, tenho percebido, também, avanços nas políticas públicas de acolhimento que orientam os serviços, algumas com influência/incidência de organizações cristãs. É bonito ver o que igrejas e organizações têm feito neste segmento.
Entre os conceitos bíblicos que dão base para a nossa prática está o da hospitalidade.
Vou citar apenas um texto: “Pratiquem a hospitalidade” (Rm 12.13b). Paulo inclui a hospitalidade na lista dos aspectos fundamentais para a vida cristã
A hospitalidade bíblica não se refere apenas a uma casa aberta, mas também a outras dimensões como espaço na agenda, tempo para escuta e liberalidade financeira.
Na minha caminhada, aprendi que a palavra hospitalidade no grego é philoxenia – que significa amigo do estranho, do estrangeiro. A Bíblia amplia bem mais o sentido da hospitalidade, que não é receber apenas nossos amigos, irmãos e irmãs, família estendida; é receber o estranho, aquele que desconheço ou que me desafia porque é diferente daqueles com quem convivo.
Acolher o estranho na sociedade, na comunidade, na igreja e na família é o desafio dos seguidores de Jesus.
O objetivo da hospitalidade e do acolhimento é o pertencimento, quando o que era estranho, passa a ser um “nosso”.
O contrário da philoxenia é uma palavra que não gostamos de ouvir, mas está presente em nossa sociedade: xenofobia – medo ou aversão ao estranho. Infelizmente pessoas em situação de refúgio vivenciam a xenofobia com frequência.
Recentemente, li uma reflexão que acrescentou uma outra dimensão na prática cristã da hospitalidade.
A abadessa Christine Valters Paintner nos convida a redescobrir a hospitalidade como um ato radical de pertencimento que começa dentro de nós.
Com base nos ensinos dos monges do deserto, pais da igreja, ela afirma que a prática da hospitalidade não é só com o outro, das relações externas da nossa vida, mas também conosco mesmos, com nossa vida interior, com as estranhezas que surgem ao longo da vida, fraquezas que nos desestruturam, nos tiram do eixo.
Christine nos convida: e “se, quando a vida começasse a desmoronar, eu abrisse meu coração para acolher a dor e o medo que também chegam, e se eu convidasse todos os sentimentos dolorosos de perda e desorientação para um chá com ternura?”
Quando acolhemos os nossos sentimentos estranhos, nos tornamos mais sensíveis para acolher o outro, estranho. A hospitalidade também pode ser uma experiência de dentro para fora, interna e externa.
Esta fase da vida 60+ pode nos trazer algumas estranhezas, sentimento de insegurança, fragilidade e incertezas.
Entre as estranhezas podemos encontrar, talvez, uma agenda que tem mais consultas e exames do que gostaríamos:
Talvez a solidão por não ter mais os relacionamentos do mundo do trabalho e o “ninho vazio”.
Talvez mais reflexão e pensamentos sobre a morte.
Talvez a constatação de que o corpo não está mais tão alinhado com a mente.
Talvez nossa tendência seja reclamar, rejeitar, negar estas estranhezas. Mas podemos ser hospitaleiros, acolhê-las (tomar um chá com elas) e depois, com serenidade, sabedoria e em oração, discernir, tomar decisões e lidar com elas de maneira acertada.
Meu desejo e oração é que nós, a partir da hospitalidade e do acolhimento das nossas estranhezas, estejamos abertos, sensíveis e disponíveis para acolher aqueles que o Senhor colocar em nosso caminho.
Tânia de Medeiros Wutzki foi coordenadora dos projetos sociais da FEPAS na Convenção Batista Independente, é conselheira da Rede Evangélica Nacional de Ação Social/RENAS, integra o grupo gestor do Projeto Retalhos de Esperança e o grupo base do Movimento 60+.
Imagem: Unsplash.
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