A oração dos mais velhos

O que a versão cristã do envelhecimento acrescenta ao desejo legítimo de envelhecer bem?

Há uns dez anos, diante do meu próprio envelhecimento e o do país em geral, comecei a meditar nas possíveis especificidades da oração da pessoa mais velha. Claro, muitas orações do idoso serão semelhantes às das pessoas mais jovens: o agradecimento, o arrependimento, a petição por situações pontuais… Mas será que há algumas petições específicas, ou pelo menos mais prementes, da pessoa que está nessa faixa etária? Minhas meditações levaram-me a enfocar quatro temas que poderiam compor tal “oração do velho”. Apresento-os a seguir, mas evidentemente não se trata de esgotar as possibilidades. Apenas os ofereço como sugestões, esperando que sirvam para instigar outras propostas enriquecedoras da vida de oração da pessoa que envelhece.

Mas, primeiro, um esclarecimento. Colocados sinteticamente dessa maneira, esses quatro temas não são especificamente cristãos. Toda pessoa idosa pode desejar as mesmas coisas. Mas, para cada um desses temas, o pedido cristão vai além. A “Oração do velho” é a transposição cristã de determinados desejos compartilhados com a sociedade, digamos, secularizada. Mas a “versão cristã” relativiza e ultrapassa a “versão secularizada”, introduzindo conteúdos próprios.

Os quatro temas são:

– desejar o bem-estar dos meus descendentes

– aproveitar bem o tempo ativo que me resta

– envelhecer bem

– morrer bem

Primeiro pedido: pelo bem-estar geral e saúde espiritual dos nossos descendentes.

O primeiro tema, então, são os nossos descendentes: filhos e netos, caso haja; ou os membros mais jovens da nossa família extensa; ou os nossos “filhos espirituais”. A versão secularizada deseje talvez que esses descendentes sejam sadios, felizes, prósperos, realizados, equilibrados e protegidos. A versão cristã incluirá alguns desses itens e relativizará outros. Mas, com certeza, acrescentará especificidades cristãs ligadas à saúde espiritual: que sejam cristãos sinceros; que deem prioridade ao reino de Deus e a sua justiça; que perseverem, até o final da vida, firmes na fé, ardentes no amor e constantes no serviço de Cristo. Como disse um famoso cristão sul-africano que sofreu pela sua oposição ao regime racista do apartheid: “Quero que meus filhos sejam felizes, mas quero mais ainda que sejam corajosos”.

Uma belíssima “oração pelos filhos” nos orienta na direção certa:

Liberta-os, ó Senhor, do caminho do pecado e da morte.

Abre seus corações à tua graça e verdade.

Enche-os do teu Espírito santo e vivificador.

Guarda-os na fé e comunhão da tua santa igreja.

Ensina-os a amar aos outros no poder do Espírito.

Manda-os ao mundo para testemunhar do teu amor.

Leva-os à plenitude da tua paz e glória.

Segundo pedido: por sabedoria e disposição para usar bem os anos de vida ativa que nos restam

Sabendo que anos mais difíceis podem vir, todos querem “aproveitar” essa fase de vida, sobretudo se tiverem uma boa aposentadoria e tempo e saúde para fazerem coisas que não puderam fazer antes: viajar e curtir os netos, por exemplo. O desejo de aproveitar bem os anos restantes de saúde e lucidez é natural. Mas e a “versão cristã”, o que acrescenta? Acrescenta a dimensão do reino: colocar esse precioso tempo a serviço do reino de Deus; permanecer útil até o limite das nossas forças, adequando as formas de serviço às nossas capacidades declinantes.

Além do perigo de se “aposentar” cedo demais do serviço do reino, há outro risco espiritual para a pessoa idosa. Como nos alerta um autor cristão antigo, Isaque, o Sírio: “Algumas pessoas são roubadas de sua esperança nos portões da sua própria casa, ou seja, na velhice”. Ao que outro autor antigo, João de Cárpatos, acrescenta: “É mais grave perder a esperança que pecar”. Nesse caso, o que rouba a esperança do idoso é a consciência crescente do fracasso moral ou espiritual, mesmo que ele seja muito respeitado pelas pessoas que o conhecem (lembremos que, diante do desafio de Jesus de “lançar a primeira pedra”, são os mais velhos que desistem primeiro). “Quem é oprimido por um sentimento de incapacidade de alcançar a santidade” deve lembrar-se de que, “embora a sua alma, como Sara, tenha envelhecido na esterilidade, ainda poderá gestar um filho santo, contra todas as expectativas”.

Terceiro pedido: pela graça de envelhecer bem, com dignidade e sabedoria

É natural desejar envelhecer bem e com certo nível de conforto, cercado de família e amigos e tratado com dignidade e consideração. Mas podemos acrescentar outros pedidos sob o rótulo de “envelhecer bem”.

Na velhice, algumas tendências que sempre tivemos se acentuam, tornando-se até desagradáveis. A lista de possíveis tendências desagradáveis é imensa, mas aqui atenho-me a três.

Primeiro, há pessoas com uma tendência à rabugice, as quais se tornam ainda mais rabugentas na velhice! A rabugice é uma forma de ingratidão, e logo se encaixa na advertência de um autor cristão antigo, Marcos, o Asceta, sobre o perigo de desperdiçar o restante da vida, consumido pela autopiedade e ressentimento.

Você deve lembrar continuamente de todas as bênçãos que Deus lhe conferiu no passado e ainda confere. Você não deve se tornar desatento, e assim passar o resto da sua vida inútil e ingratamente.

Saber envelhecer com graça, com graciosidade, é um desafio para o naturalmente rabugento!

Em segundo lugar, outra característica de algumas pessoas idosas é o pessimismo e o ceticismo. Achar que tudo hoje é pior, ter uma visão catastrofista do mundo e mesmo das perspectivas para a fé cristã. Lembremos do alerta de Eclesiastes 7.10: não é sábio pensar assim. Embora o idoso, por ter “dado muitas voltas no quarteirão”, possa, às vezes, alertar para perigos iminentes que outros não veem, ele também corre o perigo de enxergar tudo por um viés saudosista que não ajuda os mais jovens diante dos desafios que enfrentam hoje. Contra essa tendência – que também tenho, ainda mais hoje diante do estado preocupante da política mundial –, procuro lembrar de duas frases. A primeira, de René Girard: “A verdade cristã vem avançando inexoravelmente no nosso mundo. Paradoxalmente, junto com o aparente declínio do cristianismo”. E também paradoxalmente, eu acrescentaria, apesar da incompreensão e até oposição de muitos cristãos. O processo de crescimento do reino, de semente pequena para árvore grande, nem sempre é fácil de discernir, mas é parte da nossa fé. E a segunda frase, do cristão que foi secretário-geral das Nações Unidas, Dag Hammarskjöld: “Não posso associar-me àqueles que acreditam que estamos no caminho da catástrofe… O futuro vai dar certo porque sempre haverá pessoas suficientes para lutar por um futuro decente”. No nosso mundo, rodeado por catástrofes potenciais – degradação ambiental, armas nucleares, desigualdade gritante, democracia encurralada por aspirantes a autocratas –, ainda confiamos que Deus levantará pessoas suficientes.

Em terceiro lugar, talvez algo surpreendente, ainda outra característica lamentável pode manchar a velhice. Numa aplicação genial de Mateus 24.20, Marcos, o Asceta nos adverte:

Assim como a fuga no inverno ou no sábado traz sofrimento ao corpo e imundície à alma, o mesmo resulta do ressurgimento das paixões num corpo envelhecido e numa alma consagrada.

Lembrando que “paixões” abrange muito mais do que a sexualidade (embora a inclua), esta combinação do ridículo e do incongruente retrata perfeitamente as ciladas que muitos de nós enfrentamos na idade mais madura! E aponta para a necessidade de continuar avançando em sabedoria e progredindo nas virtudes, mesmo na velhice.

Quarto pedido: por uma boa morte, física e espiritual

Desejar uma boa morte, de preferência de forma indolor, é natural, embora na nossa sociedade negacionista da morte talvez não seja comum expressá-lo publicamente. Mas a morte é a última etapa da vida, e antigamente era comum orar por uma boa morte, não apenas do ponto de vista físico, mas também espiritual: morrer de maneira cristã, com fé, esperançoso.

Primeiro, esperança no nível micro. Diante das perdas e da morte (de pessoas queridas, e da iminência da nossa própria morte), a belíssima frase de 1 Tessalonicenses 4.13, “não nos entristecemos como os que não têm esperança”, exprime a tensão cristã entre a necessidade do luto e a importância de não perder a esperança. O luto cristão é tingido pela esperança, pois luto e esperança são plenamente compatíveis no cristianismo, graças à promessa de ressurreição.

Em segundo lugar, esperança no nível macro. A esperança cristã final afirma que o bem triunfará e todas as injustiças serão consertadas. Como diz o filósofo cristão Julián Marías, a maior injustiça social é roubar dos outros a esperança de outra vida. Para quem trabalhou pelo reino de Deus, da forma que pôde, até o final de suas forças, morrer cheio de fé nessa esperança cristã macro é o início da recompensa, a qual se estenderá nos novos céus e nova terra que Deus irá inaugurar. É a coroação cabal da “Oração do velho”.

Paul Freston, inglês naturalizado brasileiro, é professor emérito de religião e política em contexto global na Balsillie School of International Affairs e na Wilfrid Laurier University, em Waterloo, Ontário, Canadá, e professor colaborador do programa de pós-graduação em sociologia na Universidade Federal de São Carlos. É autor de, entre outros, Religião e Política, Sim; Igreja e Estado Não; Cristianismo Antigo para Tempos Novos e Nem Monge, Nem Executivo, todos pela Editora Ultimato.

Leia mais:

>> A oração deste idoso, por Kléos M. Lenz César

>> Mentor de aposentadoria: um novo tipo de mentor, por Hilda R. Davis

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